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O manual básico para não cair nas mentiras sobre vacinas em 2021

Especialistas desmentem os principais boatos e dão dicas para acompanhar as notícias sobre os imunizantes produzidos no Brasil e no mundo

Débora Oliveira Laís Arcanjo
Débora Oliveira
Laís Arcanjo
Publicado em 15/12/2020 às 10:00
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Entenda mais sobre os imunizantes produzidos para combater a covid-19 - FOTO: REUTERS/SIPHIWE SIBEKO
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Matéria produzida pelo projeto Confere.ai em parceria com o Jornal do Commercio. - confere.ai

A poucas semanas do início do novo ano, aumentou a circulação dos conteúdos falsos sobre as vacinas contra a covid-19. Com a chegada dos primeiros imunizantes capazes de combater o Sars-Cov-2 e o debate político envolvido, os grupos e movimentos antivacina ganharam força. Segundo pesquisa realizada pela União Pró-Vacina (UPVacina), ligada à Universidade de São Paulo (USP), o número de publicações falsas ou distorcidas envolvendo o tema cresceu em 383% num intervalo de dois meses, entre maio e julho deste ano. Você já sabe identificar o que é boato sobre o tema?

O programa de imunização previne entre 2 e 3 milhões de mortes anualmente em todo o planeta, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). O Brasil é referência na produção mundial de vacinas, distribuindo 25 tipos diferentes gratuitamente através da rede pública de saúde e exportando para mais de 70 países. Mas, durante a pandemia, as taxas de imunização caíram. Em Pernambuco, o percentual de vacinação infantil caiu em 30%. De acordo com os órgãos de saúde, a taxa ideal deve atingir 90% da população alvo das campanhas.

A corrida pela imunização - e contra ela - seguirá mesmo depois de o relógio bater as doze horas do dia 31 de dezembro. Para se prevenir contra os boatos que estão surgindo, o Confere.ai preparou um passo a passo com dicas de especialistas, guias de universidades e locais para se informar sobre as vacinas. Veja abaixo.

Entenda os mecanismos que garantem a segurança das vacinas

A segurança dos imunizantes é um dos principais subtemas dos boatos sobre vacinas. Para a microbiologista e presidente do Instituto Questão de Ciência, Natália Pasternak, o fenômeno tem raízes sociais e econômicas. “O movimento antivacina é financiado por empresas que prometem curas naturais e um estilo de vida que diz que as vacinas não são necessárias. Existem muitos mitos propagados por esse movimento”, explica a bióloga, “além disso, há uma desconfiança da população sobre as vacinas por não entender quais processos garantem a segurança e eficácia delas. Isso se tornou mais evidente durante a pandemia”.

Por isso, o primeiro passo para não cair nos boatos sobre vacinas é saber como funcionam os mecanismos que garantem a segurança dos imunizantes, segundo a pesquisadora. Para isso recomendamos este conteúdo produzido pela equipe do Confere.ai sobre o processo de produção de uma vacina.

>> Leia mais: Como são feitas as vacinas e por que elas são seguras

A mais recente onda de desinformação tenta descredibilizar a vacina produzida pela biofarmacêutica chinesa Sinovac em parceria com o Instituto Butantan. Os argumentos não se sustentam. “O que nós precisamos é que todos os países, laboratórios e institutos de pesquisas apresentem os dados em revistas com corpo editorial de cientistas que possam analisá-los e dizer o quão efetiva e segura seja qualquer tipo de vacina que esteja sendo desenvolvida em qualquer país”, explica o pesquisador do Laboratório de Imunorregulação da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) Carlos R. Zárate-Bladés.

“Todas as vacinas que forem veiculadas no Brasil serão avaliadas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Venham elas da China, EUA ou Inglaterra. A Anvisa não olha passaporte de vacina e sim se ela é segura e eficaz”, completa Natália.

Recentemente a Anvisa aprovou medidas emergenciais para liberação de vacinas contra a covid-19 no Brasil. Entretanto, a nova norma não descarta os procedimentos que avaliam a “qualidade, segurança e eficácia conforme os requerimentos técnicos e regulatórios vigentes", conforme divulgou o órgão em comunicado.

Os requisitos mínimos para a aprovação de qualquer vacina contra a covid-19 no país podem ser vistos aqui. No último sábado (12), a agência divulgou o estágio de análise em que estão as vacinas que podem chegar ao Brasil.

 

 

Fique atento às conspirações antivacinas

 
 
 
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Boa parte das teorias da conspiração envolvem nomes de personalidades e organizações famosas, a fim de serem mais aceitas pelas pessoas. No movimento antivacina, é recorrente o nome do bilionário e cofundador da Microsoft Bill Gates. Além da empresa de software, o empresário fundou a Bill and Melinda Gates Foundation, uma fundação que apoia e financia projetos de saúde pública, como o desenvolvimento e distribuição de vacinas, por isso a ligação com as teorias conspiratórias.

Uma delas parte da afirmação falsa que vacinas matam e que um suposto uso das vacinas da covid-19, financiadas por Bill Gates, estaria sendo utilizado para controle populacional. Na mesma ocasião, Bill Gates foi acusado de estar por trás do surgimento da doença, devido a uma palestra que ele descrevia como seria a próxima grande pandemia.

Outras peças de desinformação já alegaram que as vacinas contra o novo coronavírus são capazes de alterar o DNA da população. Nesta checagem realizada pelo Projeto Comprova é desmentido que os imunizantes que utilizam a técnica de mRNA possam causar danos genéticos irreversíveis.

As vacinas de RNA, a exemplo da produzida pela empresa de biotecnologia Moderna, utilizam parte do código genético do coronavírus, que é injetado no corpo e se encarrega de produzir proteínas capazes de atacar e proteger o organismo através do sistema imunológico. Nessas vacinas, o RNA mensageiro (mRNA) é incorporado em nanopartículas lipídicas, que enviam o mRNA para dentro do citoplasma. Para isso, são utilizadas nanotecnologia e a eletroporação - procedimento que introduz material nas células através de estímulos elétricos. Nada é inserido no genoma humano, o que, portanto, não altera o DNA.

Fatores políticos como a polarização das posturas adotadas para o combate à covid-19 e a ansiedade da comunidade de profissionais de saúde trabalhando na linha de frente, além da expectativa da população, acabaram levantando informações equivocadas sobre os possíveis tratamentos na pandemia. Os holofotes em medicamentos que ainda não têm eficácia científica comprovada para o tratamento da covid-19aumentaram a automedicação e a falta deles para os pacientes portadores de doenças crônicas. Drogas como ivermectina, azitromicina, hidroxicloroquina e outras já comercializadas também foram/são alvos de estudos, mas ainda não existe medicamento de eficácia científica comprovada para o tratamento ou prevenção da covid-19. A venda dos fármacos sem receita já foi proibida.

>> Leia mais: Como é descoberto o medicamento que pode tratar uma doença

 

Saiba como funciona a imunização


Países no mundo todo estão dando início ao plano de vacinação contra a covid-19, a partir da comprovação dos primeiros imunizantes que possuem eficácia e segurança. Mas, mesmo com as candidatas estabelecidas, ainda há especulações sobre os efeitos que elas podem causar, principalmente pelo tempo recorde de pesquisa e produção. Um dos questionamentos é de que vacinas causam a doença que dizem prevenir. A médica e presidente da Comissão de Revisão de Calendários Vacinais da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), Mônica Levi, explica que não faz sentido tal afirmação.

“São utilizadas várias plataformas diferentes no desenvolvimento de uma vacina, mas o que se faz é induzir o nosso corpo a fabricar anticorpos para o proteger quando houver uma infecção natural”, explica. Segundo ela, a vacina não é capaz de causar a doença que visa proteger. As vacinas de vírus vivo atenuado - feitas de vírus vivos que passaram por procedimentos que os enfraqueceram - até podem ter uma reação semelhante à própria doença, mas muito mais fraca. “A vacina do sarampo, por exemplo, pode desenvolver em até 5% dos vacinados, na primeira vez que tomarem a vacina, pelo contato do antígeno do vírus vivo atenuado, o que a gente chama de sarampinho.É uma febre com umas bolinhas vermelhas pelo corpo. Mas isso não tem nenhuma gravidade comparado à própria doença. O sarampo mata. É importantíssimo que a gente vacine mesmo sabendo que podem haver eventos adversos, mas jamais a doença que ela visa prevenir”, acrescenta Mônica Levi.

Em relação à sobrecarga antigênica, ou seja, a sobrecarga do sistema imunológico para o uso de vacinas combinadas ou por aplicação simultânea de mais duas vacinas, também não há o que temer, segundo Mônica. O sistema imune tem uma capacidade para responder a diversos antígenos que vão além dos que são recebidos com a vacinação. Os antígenos são substâncias capazes de desencadear a produção de anticorpos no organismo humano. “Um recém-nascido, por exemplo, é colonizado por diversas bactérias logo após o parto, e a quantidade e variedade é muito maior à carga de antígeno que ele vai receber com vacinas posteriormente. Os cálculos matemáticos, a ciência, mostram que uma criança pequena é capaz de responder a até 10 mil vacinas num determinado momento, simultaneamente. Se onze vacinas fossem aplicadas no mesmo momento, a gente estaria usando apenas 0,1% do sistema imune, ou seja, não existe essa sobrecarga”, esclarece.

A separação das vacinas é marcada por um calendário para que não haja possíveis interferências na imunização, principalmente entre as vacinas que possuem antígenos do vírus vivo em suas composições. “Algumas vacinas têm a recomendação de separar por um mês, mas não por ser uma sobrecarga imunológica. Nossa capacidade imune é muito maior do que aquela utilizada para o desenvolvimento de anticorpos com as vacinas”, complementa Mônica.

Alimentação e hábitos de vida saudáveis são benéficos não só para a imunidade como saúde cardiovascular, bem-estar físico e higiene mental. Mas nem as pessoas saudáveis estão livres de adoecerem. “A interação entre o vírus ou a bactéria e o sistema imune da pessoa é extremamente variável. Não tem como prever se pessoas saudáveis por serem saudáveis vão ter uma resposta imunológica capaz de protegê-las realmente de uma infecção grave ou de morte. Nós estamos vendo aqui na pandemia pessoas jovens, sem nenhuma doença de base, adoecendo e até morrendo. Então é fundamental manter hábitos saudáveis, mas não que isso seja suficiente para proteger contra doenças graves”, relata a médica. Fatores que contam para o desenvolvimento da doença dependem da letalidade do vírus, da agressividade, da carga viral adquirida, entre outros. “Nem sempre nosso sistema imune, mesmo naquele atleta, naquelas pessoas saudáveis, vai vencer essa batalha”, finaliza Levi.

Selecione os canais onde você se informa


A cada nova atualização sobre o andamento dos imunizantes, podem surgir novos boatos baseados em ideias conspiratórias. Antes da pandemia, uma pesquisa já havia identificado a presença desses conteúdos no Youtube, que estariam associados a vendas de produtos alternativos de saúde.

>> Leia mais: Pesquisa identifica desinformação sobre vacina circulando no Youtube

Outro estudo, publicado pela pela professora de conteúdo digital da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) Isabela Pimentel, em outubro deste ano, identificou novos canais de desinformações sobre vacinas no Youtube, além de mostrar a preferência dos usuários por consumir canais que propagavam desinformações sobre as vacinas.

Para a pesquisadora, a causa disso seria o formato do conteúdo desses canais. Eles são mais pessoais, com histórias testemunhais que se aproximam dos usuários, enquanto a linguagem dos órgãos oficiais é distante.

>> Leia mais: Estudo diz que público prefere consumir boatos a verdades sobre vacina

Além de verificar tudo o que recebe, é importante acompanhar as agências de checagem e as organizações jornalísticas, que priorizam a apuração rigorosa das informações. Para quem prefere um conteúdo de cunho mais pessoal, é possível também acompanhar as redes de cientistas e divulgadores científicos que trazem informações qualificadas sobre a pandemia e as vacinas. A ferramenta Science Pulse disponibiliza uma lista de perfis de cientistas para seguir, de acordo com o tema de interesse. Acesse aqui.

Confere.ai


Em funcionamento desde setembro, o Confere.ai é uma plataforma que realiza checagem automática de notícias. Através do Confere você evita cair em desinformação e deixa de compartilhar boatos nas redes sociais. Para utilizá-lo é bem simples: basta copiar o texto ou link que deseja checar, acessar ‘www.confere.ai’ e colar o conteúdo na barra de checagem. Depois é só em ‘Conferir’. Em poucos segundos você receberá o resultado. O medidor te indicará o nível de desinformação presente no material inserido. A escala vai de mínimo,selo dado para conteúdos com poucos indícios de ser falso, a crítico, para conteúdos com muitas características presentes em desinformações.

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