Desentendimento

Olinda: eleições municipais expõem racha no PSB

Diretório olindense do partido anuncia aliança com a Rede e acusa o presidente do PSB-PE, Sileno Guedes, de atuar 'contra os interesses do partido na municipalidade'

Renata Monteiro
Renata Monteiro
Publicado em 14/07/2020 às 15:54
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Clemilson Campos/Acervo JC Imagem
PSB briga internamente para conseguir lançar a candidatura de Pedro Mendes à Prefeitura de Olinda - FOTO: Clemilson Campos/Acervo JC Imagem
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Atualizada às 14h15 do dia 15 de julho de 2020

Se alguém achava que as eleições municipais deste ano seriam mornas por conta do coronavírus, essa projeção foi por água abaixo essa semana, ao menos na Região Metropolitana do Recife. Apenas um dia após o ex-deputado federal Paulo Rubem Santiago abrir fogo contra o seu partido, o PSOL, por ter sua candidatura a prefeito da capital rifada, o PSB de Olinda comunicou uma aliança com a Rede Sustentabilidade e criticou duramente adversários e o presidente estadual do partido, Sileno Guedes.

Em nota, o diretório municipal do PSB em Olinda afirmou que o alinhamento com a Rede foi apenas o primeiro passo para a construção da frente que defenderá as propostas dos partidos no pleito deste ano. De acordo com o documento, o grupo apoia a pré-candidatura do economista e ex-vereador Pedro Mendes à prefeitura, o que vai de encontro ao posicionamento oficial do partido em âmbito estadual, que ainda não divulgou o nome que apoiará no município.

O órgão partidário diz, ainda, que a aliança firmada com a Rede seria também "uma reação" a gestos de Sileno a partidos que fazem parte da Frente Popular, como o Solidariedade, do atual prefeito Lupércio Nascimento, e o PCdoB, do deputado estadual e pré-candidato a prefeito João Paulo, da vice-governadora Luciana Santos e do deputado federal e ex-prefeito de Olinda Renildo Calheiros. O PSB Olinda afirmou, inclusive, que "pediu providências a Executiva Nacional pela interferência ocorrida nas articulações municipais".

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"O PSB-Olinda não acredita que um movimento entre Renildo Calheiros, Sileno Guedes, e Humberto Costa, impedirá candidaturas livres na cidade, porque entendemos que esse é um movimento contra a população. Vamos lutar até as últimas instâncias para que o povo de Olinda tenha outras opções, que não apenas esses dois projetos que já foram julgados e rejeitados pela população. Queremos apresentar novos horizontes, o PSB tem legítimas condições de ter candidatura na cidade", pontuou Silvaldo Leal, presidente do PSB Olinda, na nota.

Essa não é a primeira vez que divisões internas no PSB são expostas devido a uma eleição olindense. Em 2016, a contragosto, a direção estadual do partido permitiu que o irmão do ex-governador Eduardo Campos, Antônio Campos (PRTB), concorresse à prefeitura. O atual presidente da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj) até chegou ao segundo turno, mas acabou perdendo para Lupércio. Tonca alega que o partido, além de não tê-lo apoiado, ainda trabalhou nos bastidores para a vitória do adversário. 

Procurado pelo JC, Sileno Guedes afirmou, através da sua assessoria de imprensa, que os movimentos atribuídos a ele na nota do PSB de Olinda "não foram unilaterais" e têm a aprovação das Executivas nacional e estadual do partido. A equipe do presidente do PSB-PE encaminhou à reportagem duas resoluções da sigla, uma assinada pelo presidente nacional da agremiação, Carlos Siqueira, e outra referendada pelo próprio Sileno,  que dizem que "todas as deliberações dos Congressos Eleitorais Municipais (Convenções) do PSB sobre formação de coligações e escolha de candidatos em cidades polo terão de ser submetidas à aprovação da respectiva Comissão Executiva Estadual, que poderá aprovar, alterar ou anulá-las".

Por nota, a Executiva Estadual da Rede também negou que a coligação em Olinda tenha validade. A sigla afirmou que "ainda não definiu sua tática em relação à política de alianças no processo sucessório de Olinda" e, por ser uma cidade com mais de 200 mil eleitores, a estratégia na Marin dos Caetés "será debatida e definida, necessariamente, pela instâncias municipal, estadual e nacional da Rede".

Manifesto

Para marcar a aliança, as agremiações lançaram um manifesto que tem por objetivo lançar ideias de governo para iniciar um processo de transformações na Marin dos Caetés, que completará 500 anos em 2035. No texto assinado por Sivaldo Leal e Edson Celestino, porta-voz da Rede, os partidos dizem que Olinda "não pode mais ficar à deriva" e que "chegou a hora dos olindenses tomarem o protagonismo na condução do seu futuro".

No documento as siglas falam ainda de "falsos heróis" e "demagogos" que tentam capturar as insatisfações da população para obter votos. "Para que o povo possa participar da construção do seu futuro, é necessário que haja debate em torno de projetos ao invés de culto a personalidades e, para isso, é urgente que deixemos as emoções de lado para trazer a razão ao centro do debate", diz um trecho do material divulgado nesta terça-feira (14).

Os partidos também propõe que, com vistas no aniversário de 500 anos de Olinda, seja apresentando "um pacto social de cidadania e solidariedade" com as áreas da educação e saúde como seu eixo principal, mas sem esquecer da cultura e do desenvolvimento econômico. Confira o texto na íntegra:

OLINDA 500 ANOS

PSB e Rede

O povo olindense não pode abrir mão de construir seu próprio rumo. Só há uma forma de inaugurar novos tempos na nossa cidade: exercer a democracia com participação ativa da população em torno de projetos para o futuro.

Nossa cidade é o berço da República, é Patrimônio Histórico e Cultural da Humanidade, e não pode mais ficar à deriva. Chegou a hora dos olindenses tomarem o protagonismo na condução do seu futuro e, para isso, precisamos participar ativamente do debate público em torno de ideias. Essa insurgência está indissociável à participação do povo nas escolhas políticas que, por sua vez, devem estar amparadas em projetos para a cidade, e não em torno de pessoas. É justamente em cima da desilusão da população constantemente injustiçada, que surgem os "falsos heróis" e demagogos para capturar suas insatisfações em torno de narrativas de ódio, se beneficiando da polarização política. Para que o povo possa participar da construção do seu futuro, é necessário que haja debate em torno de projetos ao invés de culto a personalidades e, para isso, é urgente que deixemos as emoções de lado para trazer a razão ao centro do debate.

O atual contexto de pandemia em que vivemos escancara ainda mais nossa desigualdade social histórica, demonstrando que apesar do vírus não escolher classe social, etnia ou gênero; são os mais pobres, os negros e as mulheres que mais morrem pela infecção. Isso não ocorre por acaso. O nosso Estado assegurou privilégios a uma parte da população em detrimento de outra. É por isso que não podemos desistir da Olinda, mas sim participar ativamente da construção de uma cidade mais justa.

Olinda completará 500 anos em 2035, e é imprescindível apontarmos a direção que pretendemos seguir e inaugurar o processo de transformação a ser entregue às próximas gerações. Um projeto de cidade não pode se resumir aos projetos de um político ou de um partido, mas sim representar um marco civilizatório, um pacto social de cidadania e solidariedade em que todos - das mais diversas ideologias democráticas - se unam em sua defesa. Para atingirmos os nossos objetivos, é preciso um planejamento estratégico e uma gestão transparente capaz de entender e coordenar os horizontes que a nossa gente deseja. Precisamos de uma governança pública que seja capaz de se aprimorar de maneira contínua e permanente através de instrumentos de modernização e participação social.

A transformação da educação e da saúde deve ser o principal eixo de sustentação do nosso pacto social. Para além do enciclopedismo dogmático, a qualificação do ensino deve ser indissociável da cultura e da criatividade a qual nossa cidade é vocacionada. É com uma educação libertadora que o jovem da periferia terá oportunidade de mudar. Através do ensino em tempo integral, a juventude pode ter convívio diário com o aprendizado, seja na grade curricular, seja através de aulas de música, teatro, dança, esportes, robótica e etc. É nesse lar, com as três refeições diárias garantidas, que nossa juventude deve se preparar para a qualificação do trabalho decorrente dos novos desafios do empreendedorismo digital e da economia criativa.

O desenvolvimento econômico da nossa cidade deve ser sustentado num arranjo que consubstancie a força da nossa história e cultura com o conhecimento e a inovação. Através da criação um complexo voltado para a Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC) e Economia Criativa (EC), podemos construir soluções inteligentes e sustentáveis para o fortalecimento do turismo, para o aprimoramento dos nossos serviços públicos de saúde, segurança, transporte e, sobretudo, para a redução da desigualdade social e melhoria da qualidade de vida dos olindenses. Porque não há desenvolvimento quando beneficia apenas uns poucos, mas sim quando transforma a vida daqueles que mais precisam.

É com o intuito de propor início dessa mudança que nós, do PSB e Rede Sustentabilidade, apresentamos este manifesto OLINDA 500 ANOS. É o propósito que nos une e que acreditamos que a nossos co-cidadãos das mais diversas áreas culturais, manifestações religiosas, categorias profissionais e classes sociais possam se juntar a nós e participar da construção do projeto para o futuro de Olinda. O marco histórico desse movimento é agora, em 2020.

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