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#ElasCidades – La Barca de Madri

22 / set
Publicado por Leonardo Vasconcelos às 11:37

“Dicen que la distancia es el olvido / Pero yo no concibo esta razón / Porque yo seguiré siendo el cautivo / De los caprichos de tu corazón”. A famosa música de Luis Miguel toca nos fones do meu MP3 num fim de tarde exuberante enquanto estava sentado nas escadarias que terminam no grande lago do Parque Bom Retiro de Madri. Não sei porque sempre gostei desta canção. “La Barca” é o nome dela. Um barco começa a se aproximar.

Refletida no espelho d’água uma beleza que faria Narciso se afogar. Charmosa, clássica, instigante. Assim se desenhava Madri nas ondas do lago. Assim se apresentava a moça que remava sozinha em minha direção. “Supiste esclarecer mis pensamientos / Me diste la verdad que yo soñé”, continuava a música, como um sonho a medida em que o barco chegava mais perto.

A cidade e a moça, ambas de belezas convidativas, me fizeram um convite: “Vem!”. Disse sim para as duas. Entrei no barco delas pela segunda vez. Na verdade já havia embarcado em uma paixão por ambas anos antes daquele entardecer que tardou de acabar. Sempre nutri uma admiração especial pela capital espanhola. Sua história, arquitetura e museus me fascinavam. Fazia planos de um dia conhecê-la. Só não planejava conhecer a tal moça em questão. Em visita ao Brasil, fui apresentado a ela por uma amiga em comum.

Em comum se descobriram gostos, afinidades e uma paixão. Naturalmente datada pelo pouco tempo que ficaria no país. Despretensiosamente convidada a continuar no além-mar. “Ahuyentaste de mí los sufrimientos / En la primera noche que te amé”. Puro impulso. Foi ele que me fez dar um pulo para entrar no barco no lago. Foi ele que me fez subir num avião e atravessar o oceano. Nas duas situações fui recebido com um abraço forte. Seguido de um longo beijo que atraiu olhares. No parque e no aeroporto.

A viagem seguiu. De barco e pela cidade. Plaza Mayor, Palácio Real, Puerta de Alcalá, Museu do Prado. Tive o prazer de conhecer os encantos do lugar que se misturavam com os dela em uma perfeita simetria típica de Madri.  “Hoy mi playa se viste de amargura / Porque tu barca tiene que partir / A cruzar otros mares de locura / Cuida que no naufrague tu vivir“. Inevitavelmente, o barco teve mesmo que partir. A música ia chegando ao fim, assim como a viagem. Mas ao contrário da canção, não houve tristeza, melancolia, naufrágio. Não se afunda quem se permite ser profundo. Ao contrário, se aprende a flutuar, mesmo num mar de intempéries.

Às vezes é preciso encarar que as embarcações-histórias cumprem suas jornadas e nem sempre nos é permitido tomar o leme. Não devemos nos sentir presos em correntezas e sim agradecer pelo livre curso das águas. E da vida.  No fundo, ambos sabíamos que outros mares viriam. Por isso deixamos o barco no lago para que outros casais pudessem contar outras histórias a ele.

Outra vez na frente um do outro. No parque e no aeroporto. Novamente quem passou viu um forte abraço e um longo beijo. Só que agora de despedida. O “até logo” não caberia porque dez anos depois ainda não nos reencontramos. O “adeus” também não porque o oceano do destino é sempre imprevisível.

Intuitivamente optamos pelo silêncio. Que só foi quebrado depois que me virei e fui embora. Para emudecer a dor que gritava no peito coloquei o fone de ouvido: “Cuando la luz del sol se esté apagando / Y te sientas cansada de vagar / Piensa que yo por ti estaré esperando / Hasta que tú decidas regresar”.

Antes eu não sabia porque gostava da canção. Agora eu sei.

*O #ElasCidades são contos (fictícios?) sobre as paixões do @blogmochileo pelas cidades e/ou/quase sempre por suas habitantes. Cada lugar – e as que vivem nele – guarda seu charme único. Como não se apaixonar? Toda sexta (não à toa) o #ElasCidades será publicado [qualquer semelhança com a realidade pode ser, ou não, mera coincidência].

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