FOME

"Tenho um prato de comida para dividir para três filhas". A ceia de Natal das ruas do Recife

Enquanto parte da população está em casa, reunida com a família e com uma mesa farta neste 24 de dezembro, há um outro lado da cidade que grita por comida

Katarina Moraes
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Katarina Moraes
Publicado em 24/12/2021 às 22:38 | Atualizado em 25/12/2021 às 10:14
GUGA MATOS/JC IMAGEM
Osmar Henrique Silva, 28 anos, pede todos os dias doações na Rua da Aurora - FOTO: GUGA MATOS/JC IMAGEM
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Um prato de estrogonofe com arroz, um pão e uma maçã. Foi o que Osmar Henrique Silva, 28 anos, conseguiu de doação após passar quatro horas em pé em um cruzamento da Rua da Aurora, em Santo Amaro, área central do Recife. Essa, segundo ele, será “a ceia” de suas três filhas, de 4, 6 e 9 anos, na véspera de Natal. Ex-funcionário público, ficou desempregado no início da pandemia da covid-19 - uma história que pertence a muitos. Desde então, não tem conseguido um trabalho além dos bicos que faz como pedreiro, que pouco têm dado para sustentar a família, de quem cuida sozinho. Desesperado, conta com a solidariedade todos os dias segurando uma placa “preciso de alimentos para meus filhos”. Até mesmo na mágica véspera de 25 de dezembro.

Quase sinônimos de Natal, as palavras esperança e renovo, para ele, significam mais que desejos, são necessidades. “Essa foi a primeira vez que cai. Mas na bíblia tem escrito que o cair é do homem, e o levantar é de Deus. Sempre estou orando para sair dessa. Isso é só uma nuvem, é passageiro. Tenho fé que isso vai passar.” Antes da crise sanitária, ele nunca havia passado a data na situação que chama de “humilhante”. Ao redor dele, poucos carros passavam pelas vias. Não havia pedestres ou ciclistas. Osmar “celebrou” a data em uma noite solitária e fria.

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Osmar Henrique Silva, 28 anos, levará para as três filhas uma quentinha, um pão e uma maçã - GUGA MATOS/JC IMAGEM



Nesta sexta, bastou o sol se esconder para que as lojas fechassem, os trabalhadores subissem nos ônibus e as compras de última hora findassem. Todos foram para suas casas. Dentro delas, mesas foram postas, presentes foram colocados embaixo das árvores, músicas natalinas começaram a tocar e as ceias - cada uma a sua maneira - reuniram parentes ao redor. Mas nas ruas da capital pernambucana o acender das luzes decorativas foi simultâneo ao esvaziar destas. A não ser pela presença de gente como Osmar, pessoas que vagueavam no sereno à procura de comida, o que há de mais trivial para a sobrevivência humana, e um dos símbolos do Natal.

Poucos metros depois, na Ponte Santa Isabel, os seis filhos e quatro netos de Maria Ramos, 43, corriam de um lado para outro na avenida. Ela, rouca de tanto gritar para que ficassem por perto, estava exausta por volta das 20h. Desde terça-feira dorme no local para levar o que comer para casa, se é que se pode chamar assim um barraco na beira de barreiras no Alto Treze de Maio, Vasco da Gama, Zona Norte da cidade. Com apenas água na geladeira, a família se deslocou até o Centro para ter do que se alimentar no Natal, já que o auxílio de R$ 212 de Bolsa Família, apesar de importante, não é suficiente para encher tantas barrigas.

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Maria Ramos, 43, sonha em passar o próximo Natal em casa com a família - GUGA MATOS/JC IMAGEM

Mesmo não sendo mais religiosa, Maria sonha em poder ter, como um dia já teve, uma ceia simples dentro de casa, e nunca mais precisar voltar às ruas. “Há dezenove anos eu vivo nessa situação. Meu marido não consegue emprego, e precisamos sair para comer. O Conselho Tutelar diz que vai levar meus filhos se eu não tirá-los daqui, mas não sabe nossa situação. Aqui, não dormimos. Temos medo toda noite. Se eu não precisasse, passava meu Natal em casa, segura. Mas por que comemorar? Daqui a um ano vai ter Natal de novo, e eu vou estar aqui, nessa mesma situação”, disse, chorando.

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Crianças no sereno aguardam por alimentos na noite de Natal - GUGA MATOS/JC IMAGEM

A família, como tantas outras pelo Centro, foi alimentada por grupos religiosos que distribuem comida, água e café aos mais necessitados. Foi a partir dessa ajuda que Rinaldo José da Silva, 49, também pôde matar a fome no Natal. Iluminado pela grandiosa decoração da Boulevard Rio Branco, no Bairro do Recife, ele comia em uma quentinha de isopor e com garfos descartáveis: como todos os outros dias do ano. Sem familiares próximos, Rinaldo passa a data sozinho todos os anos, desde que se tornou uma pessoa em situação de rua.



“Estou aqui há mais de dois anos, desde quando minha casa foi vendida. Ano passado fiquei o Natal no projeto social, mas hoje estou aqui. Não ganho Bolsa Família, não ganho nenhuma renda. Nunca trabalhei de carteira assinada, sou analfabeto. Vou ganhando R$ 20, R$ 30 aqui dando uma ajuda para o pessoal, carregando carroças. Nos últimos tempos, a situação vem ficando mais complicada. Não tenho família, não tenho filhos. Vivo só. Não tenho quem olhe por mim”, contou.

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Rinaldo José da Silva, 49, conseguiu a doação de uma quentinha para se alimentar no Natal - GUGA MATOS/JC IMAGEM

Por tudo isso, ele não demonstrou empolgação ao ser perguntado sobre a importância do 25 de dezembro. A prosperidade, alegria e a paz trazidas por este dia não chegaram. Pior, vê indo embora cada vez mais no Brasil, o país cuja metade da população sofre algum tipo de insegurança alimentar - ou seja, não sabe se e o que comerá amanhã - e que voltou ao Mapa Mundial da Fome, classificação da Organização das Nações Unidas (ONG) que havia abandonado em 2014. Para Rinaldo, o menino Jesus - pobre, negro e rejeitado, como ele - e tudo que ele representa ainda hão de nascer. Precisam nascer.

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