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Falhas e acertos na primeira etapa do Plano Diretor Cicloviário do Recife, segundo os ciclistas

15 / dez
Publicado por Roberta Soares às 13:47

 

ciclovia

 

 

A Associação Metropolitana dos Ciclistas (Ameciclo) fez considerações sobre o primeiro trecho da rota ciclável metropolitana, apresentado no fim de novembro, pela Secretaria de Turismo do Estado. A chamada primeira etapa terá 5,5 quilômetros de extensão e ligará o Marco Zero ao Centro de Convenções. O projeto é bem mais ousado e prevê a implantação de uma rota ciclável de 30 quilômetros de ciclofaixas (em sua maioria), ciclorrotas e ciclovias, ligando o Recife ao município de Igarassu. Mas, por enquanto, apenas a primeira etapa tem orçamento certo e promessa de conclusão para junho de 2016.

O traçado inicial desse primeiro trecho, apresentado à imprensa e a cicloativistas do Grande Recife, seria o seguinte: começaria no Marco Zero, seguiria pela Avenida Rio Branco (hoje fechada ao tráfego de veículos motorizados), Praça da República, Ponte Princesa Isabel, Rua da Aurora, Avenida Arthur Lima Cavalcante, Rua Jayme da Fonte (Santo Amaro), até as vias locais leste e oeste da Avenida Agamenon Magalhães, chegando de um lado ao Centro de Convenções e do outro ao Shopping Tacaruna.

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Abaixo, é possível acompanhar as sugestões da Ameciclo para cada trecho projetado pelo governo do Estado, em parceria com a Secretaria de Mobilidade do Recife. De forma geral, os ciclistas criticam o projeto por perceber nele, mais uma vez, a falta de coragem do poder público em tirar o espaço do automóvel para dar vez às bicicletas. Dois trechos do projeto do governo são os pontos cruciais da discussão, sobre os quais poder público e ciclistas não chegam a um acordo: a travessia da Ponte Princesa Isabel e o traçado na Rua da Aurora. A primeira etapa da rota metropolitana tem valor estimado em R$ 3,5 milhões, com recurso do Prodetur, financiados pelo BID.

No caso da Ponte Princesa Isabel, o governo defende que as pessoas desçam da bicicleta e dividam a calçada com o pedestre . Os ciclistas argumentam que há espaço suficiente para implantar uma ciclofaixa. Já na Rua da Aurora, a proposta oficial é de um traçado sobre o Cais da Aurora, enquanto a Ameciclo argumenta que o projeto dificulta as conexões com as ruas transversais à Aurora e, mais uma vez, preserva o espaço do automóvel.

“Sentimos que falta à proposta o estímulo ao uso seguro da bicicleta como meio de transporte preferencial e uma análise mais profunda do uso da bicicleta pelos ciclistas, que não foram chamados para discutir o projeto em sua origem. A preocupação em não tirar o espaço do automóvel é gritante. Há pontos em que a proposta é boa, mas em outros não. É o caso da Ponte Princesa Isabel, da Rua da Aurora, da Ponte Buarque de Macedo e de todos os cruzamentos e pontes no percurso, que não têm nenhuma conexão prevista. A segurança do ciclista fica a desejar”, critica uma das coordenadoras da Ameciclo, Cristiane Crespo.

 

Os argumentos da Ameciclo ponto por ponto

* Avenida Rio Branco
Executar o projeto anunciado em fevereiro de 2014 de transformá-la em uma rua de pedestres

Na Avenida Rio Branco, onde começaria a rota ciclável, os ciclistas apenas pedem o cumprimento da promessa feita pelo prefeito Geraldo Júlio de transformar a via
Na Avenida Rio Branco, onde começaria a rota ciclável, os ciclistas apenas pedem o cumprimento da promessa feita pelo prefeito Geraldo Júlio de transformar a via. de fato, numa rua de pedestres, um boulevard. Fotos: JC Imagem

 

* Ponte Buarque de Macedo
– Consolidar a ciclofaixa de lazer como permanente, segregada por tachões, já que desde a pintura da ciclofaixa de lazer que é observado um volume reduzido de veículos motorizados na faixa da esquerda e as três faixas existentes já absorvem com folga o tráfego diário
– Inserir um terceiro tempo no semáforo da Ponte Buarque de Macedo e da Avenida Rio Branco com o Cais do Apolo para permitir a travessia dos ciclistas

Na Ponte Buarque de Macedo, Ameciclo defende a oficialização do traçado na ciclofaixa móvel
Na Ponte Buarque de Macedo, Ameciclo defende a oficialização do traçado da ciclofaixa móvel

 

* Praça da República
Implantar em todo o trecho da praça ciclovia ou ciclofaixa com segregação mais alta do que os habituais tachões, que coíba, de fato, a invasão dos carros à ciclofaixa
É sugerida a criação de uma estrutura que garanta a segurança de ciclistas, o chamado “martelo”, na esquina da praça em frente ao Palácio, encurtando a travessia de quem vai até o Teatro de Santa Isabel, e a transferência do semáforo para a esquina

* Ponte Princesa Isabel
É o ponto mais polêmico. A Ameciclo sugere uma ciclofaixa bidirecional com 2,20 metros, e o redimensionamento das faixas de rolamento, sem prejuízo da quantidade de faixas existentes hoje. a. Para isso, argumenta que a ponte é bastante larga: 14,7 metros medidos na rua, sendo 3,5 metros + 3,5 metros + 3,7 metros no sentido centro e 4 metros no sentido subúrbio.
A hipótese de ciclorrota é inviável, segundo a entidade, por tonar impossível a travessia da ponte no sentido Rua da Aurora-Praça da República. Isso porque ciclorrotas não podem ser implantadas no contrafluxo da via
Além disso, para que a circulação compartilhada ocorra na calçada é necessário que ela tenha mais de 2,5 m (o que não acontece). Além disso, é uma calçada histórica, o que impossibilita a sinalização indicativa no piso

A Ponte Princesa Isabel é o ponto mais polêmico da discussão. Projeto do governo quer que ciclista desça da bicicleta e ande pela calçada. Ciclistas defendem o redimensionamento das faixas para veículos
A Ponte Princesa Isabel é o ponto mais polêmico da discussão. Projeto do governo quer que ciclista desça da bicicleta e ande pela calçada. Ciclistas defendem o redimensionamento das faixas para veículos

 

* Rua da Aurora
A melhor solução para a Rua da Aurora não é consolidar uma infraestrutura cicloviária na beira do rio. Isto levaria legalmente a uma proibição da circulação de bicicletas nas demais faixas da via, segundo o Artigo 58 do CTB, inviabilizando a utilização da Rua da Aurora como caminho para os usuários que forem acessar as vias transversais. Uma boa solução seria a consolidação da ciclofaixa de lazer existente, permitindo uma saída mais fácil para as vias perpendiculares

Ameciclo não quer ciclofaixa sobre Cais da Aurora. Defende a garantia no espaço para a bicicleta na via
Ameciclo não quer ciclofaixa sobre Cais da Aurora. Defende a garantia no espaço para a bicicleta na via

 

* Avenida Prefeito Arthur de Lima Cavalcanti
Devido à existência do giro livre à direita de quem vem da Ponte do Limoeiro em direção a Olinda, torna-se impossível fazer a travessia da Rua da Aurora para a faixa da direita da Arthur Lima Cavalcanti com segurança. Assim, é recomendado que a ciclovia bidirecional nessa via seja implantada na pista oposta ao mangue (pista oeste) com as seguintes condições:
– Facilidade de conexão entre a Arthur Lima Cavalcanti e a Avenida Norte
– Implantação de um terceiro tempo no semáforo da Rua da Aurora com a Avenida Norte, permitindo a travessia transversal direta com segurança

* Avenida Jayme da Fonte
A conexão das Avenidas Arthur de Lima Cavalcante e Jayme da Fonte pode ser feita utilizando bike boxes (área de espera, resolução 550/2015 do Contran, artigo 3o) no cruzamento com a Avenida Cruz Cabugá.
A sugestão da Ameciclo é que a ciclofaixa na Jaime da Fonte seja implantada no canteiro central e, não, em um dos lados da via por causa da ocupação urbana na área, com muito comércio e serviços. No entendimento dos ciclistas, o equipamento será invadido constantemente, expulsando o ciclista

 

Rua Jayme da Fonte, em Santo Amaro, também está na rota com uma ciclofaixa à direita, onde hoje é liberado o estacionamento
Rua Jayme da Fonte, em Santo Amaro, também está na rota com uma ciclofaixa à direita, onde hoje é liberado o estacionamento. Ciclistas defendem que a ciclofaixa seja no canteiro central

 

* Avenida Agamenon Magalhães
A Ameciclo não vê necessidade de implantação de uma ciclofaixa nas vias locais da Avenida Agamenon Magalhães, como proposto. Entende que bastaria uma ciclorrota, já que a via já apresenta uma dinâmica de “Rua Calma”, com baixo volume de veículos e lombadas, além de intenso movimento de pedestres
O que a entidade defende, entretanto, é a instalação de sinalização clara e abundante que indique a presença de ciclorrota e uma ciclofaixa em continuação àquela da Avenida Jayme da Fonte, que cruze a Agamenon Magalhães e permita o acesso seguro dos ciclistas à pista local do lado oposto

 

Vias locais da Agamenon Magalhães  deveriam ganhar ciclorrota no lugar de ciclofaixa
Vias locais da Agamenon Magalhães deveriam ganhar ciclorrota no lugar de ciclofaixa

 

O que diz o poder público

A Secretaria de Turismo, Esportes e Lazer de Pernambuco (Seturel-PE) informou  ter encaminhado as sugestões da Amecciclo para a CTTU, órgão responsável pela validação do projeto, com prazo de retorno para esta quarta-feira (16). Após esse retorno da CTTU é que a Seturel-PE poderá avançar com o PDC. Taciana Ferreira, presidente da CTTU, disse que as sugestões estão sendo analisadas e que poderá haver consenso em algumas, como a proposta para a Avenida Arthur de Lima Cavalcanti e a Ponte Buarque de Macedo. Mas que em outras, como a Ponte Princesa Isabel e a Rua da Aurora, é preciso analisar com cuidado.

 

Confira a íntegra do projeto apresentado pelo governo do Estado


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