05
abr

Crítica: Um Lugar Silencioso, de John Krasinski

05 / abr
Publicado por Ernesto Barros às 19:20

John Krasinski, Emily Blunt e Millicent Simmonds em Um Lugar Silencioso. Foto: Paramount Pictures/Divulgação

Se você é daqueles espectadores que acreditam que ir ao cinema é um ritual tão sério quanto ir à Igreja, então se prepare com todos os aparatos do respeito para assistir à uma obra plena de sutileza e sensibilidade, na qual o medo e o terror são as suas molas mestras. O filme chama-se Um Lugar Silencioso e entra em cartaz nesta quinta-feira (5/4)  em circuito nacional. Desde já, é uma grande surpresa de 2018.

Dirigido, roteirizado e atuado por John Krasinski, um ator grandalhão mais conhecido por quem assiste TV do que por quem vai ao cinema – ele foi um dos destaques da série The Office –, Um Lugar Silencioso parte de um conceito tipicamente cinematográfico. Ou melhor, Krasinski e a dupla de roteiristas Bryan Woods e Scott Beck, também autores do argumento, tiveram a brilhante ideia de criar um mundo onde o som virou uma arma letal contra os seres humanos.

Um Lugar Silencioso é um misto de filme de terror com ficção cientifica – na mesma linha de Alien – O 8º Passageiro e Tropas Estelares. No caso da obra-prima de Ridley Scott, o silêncio também é uma das marcas de sobrevivência na nave Nostromo, quando a tripulação começa a ser dizimada pela terrível criatura espacial que se infiltrou entre os astronautas. Do filme de Paul Verhoeven, os técnicos da Industrial, Light and Magic foram buscar o desenho dos violentos insetos assassinos que invadiram a Terra.

Com a sutileza que a história requer para ser contada, Krasinski introduz o espectador num universo em que o silêncio é essencial para a sobrevivência dos seus personagens. Com economia e controle absoluto sobre a linguagem, o jovem cineasta nunca deixa o filme fugir dos seus propósitos para, principalmente, não perder a credibilidade diante da plateia. A construção dos personagens e o pequeno raio de ação onde a trama se desenrola são de suma importância.

O tempo é o atual e ficamos sabendo, logo no início do filme, que há 43 dias os habitantes da Terra começaram a ser dizimados por estranhos predadores. Numa rua, vemos um painel com fotos de pessoas desaparecidas. A manchete de um jornal nova-iorquino traz uma frase: “E o som”. Ficamos sabendo que aquelas formas de vidas alienígenas são atraídas por qualquer tipo de som, insuportáveis para eles, que destroem tudo o que veem em sua frente (em termos, claro, pois eles são tão cegos como as toupeiras).

O filme segue apenas uma pequena família, com pai (Krasinksi), mãe (a inglesa Emily Blunt) e três filhos (entre eles uma menina, pré-adolescente, interpretada pela magnífica Millicent Simmonds, a atriz surda revelada em Wonderstruck, de Todd Haynes, no Festival de Cannes 2017).

A partir desse pequeno círculo familiar, enredado pelos predadores, Krasinski faz um estupendo estudo de contenção sonora. Como é impossível se expressar sonoramente, os atores só têm os gestos (linguagem de sinais) e sussurros inaudíveis para se comunicar. Essa necessidade dos personagens é tão vital que atinge cada um de nós, espectadores, que nos pegamos forçados a também não expressar o som, como se qualquer barulho no lado cá pusesse aqueles personagens em perigo.

A partir da originalidade do argumento, desenvolvido com ideias que surpreendem a cada sequência, quando os personagens mais indefesos – como a mãe e as crianças – são postos a prova a todo momento, Um Lugar Silencioso é um filme aparentemente sem retoques. O trabalho com o som e suas fontes variadas, notadamente o que pertence à realidade do filme (diegese) e aquele manipulado pela linguagem, são trabalhados para gerar um suspense fora do comum.

Enquanto isso, o filme também nos ajuda a ver o quanto a dimensão sonora do cinema é importante e misteriosa. Se não quiser atrapalhar a sessão, evite o balde de pipocas.


Veja também