URBANISMO

As vidas, comércio e habitação cultivados em volta da Avenida Caxangá, coração da Zona Oeste do Recife

Primeiro trecho do que hoje conhecemos como Caxangá foi construído em 1842. De lá para cá, avenida sofreu diversas mudanças, tanto estruturais, quanto vocacionais. Conheça a história da via e de quem dela depende

Katarina Moraes
Katarina Moraes
Publicado em 25/09/2021 às 7:00
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FELIPE RIBEIRO/JC IMAGEM
Situação Avenida Caxangá (Andre Carneiro) - FOTO: FELIPE RIBEIRO/JC IMAGEM
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Esta reportagem é vinculada a "Avenida Caxangá, no Recife: de uma ponta a outra, "a maior em linha reta" de problemas". Clique para ler antes.

 

Não é exagero dizer que a Avenida Caxangá é o coração da Zona Oeste do Recife. Ela está para a região assim como a Conde da Boa Vista, por exemplo, está para o Centro. Tudo gira em torno da Caxangá. Virou ponto de referência e um curioso motivo de orgulho para os pernambucanos, que têm fama de ser superlativos. Mas ainda que ela não seja, de fato, “a maior em linha da América Latina”, sua extensão de incríveis 6,18 quilômetros atraem comerciantes, empresas e habitacionais interessados em estar na avenida que corta seis bairros e faz a ligação com a cidade vizinha, Camaragibe.

A via vai desde a Rua Benfica, na Madalena, até a Avenida Doutor Belmiro Correia, na Ponte Pênsil da Caxangá - a primeira do Brasil -, sobre o Rio Capibaribe, no bairro homônimo. O equipamento foi projetado em 1842 por ninguém menos que o engenheiro francês Louis Léger Vauthier, o então chefe das Obras Públicas da província de Pernambuco, também responsável pelo Teatro de Santa Isabel e a ponte de Santa Isabel, entre outros, durante a gestão de Francisco do Rego Barros, o Conde da Boa Vista. Com as cheias de 1869, todavia, foi destruída e refeita em ferro.

Segundo estudos da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFPE), o primeiro trecho do que hoje conhecemos como Caxangá foi construído em 1842 na área que no século XVII era conhecida como Engenho do Brum. Denominado “Estrada de Paudalho”, a via começava no largo da Madalena e terminava no povoado da Caxangá - fundado pelo Padre Francisco Pereira Lopes Caxangá no final do século XVIII. A avenida ganhou o nome do religioso em 1843.

“As margens passaram a ser ponto de hotéis para os banhos medicinais, de veraneio e para cura de doenças. Também foi instalada a estação de bondes na Caxangá, a estação férrea da Várzea. Com a II Guerra Mundial, a avenida passou a ser uma via rodoviária, tornando-se a principal ligação do Recife com a Mata Norte e o Agreste setentrional. Em 1940, um lado da avenida foi pavimentado pelo prefeito Novais Filho, mas só em 1965 houve de fato a inauguração da Avenida Caxangá, com a pavimentação completa, viabilizada pela demanda popular”, explicou a professora do departamento de história da UFRPE Mariana Zerbone.

Atualmente, seis linhas de BRT trafegam na avenida (TI Caxangá, TI CDU, TI CDU/TI Joana Bezerra, TI Getúlio Vargas, TI Camaragibe e TI Camaragibe/Derby), que, ao todo, transportam 32 mil usuários por dia - sem necessariamente passar pela Caxangá. Outras sete linhas convencionais (TI Tancredo, Neves/TI Macaxeira, CDU/Caxangá/Boa Viagem, TI TIP/Caxangá, Curado II/Caxangá, Casa Amarela/CDU, CDU/Boa Viagem/Caxangá e TI Rio Doce/CDU) passam pela via, que juntas têm 26.300 usuários diários, segundo o Grande Recife Consórcio de Transporte.

FELIPE RIBEIRO/JC IMAGEM
Situação Avenida Caxangá - FELIPE RIBEIRO/JC IMAGEM
FELIPE RIBEIRO/JC IMAGEM
Situação Avenida Caxangá - FELIPE RIBEIRO/JC IMAGEM

“A criação da Caxangá era necessária pelo volume considerável de tráfego que vem dos bairros ao seu redor e dos municípios vizinhos”, afirma o doutor em transporte e professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) Oswaldo Lima Neto. “Ela foi um dos primeiros corredores que nós tivemos estabelecido dando prioridade ao transporte público: o que é certo. Até hoje está servindo, porque o BRT está funcionando, e, ainda que haja trechos com tráfego misto, a prefeitura tem procurado separar uma faixa exclusiva, o que garante uma boa velocidade comercial para ele”.

O movimento da área é essencial para André Carneiro, 50 anos, e Maria Lucinere, 52, sustentarem a casa com um fiteiro embaixo do viaduto da BR-101. “Eu fiquei desempregado e viemos para cá para sobreviver porque surgiu a oportunidade. O movimento é bom no verão, dá para a gente se manter, o problema é só no inverno, quando a água sobe. Mas no geral é tranquilo trabalhar por aqui”, disse André, conhecido como Del, que mora em Aldeia, Camaragibe, e se desloca até a Caxangá todos os dias.

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Fiquei desempregado e viemos para cá para sobreviver. O movimento é bom no verão, dá para a gente se manter. O problema é só no inverno, quando a água sobe. Mas, no geral, é tranquilo trabalhar por aqui", conta o ambulante André Carneiro - FELIPE RIBEIRO/JC IMAGEM

A artesã Elizabete do Carmo, 50, que passa diariamente pela Caxangá, considerou positiva a criação do BRT, apenas reclama do vandalismo praticado contra as estações. “O pessoal mesmo que quebra. Sem o vandalismo, já ajudaria muito. O trânsito melhorou muito depois que colocaram o BRT, embora muita gente ainda reclame”, disse.

Outro fator curioso é a quantidade de concessionárias de veículos instaladas na Caxangá. Só por mapeamento no Google Maps a reportagem encontrou 19 lojas do tipo. A gerente de uma delas, Christiana Barros, informou que a tendência é antiga. “O ramo de carros é um ramo que quanto mais concorrência ao seu redor, melhor seu giro, porque atrai clientes que às vezes vão em várias lojas para conferir os estoques. E esse movimento de comércio de veículos da Avenida Caxangá e da Rua José Osório é muito forte”, pontuou.

Na Caxangá também estão instalados equipamentos históricos e importantes para o Recife, como o Parque de Exposições de Animais, Hospital Barão de Lucena, Hospital Getúlio Vargas, Caxangá Golf Country Clube e o Casarão João Alfredo, atualmente o Museu da Abolição.

Habitação

Após a sanção, em 2001, da conhecida “Lei dos 12 Bairros” pelo então prefeito João Paulo Lima e Silva (PT), uma forte expansão condominial atingiu a Zona Oeste do Recife. Isso porque o texto limitava o tamanho dos prédios no Derby, Graças, Espinheiro, Aflitos, Jaqueira, parte da Tamarineira, Parnamirim, Santana, Casa Forte, Poço da Panela, Monteiro e Apipucos. Além disso, ainda obrigava maior percentual de solo natural; a adaptação da altura da edificação à largura da rua; e padrões de ocupação para proteger a paisagem e a arquitetura dos lugares.

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VALORIZADA Via bem localizada chamou atenção de construtoras. E houve sucesso de venda de apartamentos - FELIPE RIBEIRO/JC IMAGEM

“Isso freou o volume de construção nessa região, e despertou a atenção das construtoras para outras regiões mais periféricas, como Cordeiro, Prado, Várzea, etc. De 10 anos para cá, uma série de prédios foram construídos - e com absoluto sucesso de vendas, já que é perto da universidade, com corredor de trânsito bem servido de transporte urbano. E a avenida também tem uma importância grande nisso por ligar toda Zona Oeste da cidade. Teve tempo que ela era menos valorizada. Hoje em dia, ali tem mercado para qualquer terreno”, avaliou Luciano Novaes, vice-presidente do Sindicato da Habitação de Pernambuco (Secovi-PE).

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