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Crítica: Rogério Duarte, o Tropikaoslista, de José Walter Lima

03 / maio
Publicado por Ernesto Barros às 4:32

Rogério Duarte. Fotografia: 02Play

Movimento de agitação artística, cultural, política e musical, o Tropicalismo vem sendo passado a limpo nas telas dos cinemas brasileiros. No ano em que se comemoram os 50 anos do disco-manifesto Tropicália, mais um personagem é devassado e devolvido à atualidade. Embora tenha morrido há dois anos, não se pode dizer que seu nome era dos mais conhecidos pela massa. É por isso, entre outras mil coisas, que o documentário biográfico Rogério Duarte, o Tropikaoslista, de José Walter Lima, em cartaz a partir de hoje no Cinema da Fundação/Derby e Museu, ganha mais importância. Acima de tudo, o filme presta um tributo inestimável a um dos artistas mais inteligentes e inquietos da história do Brasil.

Nascido em Ubaíra, uma pequena cidade próxima de Jequié, na Bahia, Rogério Duarte era um vulcão de criatividade. Também nascido na Bahia e contemporâneo de Rogério, o cineasta José Walter Lima, um especialista em compor retratos biográficos, acertou em cheio ao deixar que o multiartista conduzisse a narrativa. Figura complexa, grandiloquente e dado ao silêncio – até mesmo à reclusão –, Rogério está presente de corpo e alma no documentário, soberano para contar e relembrar sua longa, acidentada e criativa trajetória nas artes brasileiras.

Como poucos, ele foi artista gráfico, músico, compositor, escritor, tradutor, professor e mentor intelectual da ala baiana do tropicalismo, com uma forte ascendência sobre Gil e Caetano, para quem desenhou capas de discos e fez composições. Com um personagem tão ambicioso, no sentido de querer ser um homem que pensa e cria, que acredita em Deus e vive em paz com a natureza, José Walter Lima não teve outra saída senão deixar que seu biografado contasse ele mesmo sua história, sem fazer uso de depoimentos de seus companheiros de geração ou exegetas do seu trabalho. Vários deles estão presentes, como Gil, Caetano e Carlos Rennó, mas eles apenas cantam suas canções ou tocam suas melodias.

Sempre com uma boina caída no olho direito, a barba e as sobrancelhas desgrenhadas, Rogério cativa a atenção da plateia como uma espécie de mágico e alquimista. José Walter de Lima cria balizas cronológicas para dar conta de suas várias atividades, partindo da primeira à qual o nome de Rogério tornou-se conhecido. Ele explica, por exemplo, como foi estudar no Rio e como se deu seu encontro com artista gráfico pernambucano Aloísio Magalhães, com quem deu os primeiros passos. No começo da década de 1960, Rogério foi responsável pelo designer das peças gráficas do CPC – Centro Popular de Cultura e iniciou uma prolífica criação de cartazes de filmes.

Amigo íntimo de Glauber Rocha, a quem o documentário é dedicado, Rogério explica como criou o cartaz de Deus e o Diabo na Terra do Sol, ao apontar as duas colunas de textos como o elemento inovador da peça. Ele ainda fez os cartazes de Terra em Transe, O Desafio, Cara a Cara, Os Deuses e Os Mortos, Os Fuzis e A Idade da Terra (também autor da trilha sonora), entre outros. Rogério também criou um sem fim de capas discos para Gil, Caetano, Novos Baianos, Mutantes e outros nomes da MPB.

Ele conta, também, sobre sua prisão durante a Ditadura Militar, quando foi torturado e precisou ser internado pela família, porque havia “pirado”. A partir dessa época, iniciou uma nova fase na vida, quando virou Hare Krishna, aprendeu sânscrito e traduziu o Bhagavad Gita, o livro sagrado do hinduísmo, que foi publicado em 1998 pela Companhia das Letras. A partir dessa ligação com a religião – ele faz questão de afirmar que é um teísta –, Rogério iniciou um período de reclusão na fazenda que tinha em Santa Inês, no interior da Bahia, onde sonhava ser enterrado. “Aqui morou aquele asceta, que foi um santo do pau oco”, fala para a câmera, sorridente.

Por meio de uma narrativa circular, que vai abrindo e fechando portas, José Walter Lima é muito feliz ao mostrar como a música sempre esteve presente na vida do multiartista. Os amigos Gil e Caetano marcam presença cantando músicas de Rogério. Caetano canta Gayana, presente no álbum Abraçaço. Mesmo para quem conhece a vida e e obra de Rogério, o documentário é surpreendente, pois redimensiona o legado dele para um lugar de grandeza entre as personalidades que moldaram o Brasil dos últimos 50 anos.


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