COVID-19

Cremepe investiga médicos que distribuem hidroxicloroquina no Recife, com o apoio da deputada Clarissa Tércio

Grupo formado por profissionais de saúde esteve no bairro de Casa Amarela, prescrevendo e distribuindo gratuitamente a hidroxicloroquina para os sintomas iniciais da covid-19

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Publicado em 14/05/2020 às 18:01
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Foto:  Soares/Alepe
Clarissa Tércio defende o uso de hidroxicloroquina para prevenção e tratamento dos sintomas iniciais da covid-19 - FOTO: Foto: Soares/Alepe
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Atualizada às 8h18

O Conselho Regional de Medicina (Cremepe) está investigando a conduta de médicos que atuam no grupo denominado de “Doutores da Verdade”. Com o apoio da deputado estadual Clarissa Tércio (PSC), os profissionais de saúde estão realizando caravanas para atender as comunidades carentes com objetivo de promover o tratamento e a prevenção do novo coronavírus (covid-19) através da prescrição e distribuição de hidroxicloroquina.

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Nesta segunda-feira (11), a parlamentar e os "Doutores da Verdade", estiveram no bairro de Casa Amarela, disponibilizando o atendimento gratuito. De acordo com o Cremepe, por meio de nota, foi “instaurado expediente de apuração das informações referentes ao programa”. “O expediente corre em sigilo processual para não comprometer a investigação. Os expedientes são regidos pelo Código de Processo Ético - Profissional (CPEP) estabelecido pela Resolução CFM Nº 2.145/2016”, afirma o órgão.

O Ministério Público de Pernambuco (MPPE) também foi acionado para averiguar a conduta dos profissionais sobre a prescrição e distribuição da hidroxicloroquina. Por nota, a Promotoria de Justiça da Saúde da Capital informou que, recebeu a notícia sobre a caravana e a atuação dos médicos e “oficiou o Cremepe para saber que providências o órgão tomou em relação ao fato".

Procurada pelo JC, a deputada estadual Clarissa Tércio afirmou que diversas demandas relacionadas a área de saúde têm chegado de maneira intensa em seu gabinete. “Inclusive, criamos o canal Fiscalize PE, no sentido de aproximar a população e ouvir suas demandas buscando soluções junto às autoridades”, explica.

Sobre o “Doutores da Verdade”, a parlamentar ressalta que o projeto é coordenado pelo pneumologista, que fez residencia e mestrado pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Antonio Aguiar. “Ele me procurou para dar apoio e voz ao projeto, tendo em vista a minha participação na Comissão de Saúde e Direitos Humanos da Assembleia Legislativa de Pernambuco”, esclarece. Clarissa doou metade do seu salário de deputada estadual para comprar a medicação e distribuir nas comunidades  que receberem o projeto. 

 

As ações pelo uso da hidroxicloroquina no tratamento da covid-19, tem sido amplamente defendido nas redes sociais da parlamentar. “Eu sempre acreditei que a medicação é uma aliada importante, quando usada precocemente, conforme relatam médicos experientes que fazem uso dela nessa pandemia, inclusive, o Conselho Federal de Medicina autorizou – com algumas restrições ao uso,(como todo medicamento tem) – bem como o no Estado de São Paulo, já está sendo ministrado o referido medicamento”, afirma.

O coordenador do "Doutores da Verdade" também foi procurado pelo JC, e afirmou que eles não foram notificados pelo Cremepe. “Talvez por se tratar de algo sigiloso, mas até onde eu saiba diminuir a dor e o sofrimento do próximo não é crime tipificado em lei”, disse.

Sobre a atuação do projeto, Antonio Aguiar explica que o grupo de médicos atua “baseado nas melhores evidências científicas” destacando a importância de iniciar de maneira precoce “nas pessoas com sintomas e ou sinais compatíveis com o diagnóstico da covid”. “Logicamente que todos os que nos procuram são avaliados na história clínica, exame físico, contra indicações e riscos ao uso”, pontua.

DIVERGÊNCIAS

O ministro da Saúde Nelson Teich, afirmou em seu perfil oficial no Twitter, nesta terça-feira (12) que tem acompanhado todas as pesquisas nacionais e internacionais referentes aos tratamentos do novo coronavírus. “Além da cloroquina, os estudos avaliam mais de 10 medicamentos”, declarou.

No entanto, o ministro fez um alerta a respeito do seu uso. “ A cloroquina é um medicamento com efeitos colaterais. Então, qualquer prescrição deve ser feita com base em avaliação médica. O paciente deve entender os riscos e assinar o “Termo de Consentimento” antes de iniciar o uso da cloroquina”, explicou Teich.

 

Já o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) voltou a defender o uso da hidroxicloroquina para o tratamento de pacientes infectados pelo novo coronavírus. Em encontro com apoiadores e imprensa nesta quarta-feira (13), Bolsonaro insistiu no uso da substância, agora para ser aplicada em pacientes considerados graves do grupo de risco.

Uma pesquisa publicada pelo Journal of The American Medical Association, nesta segunda-feira (11), feito por pesquisadores da Universidade de Albany, em Nova York, aponta que não há relação entre o uso da cloroquina e a redução da mortalidade causada pela covid-19. Estudos em outros países sobre a eficácia do medicamento também são inconclusivos.


DENÚNCIA

A Advogada Dani Portela, do PSOL, protocolou uma denúncia no Ministério Público de Pernambuco (MPPE), na ouvidoria do CREMEPE e na comissão de saúde da OAB-PE pedindo que fosse investigada a caravana chamada de “Doutores da Verdade” e a relação com a deputada estadual Clarissa Tércio (PSC) com a promoção do uso do remédio “hidroxicloroquina”.

De acordo com a publicação no Blog de Jamildo, a advogada afirma que essa divulgação feita pelos profissionais que atuam no projeto e pela parlamentar, deve ser investigada pelos órgãos competentes, para averiguar se estão de acordo com as diretrizes da Organização Mundial de Saúde (OMS). “A divulgação feita por médicos e por uma pessoa pública, sem que a eficácia do remédio tenha sido confirmada, pode dar uma falsa impressão de segurança, o que pode ser um risco para a população, pois serve de estímulo para o relaxamento das medidas de prevenção à doença”, explica Portela.

“Além da propaganda explícita do remédio como a solução para a cura da COVID 19, não há nenhuma atenção para a série de efeitos colaterais que podem ser causados pelo uso do medicamento”, cita. “Estamos diante do maior desafio que a nossa cidade do Recife já teve na sua história. A divulgação de informações, quaisquer que sejam elas, relativas à pandemia, só podem ser feitas seguindo a orientação da Organização Mundial de Saúde (OMS). A OMS, inclusive, não indicou até o momento o tratamento da COVID-19 com a Hidroxicloroquina”, declara a advogada.

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