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Tinariwen, politizados roqueiros tuaregues, em seu melhor disco

15 / mar
Publicado por José Teles às 23:51

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A história do Tinariwen, banda de rock tuaregue, daria um filme. No entanto, candidato a roteirista, é melhor aguardar um pouco, porque não se sabe ainda que final o filme terá. A Tinariwen é do Mali, e faz uma música tida em alto conceito pela crítica, mas não pelos muçulmanos fundamentalistas, que não a aceitam. O guitarrista Abdallah Ag Lamida foi sequestrado, e esteve em poder dos fundamentalistas durante alguns meses. Antes de formarem a banda, membros da Tinariwen treinaram guerrilha em campos da Líbia, na época de Kadhafi.

Os tuaregues, nômades, espraiam-se por diversos países africanos, do Mali à Nigéria.Os integrantes do Tinariwen são parte desta diáspora, no caso deles ainda mais complicada. Vivem entre o conturbado Mali, a Algéria, Estados Unidos (na California), e França, onde gravaram o disco mais recente Elwan, ou Os Elefantes no idioma tamashek. A guerrilha deles é musical.

Uma metáfora para a situação que se vive em boa parte do continente africano. Os governantes, simbolizados pelos elefantes (mais pelo tamanho), responsáveis pela tirania sobre os animais de pequeno porte, o povo sofrido, que foi obrigado a emigrar em massa, e que agora se vê as voltas com a intransigência do governo Trump em relação à imigração para os EUA. O que pegou integrantes da Tinariwen, que têm base também na Califórnia.

Elwan tem as canções mais politizadas dos discos do grupo, as traduções para o inglês dão uma pálida ideia da poesia dos tuaregues. Mas a música, esta é simples, de poucos acordes, mas de ritmo hipnótico, arranjos com camada de percussão, instrumentos de cordas tradicionais, contrabaixo e guitarras elétricas, este últimos responsáveis por tratar a música do grupo de rock.

Não é exatamente rock, eles modernizaram a música tuaregue tradicional. Em Assawt usam instrumentos acústicos, com uma levada que lembra um ijexá acelerado. Parte da álbum foi gravado no Joshua Tree Studio, na California, com participações de músicos americanos, entre eles Mark Lannegan, Kurt Vile, com mixagem de Andres Schppe (Re Hot Chili Peppers).

O grupo existe desde fcomeço dos anos 80, com uma formação média de dez músicos. Ao longo dos anos, foram assimilando não apenas elementos ocidentais, como de outras regiões da África. Há quem considere a música psicodélica, pela repetição de linhas melódicas, com várias guitarras em arpegios, raramente solam, quando fazem é em riffs curtos, como acontece em Satanaqqan, meio rock, meio blues pelos tons menores, mas que lembra o intermezzo das violas dos cantadores nordestinos. A faixa Arherh ad anagh começa com solos que soam como viagens de grupos dos anos 60, do que se convencionou rotular de psicodelia.

Uma mão de duas vias. Músicos dos anos 60 foram buscar inspiração na música oriental, africana. Brian Jones dos Rolling Stone gravou em 1969, um álbum dos mestres de Joujouka, das montanhas do Marrocos (que gravariam em 1989 com os Rolling Stones, a faixa Continental Drift, do álbum Steel Wheels). Os tuaregues, confirma o baixista Eyadou Ag Leche, em entrevista à revista Uncut, sofreram influências de Jimi Hendrix, James Brown, e de Fela Kuti, que por sua vez, tem influências do próprio James Brown, de Miles Davis, entre outros. Fela, por sua vez, é influencia hoje de muitos  músicos brasileiros. O eterno círculo da arte, sempre em movimento.

Confiram o Tinariwen em Sastanàqqàm:

 


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