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mar

O RenovaBio e a guerra comercial dos produtores brasileiros com o etanol americano

13 / mar
Publicado por Leonardo Spinelli às 21:22

Safra de cana do centro-sul do País será aberta oficialmente hoje em cerimônia com o presidente Temer. Foto: Alexandre Gondim / JC Imagem

O presidente Michel Temer chega nesta quarta-feira (14) à cidade de Ribeirão Preto (SP) para a cerimônia de abertura da safra de cana 2018/2019 do centro-sul do País. No evento é esperado que ele anuncie o decreto de regulamentação do RenovaBio, programa que prevê que os produtores de biocombustíveis, a exemplo do etanol, possam vender certificados de biocombustíveis (CBios) no mercado para que as distribuidoras cumpram metas de emissões de carbono. Para os produtores de cana, no entanto, a festa não esconde um certo clima de “guerra comercial” com os EUA do protecionista Donald Trump.

“Há um excesso de oferta de etanol vindo dos EUA. Em 2017, pela primeira vez, foi deficitário na balança, importou mais que exportou o produto”, diz o presidente do Sindicato da Indústria do Açúcar e do Álcool (Sindaçúcar), Renato Cunha. Segundo ele, o País importou R$ 1,7 bilhão de litros de etanol de milho dos EUA e vendeu R$ 1,4 bilhão, principalmente para os EUA, mas também para Coreia, Japão e Holanda. EUA e Brasil são os maiores produtores de etanol do mundo.

O principal destino do etanol americano em solo brasileiro é o Nordeste. Segundo Cunha, isso acontece porque as distribuidoras fazem arbitragem de preço, deixando de comprar no mercado local para se aproveitar a superoferta americana.

“Esse etanol vem para o Brasil porque os EUA não conseguem melhorar suas leis ambientais. Eles têm autorização para misturar até 15% de etanol em seus combustíveis fósseis, mas aplicam no máximo 10%. Se fossem usados os 15%, não haveria disponibilidade para venda. Seria um consumo extra de 25 bilhões de litros”, diz. Com isso, argumenta Cunha, as distribuidoras se aproveitam dos prazos dados pelos produtores americanos. “A questão não é nem preço. As distribuidoras preferem comprar lá a prazo e vendem no mercado local à vista.”

No ano passado o governo brasileiro passou a taxar em 20% uma parte do etanol americano. Dos 1,7 bilhões importados, apenas 600 milhões de litros foram taxados. O restante, a grande maioria, entrou com tarifa zero. A mudança brasileira, apesar de tímida, chegou a instigar o presidente Donald Trump a falar em barreiras ao produto brasileiro. A ideia ainda não foi colocada em prática, mas para o mercado, os EUA poderiam sair na desvantagem, porque os EUA vendem mais para o Brasil do que o Brasil vende para eles.

Segundo o Estadão, a área técnica do governo discute, de forma preliminar, uma lista de itens que podem ser eventualmente levados a uma negociação de país a país com os Estados Unidos na questão do aço. Entre eles, está a elevação das tarifas de importação do etanol de milho produzido lá, o adiamento da sanção do acordo de céus abertos e a parceria entre Embraer e Boeing.

O que o setor sucroalcooleiro quer mesmo é que as distribuidoras brasileiras sejam proibidas de comprar o etanol de milho americano e também, um certo protecionismo que voltou à baila em tempos de Trump. “O mundo passa pelas disputas de mercado, como acontece agora com o aço e commodities, incluindo o etanol. São ajustes, precisamos de regulamentações da ANP e incentivos à produção nacional em direção ao caminho irreversível da bioeconomia”, diz o presidente do Sindaçúcar.

A bioeconomia vem na esteira das políticas públicas internacionais, com mais e mais países passando a anunciar metas para redução do consumo de combustíveis fósseis ou acabar com os motores à combustão.


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