Compromisso com a história
Recuperação do Arquivo Público estadual pode ser um marco para a gestão governamental, depois de anos de abandono e descaso com o passado
Se uma das primeiras vítimas dos regimes ditatoriais é a verdade histórica, ao lado do trabalho da imprensa que permite o compartilhamento e a crítica sobre o que acontece no presente, todos os dias, governos democráticos precisam defender a informação e os registros do passado. A defesa da história não se limita a discursos retóricos em nome de tradições, mas se faz concretamente, através da preservação dos dados e documentos que reúnem testemunhos, perspectivas e modos de vida de uma época. A preservação é traduzida em atos de gestão que valorizam o passado, conjugando-o com a contemporaneidade, para que a memória não se perca, as virtudes sejam transmitidas, e os equívocos não se repitam.
Em artigo publicado no JC-PE, o diretor do Arquivo Público de Pernambuco, o escritor Sidney Rocha, afirma que a recuperação da instituição “é uma forma de corrigir a negligência, que durando tanto tempo, pode ser considerada crônica”. A mudança de endereço é vista como urgente, para que as instalações possam guardar de maneira adequada o material reunido em quase 85 anos de existência – que se completam no ano que vem. O que “deveria ter sido tratado como prioridade há muito tempo” volta a ganhar relevância no atual governo, segundo o escritor. Os processos em andamento podem significar um marco na gestão estadual, exatamente por cuidar devidamente dos registros que estão sendo perdidos, graças ao passivo de descaso em gestões anteriores.
Como integrante da gestão, Sidney Rocha assume a responsabilidade que antecessores não tiveram respaldo para assumir. “Temos o dever histórico de consertar os rumos de nosso Arquivo”, escreveu, lembrando que o patrimônio não pertence ao governo do Estado, mas a todos os pernambucanos. O diretor aponta as revitalizações dos edifícios do antigo Diário de Pernambuco e do Cine São Luiz como exemplos de que o rumo certo para a preservação da memória cultural está sendo tomado. No que concerne ao Arquivo Público, os primeiros passos foram dados, mas como admite o gestor, há muito a se percorrer.
Sidney Rocha informa, no artigo, o que está em andamento e o que falta acontecer. O balanço de ações e intenções ressalta a importância do equipamento, desde as gerações passadas até as futuras. E sinaliza para a possibilidade de uma inédita gestão documental no estado. “É possível vislumbrar um futuro em que o Arquivo Público não só estará preservado fisicamente, mas também modernizado, acessível e valorizado por todos”. E utiliza uma expressão que podemos destacar como chave para a continuidade da recuperação em curso: trata-se de um legado de compromisso – não apenas da governadora Raquel Lyra e sua equipe com a história estadual, mas de toda a sociedade pernambucana, representada pela atual gestão, com nossos antepassados, seus fazeres e saberes, e tudo que puderam deixar para nós como registros inscritos na memória coletiva do Arquivo Público de Pernambuco.