CÂMARA DOS DEPUTADOS

Desafio de Rodrigo Maia é conter traições dentro do seu bloco para sucessão na Câmara

Como a votação para a eleição da Mesa Diretora é secreta, nem mesmo o apoio oficial do bloco de oposição (PSB,PDT,PT,PV,PCdoB e Rede) diminui o desafio destes partidos de conseguirem votos suficientes para vitória de Baleia Rossi

Mirella Araújo
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Mirella Araújo
Publicado em 23/12/2020 às 20:16 | Atualizado em 23/12/2020 às 20:16
BRENDA ALCÂNTARA/JC IMAGEM
Mesmo com apoio de 11 partidos, Rodrigo Maia trava uma batalha para conseguir manter votos suficientes para eleger seu candidato a sucessão, Baleia Rossi (MDB-SP) - FOTO: BRENDA ALCÂNTARA/JC IMAGEM

Antes mesmo de definir que o seu candidato à sucessão pela presidência da Câmara dos Deputados, seria o deputado federal Baleia Rossi (MDB-SP), o presidente da Casa, Rodrigo Maia (DEM-RJ), tem travado uma batalha numérica para conseguir votos suficientes para emplacar seu sucessor. Como a votação para a eleição da Mesa Diretora é secreta, nem mesmo o apoio oficial do bloco de oposição (PSB,PDT,PT,PV,PCdoB e Rede) diminui o desafio destes partidos de conseguirem votos suficientes para vitória do indicado pelo democrata. Paralelo às definições, o deputado federal Arthur Lira (PP-AL), também postulante ao cargo, continua nas tratativas para capitalizar o apoio dos dissidentes destas bancadas, a exemplo do PSB, onde não há consenso sobre a questão.

>>Em reunião com Paulo Câmara, Rodrigo Maia deve anunciar Baleia Rossi como seu candidato à presidência da Câmara

O líder dos socialistas na Câmara, o deputado federal Alessandro Molon, anunciou no dia 18 de dezembro, que o partido apoiaria o bloco liderado por Maia - revalidando a decisão do diretório nacional do PSB, que havia recomendado que a bancada federal não apoiassem Lira, por ser o “candidato do presidente Jair Bolsonaro”. A reação veio logo em seguida, e no dia 22 de dezembro, 15 parlamentares assinaram um manifesto criticando o governo Bolsonaro e a decisão do líder do partido, alegando que não houve votação interna para tratar deste assunto. Entre os deputados que se manifestaram, estão os prefeitos eleitos João Campos (PE) e JHC (AL), além de Danilo Cabral, Gonzaga Patriota, Júlio Delgado, Rodrigo Coelho, Luciano Ducci e Felipe Carreras - que já declarou publicamente que votará em Arthur Lira.

Nesta quarta-feira (23), após escolher apresentar a candidatura de Baleia Rossi, Maia aterrisa no Recife para falar diretamente com o governador Paulo Câmara. O encontro no Palácio do Campo das Princesas, inclusive, teve seu horário adiado por duas vezes, devido a um atraso do presidente da Câmara, que se reuniu com os 11 partidos que compõem o seu bloco, incluindo as legendas de oposição - PSDB, DEM, MDB, Cidadania, PSL, PV, Rede, PSB, PT, PCdoB, e PDT - para fechar um veredito sobre o nome a ser apoiado. Na disputa também havia o deputado federal Aguinaldo Ribeiro (PP-AL).

Vice-presidente nacional do PSB, Paulo Câmara tinha sido citado por Rodrigo Maia, em entrevista ao O Globo,  como um bom quadro para uma "grande aliança de centro", apostando em uma convergência para as eleições de 2022. Antes dele, Arthur Lira também esteve no Palácio do Campo das Princesas, para conversar com o socialista e apresentar suas propostas, na tentativa de conseguir apoio do partido. Na conversa, o líder do PP na Câmara ressaltou a parceria de longa data que existe com o PSB, - inclusive, eles fazem parte do arco partidário que ajudou a eleger o prefeito do Recife, o deputado federal João Campos.

 

 PEDRO MENEZES/SEI
PALÁCIO Encontro aconteceu no Recife, após decisão do STF contra reeleição de Rodrigo Maia na Câmara Federal - PEDRO MENEZES/SEI

Para o cientista político e professor da Asces/Unita, Vanuccio Pimentel, a eleição da Câmara dos Deputados funciona de maneira muito partidária, dentro de uma lógica distinta das eleições para prefeitura, governos ou presidência da República. Neste caso, o que estaria em jogo, são os espaços políticos. Vale lembrar que, na primeira reunião da bancada federal do PSB para tratar do tema, um indicativo pelo apoio de Arthur Lira foi aprovado por 18 parlamentares, tido como um “cumpridor de acordos” e que poderia dar mais espaços aos socialistas não apenas da composição da mesa, mas em relatorias e comissões de destaque.

“O partido de oposição precisa, no caso da nossa Câmara, estar em uma mesa para que tenha influência sobre a agenda legislativa, isso é muito importante pra oposição que passa a ter condição de obstruir, de alterar a agenda legislativa a partir da sua atuação. Ela é um espaço de sobrevivência da atuação política muito importante para este bloco”, avalia Pimentel.

“Por isso que os partidos de oposição e inclusive os de esquerda que não conseguem ter votos suficientes para eleger um presidente da Câmara. É muito melhor apoiar um candidato e garantir os espaços na mesa”, complementa o docente.

IDEOLOGIA 

A bandeira ideológica, ora colocada como justificativa para apoiar determinado grupo, ora deixada de lado diante dos interesses de espaços, não chega a ser um fator preponderante nas eleições dentro da Câmara e do Senado. “No ponto de vista de uma eleição como essa, em que interesses corporativistas com poder de agenda, a capacidade que esse líder da Câmara tem de olhar para dentro da proteção dos interesses parlamentares, independente da visão ideológica, pesa demais”, ressalta a cientista política e professora da Faculdade de Ciências Humanas de Olinda, Priscila Lapa.

Ela observa a própria postura do presidente da Câmara, Rodrigo Maia, nos últimos dois anos e que isso poderá dar o tom já para 2022. “Ele acabou assumindo um papel muito diferenciado, ganhando protagonismo político e o tom das eleições de 2022 passa um pouco por ele, mesmo que daqui para lá haja um desgaste da sua figura e uma desconstrução da sua imagem”, declara Lapa, referindo-se ao fato dele não possui mais um cargo de poder, a partir de fevereiro de 2021.

Luis Macedo/Câmara dos Deputados
O presidente da Câmara, Rodrigo Maia, forma bloco com partidos de oposição - Luis Macedo/Câmara dos Deputados

“Acho que o principal protagonismo dele é construir um discurso que nem é de ruptura com o governo Bolsonaro completamente, mas ao mesmo tempo também é um discurso de levar a pauta da agenda da sociedade mais para o centro, da moderação, de tirar um pouco esse tom do radicalismo político que hoje predomina do ponto de vista do poder Executivo”, complementa a docente.

A Câmara dos Deputados possui 513 parlamentares e para eleger o presidente da Mesa Diretora é preciso obter 267 votos. Teoricamente, o grupo de Maia ultrapassaria esse quantitativo, somando no total cerca de 281 votos. Nos bastidores, no entanto, comenta-se que a espera pela definição do atual presidente, que não teria contado com a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), em barrar sua candidatura para a recondução do comando da Mesa Diretora, gerou desgastes. Isso porque, seria mais fácil os deputados desse bloco, migrarem para votar a favor Lira, do que fazerem o caminho contrário. Entre Aguinaldo Ribeiro e Baleia Rossi, já se sabia que não haveria unidade dentro desse conjunto. 

Câmara dos Deputados X Eleições 2022

A disputa pela presidência da Câmara dos Deputados e do Senado perpassam pela articulação política em torno das eleições de 2022. No caso específico da Câmara, o presidente da Mesa Diretora, que será escolhido no dia 1º de fevereiro de 2021, terá controle sobre a agenda legislativa e, através dela, poderá dar o tom das pautas mais relevantes para o país.

O cientista político Vanuccio Pimentel explica que o processo legislativo, mesmo iniciado pelo Poder Executivo, começa a ganhar corpo na Câmara dos Deputados. “Isso é um papel muito chave, porque ele (o presidente da Câmara) acaba controlando uma parte significativa do processo político, por meio da agenda legislativa. O que torna esse papel fundamental para o presidente da República”, afirma.

O vereador do Rio de Janeiro, Carlos Bolsonaro (Republicanos), publicou em seu perfil no Twitter, que seu pai “aguarda decisão da eleição da presidência da Câmara para avançar nas pautas que estão emperradas há dois anos”. Ele cita a possibilidade de conferência do voto eletrônico, as reformas (tributária, administrativas), e pautas caducadas.

Parlamentares têm visto como natural o interesse do Executivo em ter preferência por quem irá disputar este pleito, assim como ocorre nas câmaras municipais e assembleias legislativas. Para o deputado federal pernambucano André Ferreira (PSC), que apoia o deputado Arthur Lira, afirma que “não existe o candidato de Bolsonaro”. “O presidente é da Casa, não é uma indicação do presidente da República. Ele vai representar a Câmara, agora é claro que pode existir uma preferência do presidente, assim como existe entre prefeitos e governadores. Arthur Lira tem sido muito correto em sua trajetória na Câmara”, defende Ferreira.

O deputado alagoano também busca deixar claro que pretende atuar de forma independente. “Todo partido que quiser compromisso com a autonomia do funcionamento da Casa, estou aberto ao diálogo. Se quiserem seguir o caminho de promessas difíceis de cumprir, essa não é minha forma de fazer política”, publicou Lira, nesta quinta-feira (23), também no Twitter.


É justamente esse papel autônomo e independente que interessa ao bloco de oposição. Os partidos que formam essa ala, divulgaram, nessa quarta-feira (22), um manifesto destacando a “responsabilidade de combater, dentro e fora do Parlamento, as políticas antidemocráticas, neoliberais, antinacionais”, creditadas ao governo Bolsonaro.

O mesmo bloco que forma uma aliança progressista para apresentar um caminho alternativo em 2022, deixou claro que o objetivo é “derrotar Bolsonaro e sua pretensão de controlar o Congresso”. “Em 2022, a oposição entende, e aí os partidos de esquerda como PT e PSB, que é fundamental até lá, que o presidente da Câmara dos Deputados seja independente ou abertamente de oposição ao presidente da República”, comenta Vanuccio.

“A ideia é que tenha um presidente independente o qual eles tenham poder sobre ele e sobre a agenda legislativa de modo a não facilitar a vida de Bolsonaro para 2022”, frisa o docente.


Luis Macedo/Câmara dos Deputados
O presidente da Câmara, Rodrigo Maia, forma bloco com partidos de oposição - FOTO:Luis Macedo/Câmara dos Deputados
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PALÁCIO Hoje, o governador recebe Artur Lira, candidato na Câmara - FOTO: PEDRO MENEZES/SEI

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