O que significa cada letra da sigla LGBTQIA+

Romero Rafael
Romero Rafael
Publicado em 30/06/2020 às 18:53
Bandeira LGBTQIA+ - Foto: reprodução
Bandeira LGBTQIA+ - Foto: reprodução
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Junho é o Mês do Orgulho LGBTQIA+ e 28 de junho é o Dia Internacional do Orgulho LGBTQIA+ (leia abaixo como esse movimento surgiu). Desde 1970, todo mês de junho é dedicado a celebrar o que a comunidade já conquistou e reivindicar o que ainda falta. E é também um período de promoção de ações afirmativas, para educar as pessoas sobre a diversidade de orientações sexuais e identidades de gênero.

Para compreender o movimento, sua sigla e o mundo hoje é fundamental entender a diferença entre orientação sexual e identidade de gênero. Numa entrevista, o cineasta e diretor de TV João Jardim, que em 2016 lançou uma série sobre o assunto, "Liberdade de Gênero" (GNT), explicou a diferença com clareza:

"A orientação sexual das pessoas, com quem elas transam – homem, mulher ou os dois –, não tem nada a ver com o gênero. Gênero é como as pessoas querem se expressar no mundo: se como homem, mulher ou nenhum dos dois."

De GLS a LGBTQIA+

Cada letra da sigla LGBTQIA+ agrega um grupo de pessoas que se reconhece por uma orientação sexual ou uma identidade de gênero diversa daquelas que a sociedade convencionou como únicas (orientação heterossexual; gêneros masculino e feminino). Ela é a evolução de GLS (gays, lésbicas e simpatizantes), de GLBT (gays, lésbicas, bissexuais e transexuais) e LGBT.

A retirada do "S" (que havia em GLS), de simpatizante, referindo-se a héteros que apoiavam a causa, deu-se pelo entendimento de que eles não eram protagonistas do movimento. Já a troca de posições entre o "G" e o "L" foi motivada para dar visibilidade às mulheres lésbicas e também a fim de promover equidade de gênero.

Essas próprias mudanças na sigla - inserção de letra, retirada e reposicionamento - demonstram a evolução do movimento pela inclusão das pessoas em suas diferentes orientações sexuais e identidades de gênero.

Antes de chegar às letras e aos seus significados, é importante frisar que compreender os grupos não tem a ver com rotulá-los, mas sim com reconhecê-los (na verdade, nos reconhecermos) na pluralidade que são. Logo, é preciso "destreinar" a cabeça e abandonar esquemas e caixinhas. Cada pessoa é quem deve definir a sua orientação sexual e identidade de gênero.

Desvendando a sigla

L, G, B

Como se sabe, o L diz respeito às lésbicas e o G, aos gays, respectivamente, mulheres e homens que sentem atração afetivo-sexual por pessoas do mesmo gênero que o seu; enquanto o B representa as pessoas bissexuais, que sentem atração afetivo-sexual por homens e mulheres. Até aqui, a sigla agrega grupos por orientações sexuais.

T

A partir do T, a sigla acolhe identidades de gênero dentro do amplo espectro de diversidade. Na primeira letra estão incluídos transgêneros, as pessoas transexuais e travestis: aquelas que se identificam com um gênero diferente do que foi designado no nascimento. É o oposto da pessoa cisgênero (termo comumente usado na abreviação "cis", que diz das mulheres e dos homens que se reconhecem conforme seu gênero de nascimento).

Uma pessoa transgênera se enxerga e se coloca para além do gênero a que foi designada no nascimento. Ela rompe com o que está posto e transgride os códigos sociais e culturais construídos e atribuídos a cada gênero, uma vez que transita entre eles.

A mulher ou o homem transexual tem uma expressa não-conformidade com o gênero designado no nascimento, ao mesmo passo que se identifica com o oposto. Transexuais, geralmente, realizam mudanças no corpo para se sentir em conformidade com o gênero que lhe é adequado. Bem como adere a comportamentos e códigos, como roupas, da identidade de gênero com que se expressa.

Sobre travesti, há o entendimento de que seja o mesmo que transexual; sendo que o uso do termo seria anterior à difusão de informações sobre a transexualidade, que é recente. Também por isso (a ignorância sobre o assunto) teria gerado uma marca social: "travesti" é mais comum nas classes sociais mais baixas e marginalizadas. Nos anos mais recentes, travestis têm ressignificado a palavra e o "ser travesti", numa luta política de valorização e contra o preconceito.

Para além da análise social acima, há também a compreensão de que travesti é uma outra identidade de gênero, porque, apesar de transitar pelo gênero oposto, a travesti não se sente, de fato, em não-conformidade com o gênero masculino (como foi designado no nascimento) nem se sente, propriamente, do gênero feminino (como se traveste), diferentemente de mulheres trans.

Transexuais e travestis têm sido reunidos no termo transvestigênere.

Q

Continuando a desvendar a sigla, o Q é de queer - quem transita entre os gêneros feminino e masculino, e mesmo fora da binaridade masculino-feminino (a pessoa não-binário, que rejeita os dois gêneros por não se limitar a um ou não se reconhecer em apenas um). A teoria queer afirma que a orientação sexual e a identidade de gênero são resultado de uma construção social, e não de uma funcionalidade biológica.

I

O I, que é mais recente, diz respeito ao intersexo - identidade de gênero de pessoas cujo desenvolvimento sexual corporal (seja por hormônios, genitais, cromossomos ou outras características biológicas) é não-binário; ou seja, não se encaixa na forma binária masculino-feminino.

A

O A volta a se referir a orientação sexual. Agrega os assexuais, aqueles que não sentem atração afetivo-sexual por outra pessoa, independente de orientação sexual e de identidade de gênero.

+

Por fim, o sinal de mais (+), que há uns anos foi incorporado à sigla, abriga outras possibilidades de orientação sexual e identidade de gênero que existam. É o caso da pessoa que, do ponto de vista da orientação sexual, se define como pansexual, pessoa que sente atração afetivo-sexual independente da identidade de gênero da pessoa - seja mulher ou homem, cis ou trans, ou mesmo de outro gênero, como é o intersexo. É a orientação sexual mais fluida. A propósito, a sigla também já tem aparecido escrita com o P ao fim: LGBTQIAP+.

Como surgiu o Mês do Orgulho

Em 1969, a homossexualidade era considerada crime com pena que podia chegar à prisão perpétua em quase todos os estados norte-americanos. Lésbicas, gays, bissexuais e travestis eram alvos constante de extorsão e espancamento por parte dos policiais.

No dia 28 de junho (Dia Internacional do Orgulho LGBTQIA+) daquele ano, a polícia da cidade de Nova Iorque fez uma batida no bar Stonewall Inn para violentar pessoas LGBT, como de costume. Mas, pela primeira vez, encontrou grande resistência. Uma multidão encurralou os policiais dentro do bar e um grande confronto teve início, chegando a durar dias. Esse tornou-se um marco de resistência na luta por direitos da comunidade LGBTQIA+.

No ano seguinte, dez mil pessoal se reuniram na porta do bar e marcharam naquela que ficou conhecida como a primeira Parada da Diversidade e do Orgulho LGBTQIA+.

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