Feminicídio

#UmaPorUma é destaque em fórum europeu sobre jornalismo de dados

Projeto multimídia do SJCC, que contabilizou e monitora o assassinato de mulheres em Pernambuco, é o único da América Latina em evento internacional sobre jornalismo de dados

Ciara Carvalho
Ciara Carvalho
Publicado em 22/11/2020 às 2:00
Foto: JC Arte
Promovido pela OAB/Caruaru, simpósio discute criminalização da homofobia e enfrentamento do feminicídio - FOTO: Foto: JC Arte
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O projeto multimídia #UmaPorUma, desenvolvido pelo Sistema Jornal do Commercio de Comunicação, será um dos destaques do News Impact Summit (NIS), evento promovido, desde 2014, pelo Centro Europeu de Jornalismo. O tema deste ano será "Jornalismo de dados: construindo confiança na mídia" (#NISData), que reunirá iniciativas de diversos países que se destacaram por associar jornalismo, tecnologia e inovação. O #UmaPorUma é o único representante da América Latina no evento internacional. O projeto pioneiro na imprensa brasileira pôs luz sobre as histórias de todas as mulheres assassinadas em Pernambuco no ano de 2018.

Durante 12 meses de monitoramento e publicações, o projeto deu visibilidade aos casos de feminicídio e pressionou as autoridades a identificar com mais precisão o crime de gênero. Em 2018, 241 mulheres foram assassinadas no Estado, sendo 85 vítimas de feminicídio. O #UmaPorUma faz atualizações periódicas dos casos, acompanhando o andamento de todos os homicídios, desde a esfera policial até o desfecho final na Justiça, com o julgamento dos acusados. O monitoramento tem revelado o alto grau de impunidade que marca os crimes de gênero. Na última atualização do projeto, publicada no final de dezembro do ano passado, apenas 12 casos tinham ido a julgamento.

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A coordenadora da Equipe de Eventos e Formação do Centro Europeu de Jornalismo, Vera Penêda, ressaltou a contribuição do projeto do SJCC para ajudar a evidenciar um problema social urgente. "O #UmaporUma não só é um magnífico trabalho de jornalismo de dados, mas foi produzido por uma equipe majoritariamente feminina, para chamar a atenção sobre um problema sistêmico no mundo, que é a violência de gênero, com um impacto que foi além da cobertura jornalística. Este é o tipo de jornalismo inovador que mostramos no palco das summits", afirmou.

Esta é a 6ª edição do News Impact Summit, a primeira realizada em versão online, em função da pandemia do novo coronavírus. Nos encontros anteriores, a reunião sempre ocorreu em países da Europa. O evento começa na próxima terça-feira (24) e segue até a quinta (26). Reúne jornalistas, editores, freelancers e profissionais da mídia que trabalham ou querem desenvolver-se na área de jornalismo de dados. A programação é centrada em debater como essa ferramenta pode ajudar a combater a desinformação e tratar de temas como justiça social, gênero, eleições, saúde, além do impacto humano e econômico da pandemia. Há sessões e workshops sobre automatização de dados, desenvolvimento de produtos e novas ferramentas, visualização e acesso (e obstrução) a dados públicos.

Mais de 1.500 inscrições já foram realizadas para acompanhar as palestras, todas em inglês, com inscritos do Reino Unido, Espanha, França, Estados Unidos, Alemanha e, nesta versão virtual, também do Brasil. "O nosso programa tem sempre um foco europeu, no sentido de apoiar o jornalismo na Europa. Porém, sabemos que há muito jornalismo inovador sendo produzido no mundo inteiro e queremos aprender sobre estes trabalhos", destaca a representante do Centro Europeu de Jornalismo. Vera Penêda observa que uma vantagem da versão online é que qualquer pessoa, com acesso à internet poderá participar, já que o evento é gratuito.

Para o diretor de redação do Jornal do Commercio, Laurindo Ferreira, o alcance conquistado pelo #UmaPorUma reafirma o jornalismo de qualidade desenvolvido no Sistema Jornal do Commécio de Comunicação. "Participar de um evento como o News Impact Summit é mais uma conquista de um projeto diferenciado, ousado, que vai muito além do bom jornalismo. Porque impacta na sociedade, mobiliza agentes públicos, valoriza e discute as questões de gênero, além de produzir dados essenciais à compreensão da tragédia brasileira que é o feminicídio", afirma o diretor de redação.

O coletivo, formado por jornalistas mulheres do SJCC será representado no encontro pelas coordenadoras do projeto, Ciara Carvalho e Julliana de Melo, e pela repórter Karoline Albuquerque, uma das integrantes do grupo. "O projeto segue no desafio coletivo de acompanhar o andamento do processo penal do caso de cada uma das mulheres, da fase policial até o julgamento, deixando evidente, através dos números e das histórias contadas, o quanto a inércia do aparelho repressor e de Justiça termina favorecendo quem deveria estar sentado no banco dos réus", ressalta Julliana. A participação do #UmaPorUma no #NISData será na quinta-feira, às 11h (horário de Brasília).

Para se inscrever no evento: newsimpact.io

PROJETO COLABORA COM FERRAMENTA DO MIT

O trabalho de coleta, visualização e monitoramento de dados feito pelo projeto #UmaPorUma está contribuindo para o desenvolvimento de uma ferramenta de identificação de feminicídio, elaborada pelo núcleo do Data + Feminism Lab do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT, na sigla em inglês). O estudo busca entender o processo de monitoramento de feminicídios realizado por diferentes organizações na América Latina, com o propósito de desenvolver uma ferramenta interativa para facilitar o trabalho de identificação e documentação de feminicídios. A ferramenta será gratuita e disponibilizada em formato de código aberto.

O projeto de pesquisa do MIT, intitulado "Detectando Feminicídios: Aplicabilidade da Aprendizagem Automática (Machine Learning) no Monitoramento da Violência Contra as Mulheres", é desenvolvido em parceria com as organizações Feminicidio Uruguay e Latin American Open Data Initiative (ILDA). A pesquisadora brasileira e doutoranda do Departamento de Estudos e Planejamento Urbano do MIT Isadora Cruxên afirma que este é um projeto de pesquisa de ação participativa. "Ele é projetado para explorar como a tecnologia e a aprendizagem automática podem apoiar o trabalho de ativistas da sociedade civil que monitoram a violência de gênero e feminicídio nos EUA e na América Latina", explica Isadora.

Um dos objetivos da ferramenta é desenvolver, por meio de palavras-chave, um mecanismo de busca que ajude a catalogar notícias sobre crimes de feminicídio no mundo inteiro. Na avaliação de Ciara Carvalho, uma das coordenadoras do projeto #UmaPorUma, a criação de um instrumento de monitoramento dos crimes de feminicídio será importante para reduzir a subnotificação dos casos. Sobretudo porque a subjetividade que ainda impera na notificação dos homicídios é um obstáculo concreto para identificação dos crimes de gênero.

A experiência do #UmaPorUma mostrou que são recorrentes os casos em que, apesar da condição de ser mulher ter sido determinante para o homicídio, o registro policial não considera o crime como feminicído. "Essa talvez seja uma das mais importantes contribuições do projeto para a pesquisa desenvolvida no MIT. O acompanhamento dos casos evidenciou que precisamos olhar para além das estatísticas". pontua a jornalista.

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