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ago

Reféns, novamente, da picuinha sindical dos rodoviários?

29 / ago
Publicado por Roberta Soares às 18:39

Aldo Lima e companheiros durante discussão em frente à Empresa Metropolitana. Foto: Bobby Fabisak/JC Imagem
Aldo Lima e companheiros durante discussão em frente à Empresa Metropolitana. Foto: Bobby Fabisak/JC Imagem

 

Como se não bastasse a certeza de pelo menos uma greve por ano, parece que os passageiros do transporte coletivo público da Região Metropolitana do Recife viraram reféns, também, de mais uma briga sindical. Depois de unirem força, há dois anos, para derrubar o presidente quase vitalício do Sindicato dos Rodoviários de Pernambuco, Patrício Magalhães – à frente da entidade por mais de 30 anos – as novas lideranças da categoria agora começam a brigar entre si, disputar poder e jogar politicamente com a força dos motoristas, cobradores e fiscais, repetindo atitudes pequenas que diziam repudiar. O comando de fato e o comando de direito do Sindicato dos Rodoviários não está mais se entendendo, antes mesmo de a nova direção ser empossada – o que só acontecerá em dezembro.

De um lado, o presidente oficial do sindicato, Benílson Custódio, escolhido por conveniências para presidir a chapa que disputou com Patrício Magalhães e que, de fato, foi eleito pela categoria. Do outro, Aldo Lima, um rodoviário que pouco tempo atuou na profissão e que teve a candidatura impugnada, sendo obrigado a colocar Benílson Custódio à frente da chapa para não perder a disputa. Mas, justiça seja feita, foi Aldo Lima e sua turma do CSP/Conlutas (grupo extremamente politizado, ligado ao PSTU, acostumado a coordenar movimentos e manifestações populares) quem recuperou a autoestima e a força dos rodoviários que operam na Região Metropolitana do Recife. Aldo Lima pensava que, mesmo sem ter sido o presidente eleito, iria presidir a categoria. Mas na hora “H”, Benílson Custódio e seus aliados mostraram que não, que seriam eles os líderes não só de fato, mas também de direito. Para complicar, Aldo Lima se lançou candidato a deputado estadual pelo PSTU, atitude criticada por muitos rodoviários, principalmente em tempos de pouca crença na política.

O resultado dessa picuinha sindical está aí: depois de uma greve vitoriosa como estratégia sindical, embora fraca na ausência de ônibus nas ruas, os passageiros da RMR convivem com essas manifestações relâmpago que os rodoviários decidiram fazer desde a semana passada, quando o Tribunal Superior do Trabalho (TST) derrubou o aumento de 10% nos salários e de 75% no tíquete-alimentação da categoria. Os rodoviários estão tão instigados com a nova realidade que, mesmo depois de o TST rever a decisão e manter os 10% de reajuste salarial decidiram que vão fazer manifestações como e quando quiserem. De um lado, uma parte das lideranças alerta para o risco da atitude, não só social e política, mas judicialmente. Enquanto que, do outro lado, outro grupo incentiva os protestos. A situação está tão fora do controle que deu margem aos empresários entrarem, agora, com o pedido de ilegalidade das manifestações para conseguir, na prática, o aval judicial para substituição formal dos trabalhadores. E fizeram o governo do Estado – gestor do sistema de transporte – , na pessoa do secretário das Cidades, Evandro Avelar, finalmente se colocar diante do problema, atuando como deveria: mediando e articulando, ao menos, o bom senso.

 

Reunião comandada por Benílson Custódio. Foto: Ricardo B. Labastier/JC Imagem
Reunião comandada por Benílson Custódio. Foto: Ricardo B. Labastier/JC Imagem

 

Mas, e no caso de a Justiça entender que as manifestações saíram do controle, quem perderá com isso? Aldo Lima, Benílson Custódio ou o motorista e cobrador, pais de família que querem apenas um aumento salarial, ao qual todo trabalhador tem direito por lei? Como se diz: ser bom no bom é fácil, difícil é  ser bom no ruim. Enquanto a categoria estava ganhando, no lucro, todos eram amigos. Quando os problemas começaram – como foi o caso da derrota no TST, especialmente no reajuste do tíquete-alimentação, que não foi revisto – as brigas também tiveram início. Ainda na greve oficial realizada pela categoria, no fim de julho, o presidente eleito já deu sinais de que discordava de alguns movimentos feitos por Aldo Lima. Na segunda-feira (26/8), dia do segundo dos três movimentos de paralisação realizados depois da decisão do TST, Aldo Lima foi rejeitado e expulso pela própria categoria em frente à garagem da Empresa Metropolitana, no Jardim Uchôa. Foi acusado de querer tirar proveito político da causa dos trabalhadores. Nesta quinta-feira (28/8), os dois líderes e seus respectivos aliados realizaram votações separadas para decidir a terceira manifestação e, por pouco, não houve problema.

 

Aldo Lima, mesmo sem ter uma representação oficial da categoria – e sendo candidato a deputado estadual – queria votar uma nova paralisação na segunda-feira, o que não era considerado pelo presidente oficial eleito. A dissidência ficou clara e o impacto dela será sentido, em breve, pelos motoristas, cobradores e fiscais. Quem conhece o setor, já acompanhou algumas das greves e manifestações da categoria, volta no tempo ao ver essa nova briga: época em que acusavam Patrício Magalhães de fazer jogada política com o sindicato e de não defender mais os direitos dos rodoviários. Será que, em menos tempo do que se esperava, viveremos a mesma situação? Esperemos os fatos e deixemos a dúvida no ar…


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