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O metrô do Recife sustenta o ônibus e esse é um dos problemas da falta de recurso – diz superintendente

12 / jun
Publicado por Roberta Soares às 9:40

 

Engenheiro e administrador Leonardo Villar Beltrão está à frente do metrô depois de 33 anos de casa. Fotos: André Nery
Engenheiro e administrador, Leonardo Villar Beltrão está à frente do metrô depois de 33 anos de casa. Fotos: André Nery

 

Por sorte, o novo superintendente do metrô do Recife tem os pés no chão. Com 33 anos de casa, o engenheiro e administrador Leonardo Villar Beltrão está acostumado a lidar com o eterno arrocho do sistema metroviário, mesmo ele sendo o terceiro maior do País sob a gestão da CBTU. Ainda bem, porque o momento exige frieza, lógica e capacidade administrativa para gerir sem recursos. Nesta entrevista, Leonardo Villar alerta que, apesar do socorro do Ministro das Cidades, Bruno Araújo, que repôs parcialmente o orçamento do metrô, ainda precisa de R$ 18 milhões apenas para conseguir garantir a operação entre outubro e dezembro. Diz que vai enfrentar de frente a violência e a invasão do comércio ambulante ao sistema, critica o fato de o metrô subsidiar o transporte por ônibus, cobra uma equiparação da tarifa e reconhece que, do jeito que as coisas estão, conseguirá apenas manter um padrão aceitável do serviço prestado ao passageiro. Sim, também avisa que o momento não é de aumentar a passagem. Antes, é preciso melhorar o serviço.

JC – O sentimento foi de alívio com a reposição parcial do orçamento do metrô, mas isso dará para garantir a operação até quando?
Leonardo Villar – Somente até outubro. Para chegar a dezembro, preciso de mais R$ 18 milhões, quantia que irá repor o nosso orçamento previsto para 2016, que era de R$ 82 milhões. Foi solicitado R$ 104 milhões, mas a Lei Orçamentária Anual (LOA) aprovou apenas R$ 82 milhões, que com o corte repassado à CBTU, acabou reduzido para R$ 51,8 milhões. O ministro das Cidades, Bruno Araújo, conseguiu repor R$ 33 milhões, mas essa quantia cobre as despesas apenas até outubro. Não chegaremos a dezembro.

JC – E estamos falando apenas do custeio do sistema, do feijão com arroz. Sem direito sequer a um pedaço de bife. Como o senhor vê essa situação?
Leonardo Villar – É preocupante e, dessa forma, com a reposição do orçamento de R$ 82 milhões, iremos conseguir apenas manter uma padrão aceitável do serviço. Não conseguiremos ir muito além disso.

“A operação do metrô, mesmo com o aumento do orçamento garantido pelo ministro das Cidades, Bruno Araújo, só está garantida até outubro. Para chegar a dezembro precisamos de mais R$ 18 milhões”

Leonardo Villar

JC – O senhor concorda que o metrô está com a imagem comprometida. Perdeu o status típico dos sistemas metroviários e hoje simboliza a degradação, sofrendo com o comércio ambulante, a violência e as quebras? Concorda que é preciso resgatar essa imagem?
Leonardo Villar – Com certeza. Antigamente, a gente era muito respeitado pela comunidade e isso não acontece mais. A gente perdeu muito da nossa cultura, da imponência do sistema metroviário, o que não é fácil retomar. Esse será um grande desafio. Retomar essa imagem. Há, ainda o papel do usuário, que não preserva o metrô. Antes, para ele jogar um papel no chão, pensava duas vezes e os funcionários rapidamente repreendiam. Hoje é diferente. Ele não hesita em jogar e o funcionário evita reclamar porque está impotente. Eu entendo a posição do passageiro porque o padrão do serviço que o metrô apresenta não é digno. Mas antes não tínhamos o problema do ambulante, que é o mais difícil de ser solucionado.

JC – Como fazer, então, para acabar com a invasão do comércio ambulante no metrô? Há quem diga que essa é a principal porta de entrada dos problemas do sistema?
Leonardo Villar – O problema do ambulante é o mais difícil de ser solucionado porque a gente não tem autonomia para apreender a mercadoria que está sendo vendida. Só as prefeituras têm. E é esse comércio que está puxando tudo … a sujeira, a degradação e a violência. Mas só vou resolver quando apreender. Mesmo que eu contrate uma empresa de segurança, ela não poderá segurar o material. Por isso vou insistir em fazer uma parceria com as prefeituras do Recife, Camaragibe e Jaboatão, especialmente a do Recife. Vou sentar para conversar com o secretário João Braga (Mobilidade e Controle Urbano) para pedir ajuda. Temos que ter uma ação permanente. Estão sendo realizadas apreensões uma vez por semana, mas é insuficiente. Precisamos de algo constante.

JC – E a questão da segurança? Os assaltos no sistema têm sido constantes…
Leonardo Villar – Estamos preocupados com isso. Planejo aumentar a quantidade de seguranças e buscar uma parceria com a PM. Tentamos um convênio em outra época, a corporação ficou interessada, mas o efetivo era insuficiente. Pretendo insistir. Se não der para cobrir o efetivo ideal, fechamos a metade. Preciso de 58 homens, seguranças e/ou PMs para as 29 estações das Linhas Centro e Sul. Hoje, temos 242 armados e 132 não armados, o que totalizam 44 por turno não armados e 80 armados para cuidar das Linhas Centro e Sul, das oito estações da Linha Diesel e do serviço patrimonial. Quero colocar dois homens armados nas plataformas das estações porque é por elas que entram e saem os ladrões. Se conseguirmos isso, já será uma vitória.

JC – Quanto o metrô do Recife precisaria, hoje, para oferecer uma boa operação?
Leonardo Villar – O ideal, acredito, seriam R$ 120 milhões somente para o custeio da operação. O sistema como um todo custa R$ 350 milhões, incluindo o pagamento de dois mil funcionários. Só para o custeio são 100 milhões. É preciso considerar que o metrô sofreu dez anos sem uma visão técnica. Só teve indicações políticas. Os problemas foram se acumulando, sem que fossem expostos. E o metrô é um equipamento totalmente operacional. Precisa de uma visão técnica. Se um político senta nessa mesa, mesmo que ele tenha vários técnicos ao lado dele, as decisões tomadas nunca serão grandes porque é um sistema muito complexo.

JC – Ou seja, a situação do metrô é tão crítica que não podemos sequer sonhar com investimentos?
Leonardo Villar – É difícil. Precisamos aumentar a segurança, melhorar a manutenção, comprar peças para reposição. Temos 40 trens, mas só conseguimos disponibilizar 18 para operação. E já é um sucesso porque geralmente são 13 ou 14 apenas. Faltam peças. Dos nove VLTs (Veículos Leves sobre Trilhos), apenas quatro estão operando. Não significa dizer que todos esses veículos estejam quebrados, mas estão à espera de peças. Já temos seis trens canibalizados, como chamamos as composições de onde tiramos peças. Dois deles são dos novos. A reposição das peças é um dos nossos grandes problemas porque elas não estão na prateleira. Precisamos encomendar e esperar chegar. Sobre investimentos, estamos tentando remanejar R$ 61 milhões que temos do PAC e que estão à espera de liberação do governo federal. Se esse dinheiro sair, irei investir na segurança do sistema. O recurso era para concluir as duplicação da via do VLT até o Cabo de Santo Agostinho, mas há outras prioridades. São coisas que o passageiro não vê, mas fundamentais para a segurança operacional. Pretendo recuperar os taludes existentes ao longo da rede elétrica (R$ 6,7 milhões), implantar um CFTV (circuito fechado de TV) nos trens antigos e estações, o que reduzirá meu custo com segurança humana (ainda sem valor estimado), instalar máquinas de bilhetagem nas estações – veja o que aconteceu com a greve dos bilheteiros? –, fazer a recuperação da via como um todo, limpando o mato e recuperando as folgas que obrigam o trem a reduzir a velocidade. E, o mais importante, investir R$ 9 milhões na compra de peças para os trens. Quero agir de forma preventiva para evitar gastos ainda maiores.

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JC – Quanto se gasta com manutenção?
Leonardo Villar – Deveríamos gastar entre R$ 14 e 15 milhões por ano. Mas não temos gasto nem R$ 5 milhões. Somente com energia, que não temos nenhum tipo de desconto, vale ressaltar, são R$ 24 milhões anuais. Mas quero dizer que estou aqui para fazer um trabalho realista. Cheguei com a missão de levantar todas as deficiências do metrô e repassar ao Ministério. Até porque sabemos que não se engana a população nem a imprensa por muito tempo.

JC – Na sua opinião, tudo não passa pelo reajuste da tarifa, a mais barata entre os metrôs do País?
Leonardo Villar – Concordo que a tarifa precisa ser reajustada, embora reconheça a importância do papel social que o metrô do Recife possui. O que precisa ser discutido é o atual modelo de remuneração. As pessoas sempre falam que o metrô é um sistema deficitário, cuja receita cobre apenas 18% do custo operacional. Mas isso não é verdadeiro. O metrô do Recife, na prática, subsidia o sistema de transporte rodoviário (por ônibus). Hoje, nós recebemos apenas um terço da tarifa paga pelo nosso usuário. O restante fica com o ônibus. De cada tarifa de R$ 1,60, nos ficamos apenas com R$ 0,55. Por isso é errado quando dizem que a tarifa ideal para o metrô conseguir cobrir suas despesas é R$ 7,70, um valor impraticável para o passageiro. É R$ 7,70 porque, na prática, o metrô ficaria com apenas R$ 2,30. O restante iria para o ônibus. Sem o subsídio que bancamos para o sistema rodoviário, precisaríamos na verdade de uma tarifa de R$ 2,70. Isso nunca é dito, mas chegou a hora de as pessoas saberem e pararem com esse discurso de que o sistema metroviário é caro. Ao contrário, o metrô é barato. O custo por passageiro transportado é de R$ 2,70, mesmo bancando o transporte total: infraestrutura, energia, manutenção, material rodante. O rodoviário, que não gasta com energia nem com infraestrutura, transporta por R$ 2,80. O certo era que nossa tarifa fosse, ao menos, equiparada a do ônibus. Mas agora o momento é de melhorar o padrão do serviço oferecido ao passageiro. Não podemos aumentar a passagem do jeito que o serviço está.


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