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Em São Paulo, festival internacional mostra grandiosidade do circo

06 / jun
Publicado por Mateus Araújo às 11:04

Carolina Garcez, curadora do festival Circos. Foto: Asa Campos/PaniseCircus/Divulgação
Carolina Garcez, curadora do Festival Circos. Foto: Asa Campos/PaniseCircus/Divulgação

 

Encerra neste domingo (7) a terceira edição do Circos – Festival Internacional Sesc de Circo, em São Paulo. O evento começou desde 28 de maio, e reuniu na cidade 28 espetáculos (13 nacionais e 15 internacionais), de 10 países mais o Brasil. Dois pernambucanos também estão na grade: a Escola Pernambucana de Circo, com o espetáculo coletivo Charivari, apresentado em 30 e 31 de maio; e Rapha Santacruz, com Haru – A primavera do aprendiz, que será encenado neste sábado e domingo.

O Terceiro Ato conversou com a curadora do festival, Carolina Garcez. Confira:

JORNAL DO COMMERCIO – Como pensar o circo na contemporaneidade?
CAROL – É considerar a existência de múltiplos segmentos estéticos como linguagem e seus variados modos de produção e organização do espetáculo, observando e valorizando as potencialidades de cada um deles, bem como contribuindo de diferentes maneiras para que vençam suas fragilidades nos campos da formação, produção, circulação e difusão. Assim o Sesc São Paulo compreende o circo na contemporaneidade, como uma expressão artística com dificuldades a serem superadas, mas com um enorme potencial a ser explorado do ponto de vista da expressão artística e também na mobilização de diferentes públicos e plateias.

JC – De que maneira você percebe o circo, hoje no Brasil, no tangente às políticas culturais?
CAROL – Uma avaliação, ainda que superficial, da história do desenvolvimento e fortalecimento das artes circenses em diferentes países do mundo, mostra que nos lugares em que elas alcançaram e/ou desenvolveram modelos sofisticados de formação, produção e difusão, o investimento do Estado foi decisivo, na França por exemplo. Considerando a experiência que estamos acumulando com a organização do Festival Internacional Sesc de Circo, que nos permite o diálogo com diferentes realizadores em circo no Brasil, podemos perceber que a presença do Estado brasileiro é tímida. É possível observar que diferentes reivindicações e demandas dirigidas ao poder publico vêm sendo reiteradas a cada ano pelo setor, demonstrando que os diferentes níveis de governo avançaram pouco na efetivação de políticas para as artes circenses. Mas é importante pontuar que a sociedade e suas diferentes instituições são também responsáveis pela produção e fomento artístico e cultural brasileira, não apenas o Estado. E o Sesc São Paulo é uma dessas instituições e desenvolve seu trabalho na pesquisa, circulação e difusão não apenas das artes circenses, como as demais linguagens artísticas. Esse trabalho se da programação regular mensal das unidades, mas o Festival Circos é um momento e um espaço para, ao lado das demais instituições, artistas e profissionais de circo, intensificar o desenvolvimento do pensamento sobre circo como linguagem artística.

JC – Como foi o processo curatorial do Festival?
CAROL – O Circos – Festival Internacional Sesc de Circo tem curadoria 100% interna, feita por uma equipe da Gerencia de Ação Cultural do Sesc SP e técnicos de programação em circo das unidades participantes do Festival. Como o Circos se propõe como espaço para desenvolvimento do pensamento da linguagem artística circo, a cada ano a curadoria traz um tema que esteja alinhada a questionamentos tanto quanto a criação artística, quanto aos aspectos econômicos, políticos e sociais da linguagem. Assim são selecionados os espetáculos — para que o publico possa fruir e experienciar diferentes propostas de estéticas do circo — e a programação de atividades formativas — que reúne profissionais nacionais e internacionais como artistas, pesquisadores, produtores, realizadores de festivais e o publico.

 

"Haru" é um dos dois pernambucanos da programação. Foto: Sílvio Barreto/Divulgação.
“Haru” é um dos dois pernambucanos da programação. Foto: Sílvio Barreto/Divulgação.

 

JC – Dois representantes pernambucanos estão na grade de atrações (. O que você pontua de interessante no trabalho deles que foi essencial para estarem no Festival?
CAROL – A diversidade cultural brasileira se expressa na variada produção estética do circo. Um festival, portanto, tem que buscar visibilizar esta diversidade. Portanto, fazer a cada ano o exercício de encontrar espetáculos, performances e experiências expressivas de distintas partes e regiões do Brasil, é uma das principais tarefas da nossa curadoria. Depois de colocá-la em cena, o público se encarrega de destacar aquilo que mais o emocionou e lhe tocou. Um festival, além de propiciar um espaço de trocas e interações estéticas, deve também considerar o público como um ator social importante no universo das artes e do circo.

JC – No Brasil, no circo tem uma tradição mambembe. Como o Circos atende a esses grupos? Há espaço para eles na programação?
CAROL – O quê você afirma como tradição “mambembe” talvez seja um certo modo de produção que está no imaginário popular. Mas na verdade já é grande a produção mais atual em termos narrativos e de atualização do manejo das técnicas, habilidades e aparatos circenses que conformam este imaginário. O Brasil já tem muitos grupos, companhias, coletivos e empreendimentos de circo que estão neste movimento de busca de novas narrativas, novos paradigmas estéticos e novos modos de desenvolvimento e produção da linguagem. Tanto o Festival Circos quanto a programação regular em circo do Sesc SP não segmenta a produção artística, procurando contemplar de maneira crítica e qualificada todas as estéticas e fazeres circenses.


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