Fusão

"Peço calma, paciência...", diz Mendonça Filho sobre possível criação do superpartido da direita

O ex-ministro da Educação, que é presidente do DEM em Pernambuco, e outros integrantes da legenda apresentam resistência à fusão com o PSL

Cássio Oliveira Douglas Hacknen
Cássio Oliveira
Douglas Hacknen
Publicado em 14/09/2021 às 22:24
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BOBBY FABISAK/JC IMAGEM
Mendonça Filho disse que preocupa-se com governança - FOTO: BOBBY FABISAK/JC IMAGEM
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Com informações do Estadão

Em meio às negociações finais para fusão entre Democratas (DEM) e Partido Social Liberal (PSL), o ex-ministro da Educação, Mendonça Filho, presidente do DEM em Pernambuco, pediu "calma" e "paciência". Mendonça e outros integrantes da legenda apresentam resistência à criação da nova sigla.

"A minha preocupação é com a governança, como o partido vai se estabelecer, de que forma vai harmonizar os interesses regionais, nomes históricos do partido em posições regionais", afirmou Mendonça em entrevista ao Estadão.

O ex-ministro de Michel Temer (MDB) é conterrâneo do presidente nacional do PSL, deputado Luciano Bivar, e destacou que "respeita a figura de liderança" do dirigente partidário. Mendonça pregou, no entanto, que a discussão seja feita com calma. "Respeito todos os líderes que têm, com a melhor das intenções, tracionado uma maior celeridade nesse processo. Peço calma, paciência e que sejam cumpridas as etapas de uma discussão amadurecida", disse.

Ao Estadão, Mendonça afirmou ainda que a união entre DEM e PSL não necessariamente vai se traduzir em um partido grande. "Não adianta você compatibilizar excluindo. Em política, muitas vezes a soma de um conjunto de forças significa subtração. O que eu entendo é que a gente tem de ter como objetivo uma soma que de fato adicione", declarou.

Nesta terça-feira (14), o presidente nacional do DEM, ACM Neto, disse que a união entre seu partido e o PSL está em um momento decisivo

Hoje, o PSL conta com 53 deputados, a maior bancada da Câmara ao lado do PT, também com 53. O DEM possui 28 deputados federais, totalizando uma super bancada de 81 parlamentares. No Senado, são 6 senadores do PSL e 1 do DEM, a bancada única seria de 7 parlamentares.

Comando nacional

Após se tornar a segunda maior bancada da Câmara dos Deputados, com a eleição de 2018, o PSL viu sua parte nos recursos do fundo eleitoral subir, mas teme não manter-se entre os grandes após a eleição de 2022, por não ter mais apoio da onda bolsonarista.

Aliados do deputado Luciano Bivar (PSL-PE) o querem à frente da nova legenda após a fusão, tendo seu braço-direito no PSL, Antônio Rueda, numa vice-presidência. Enquanto isso, ACM Neto, que deve concorrer ao governo baiano, abriria mão do comando para ser o secretário-geral.

Durante transmissão ao vivo em evento do BTG Pactual nesta terça, ACM Neto declarou o seguinte: "a fusão de dois partidos desse tamanho implica em uma série de questões, eu diria a vocês que os próximos 15 dias serão decisivos. E nesse período a gente vai ter uma ideia se essa fusão vai adiante ou não”. O presidente do DEM explicou que a prioridade é lançar um candidato próprio para as eleições de 2022. “O que a gente discute hoje é a possibilidade de criação de um novo partido, que nasceria como o maior partido do Brasil, com uma grande participação na Câmara, no Senado, com uma perspectiva de fazer uma quantidade importante de governadores e com o objetivo de lançar candidato próprio à Presidência da República.”

Divergências nos estados

As divergências nos estados são um problema para a fusão. Aliado próximo a ACM Neto, o deputado federal Efraim Filho (DEM-PB) avaliou em entrevista ao O Globo que será "natural" que um nome do PSL assuma a presidência nacional da sigla, mas ressaltou que ainda é preciso "construir consensos nos estados" para viabilizar a fusão. "As conversas têm acontecido em ritmos diferentes em cada estado. Há um canal aberto entre os presidentes Bivar e Neto, mas não tem data marcada para a fusão. A reunião entre as executivas partidárias no próximo dia 21 é para dar o 'start' no processo", afirmou Efraim.

Em Minas, por exemplo, o DEM ensaia formar um palanque nacional de terceira via com o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, enquanto o PSL segue próximo ao bolsonarismo. Já em Pernambuco, o DEM, com comando de Mendonça Filho, conta com a chegada do prefeito de Petrolina, Miguel Coelho, que pretende ser lançado como governador. Acomodar as lideranças nos espaços disponíveis nos estados e definir palanques para a eleição de 2022 é um dos desafios.

Em entrevista à Rádio Jornal, o cientista político Adriano Oliveira, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) destacou que o DEM em Pernambuco ganha um importante reforço com Miguel Coelho e que a fusão beneficiaria o prefeito de Petrolina. "Os Coelho têm força e capital eleitoral e exigirá articulações maiores do PSB (para se manter no governo). Miguel fortalece a eleição proporcional daqueles que querem ser candidatos pelo Democratas, mas há problemas. Quem comanda a sigla em Pernambuco é Mendonça. O PSL já apoiou o PSB, não seria surpresa se o PSL apoiasse Geraldo Julio, mas Mendonça, o DEM, é oposição e não se veria obrigado a apoiar, seria complicado", destacou.

"O País tem diversos tipos de arranjos e situações locais que definem as alianças. Estados como Rio, São Paulo, Espírito Santo e Pernambuco há problema. Aqui há liderança de Mendonça Filho, mas o partido seria deslocado para liderança de Bivar, que seria o presidente nacional da legenda. E mesmo Mendonça continuando como presidente estadual seria um downgrade para ele", comentou o cientista político e professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) Arthur Leandro. Ele também destaca que com a força da fusão, Miguel ganha maior suporte para ser o candidato da oposição ao governo estadual.

Para o deputado Delegado Waldir (PSL-GO), que se reaproximou nos últimos meses do governador de Goiás, Ronaldo Caiado (DEM), e deve apoiá-lo à reeleição e disputar o Senado, empecilhos locais devem ser superados. "Onde não houver acordo, veremos quem fez o dever de casa e se manteve fiel às orientações dos partidos", disse ao O Globo.

Há ainda discussões sobre qual nome manter no partido e qual número usar. A ideia inicial seria não usar o 17 com o qual Jair Bolsonaro se elegeu em 2018 e ficar com o tradicional 25, utilizado pelo Democratas.

Em entrevista ao JC, Roberto Gondo, professor de comunicação política da Universidade Mackenzie, por sua vez, destaca que como não há mais amarras do PSL com Bolsonaro fica mais fácil a negociação levando em conta as necessidades locais de cada estado.

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