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Renda dos pernambucanos mais ricos caiu 19% em 2017, aponta PNAD Contínua

14 / abr
Publicado por Leonardo Spinelli às 18:18

Em 2017, 1% dos pernambucanos mais ricos ganharam R$ 21,3 mil. Entre os mais pobres, a renda declarada foi de R$ 53. Foto: Bobby Fabisak / JC Imagem

 

Os números da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua) divulgados na quarta (11) e relativos a Pernambuco mostram que o quadro nacional se repetiu de forma intensa no Estado. O rendimento médio mensal do contingente das pessoas que ganham menos em Pernambuco caiu 26,7% de 2016 para 2017. Cerca de 267 mil pessoas no Estado disseram ter um rendimento médio mensal de R$ 52 com o seu trabalho no ano passado (esse número representa 5% de um contingente de 5,3 milhões de pessoas que declararam rendimentos no Estado). Em termos de renda, é uma diferença de 410 vezes para os ganhos dos 1% mais ricos do Estado, que tiveram um rendimento mensal de R$ 21,3 mil. Em 2016, os mais ricos de Pernambuco tinham uma renda de R$ 26,5 mil. São pouco mais de 53 mil pessoas nessa condição.

Apesar da diferença abissal, a crise também afetou a renda dos mais ricos, que caiu de um ano para o outro numa proporção de 19%.
Na média, o rendimento do pernambucano era de R$ 1.627 em 2017, numa redução de 9,8% de um ano para o outro.

Para o pesquisador da FGV Social, Marcelo Neri, esse quadro, que se repete em Pernambuco, mostra que a crise abateu toda a sociedade. “A gente saiu de uma situação em que a renda crescia e a desigualdade caía e essa era a beleza do caso brasileiro. O bolo crescia com mais fermento para os mais pobres, mas depois começou a cair, e mais sobre os mais pobres. O que era qualidade dupla virou defeito duplicado. Agora está todo mundo perdendo.”

Em termos absolutos, o número de pessoas que obtiveram rendimento através do trabalho caiu em 1,38% no Estado, passando de 3,33 milhões de indivíduos em 2016 para 3,28 milhões em 2017. Também caiu o número de gente que vivia de renda ou aluguel em 11,2% de um ano para o outro (eram 103 mil em 2017).

Em compensação, aumentou em 4,3% o número de pessoas que tiveram seus rendimentos vindos de outras fontes, fechando num contingente de 2,51 milhões de pessoas no ano passado. A quantidade de aposentados cresceu 7% no período, enquanto houve alta de 22% do número de pessoas que recebiam pensão alimentícia, doação e mesada de alguém que não morava na mesma casa. No total, 5,35 milhões era o número de pessoas com rendimentos nos domicílios pernambucanos em 2017

DESIGUALDADE

Após a Constituição de 1988, o Brasil iniciou uma trajetória de redução das desigualdades, principalmente a partir dos anos 90 e que foi ampliada na primeira década deste século 21. Mas, na semana passada, o IBGE divulgou números que reforçam a análise de que esse movimento estagnou.
Segundo dados da PNAD, o País tinha em 2017 10,3 milhões de pessoas vivendo com apenas R$ 40 por mês (em Pernambuco, seriam 463 mil pessoas), um rendimento bem abaixo da linha da pobreza estabelecida mundialmente em US$ 1,90 por dia (isso equivale a R$ 133,72 mensais em 2016, segundo cálculos do IBGE). Para piorar, naquele ano, essas mesmas pessoas recebiam R$ 49, ou seja, em 2017 ainda tiveram uma perda de renda em 18%. Por outro lado, no topo da pirâmide, 2 milhões de pessoas, ou 1% da população, recebiam o equivalente a R$ 15,5 mil, 387 vezes mais do que os 10 milhões mais pobres.

Desde 2013 o Índice de Gini mostra reversão nos ganhos contra a desigualdade. O indicador mede a distribuição de renda na população, variando de 0 a 1. Quanto mais perto de 1, mais a sociedade é desigual. Naquele ano, o Brasil fechou, pela primeira vez, com o Índice de Gini abaixo da casa dos 0,500, em 0,495. Ficou estagnado neste patamar até 2015, mas em 2016 passou a aumentar, de 0,555 para 0,567 em 2017 (uma redução de 2,1% no nível de igualdade), voltando ao patamar de 2004 (0,569).

O avanço da pobreza é considerado um dos grandes retrocessos da recessão econômica. O Nordeste concentrava 55% da população extremamente pobre do País em 2017, com 8,1 milhões de pessoas com renda per capita abaixo de R$ 136, boa parte concentrada na Bahia e em Pernambuco. É um contingente 10,8% maior do que o registrado no ano anterior, ou 800 mil pessoas a mais, segundo números da LCA Consultores, com base nos dados do IBGE.

“Esses números são preocupantes, porque mostram uma estagnação de um ano para o outro, mas não é surpreendente. Outros indicadores mostravam essa deterioração”, avalia o coordenador de campanhas da Oxfam Brasil, Rafael Georges, organização de origem britânica que busca soluções para o enfrentamento da pobreza.

“A redução da desigualdade veio das políticas trabalhistas, com valorização do salário mínimo, aumento da oferta de emprego e redução da informalidade. O que aconteceu foi a inversão dessas políticas. O Brasil teve alta de desemprego, que se recupera hoje pelo emprego informal, que paga menos. Com isso, quem está na base é mais fragilizado. Isso nos ensina que, para o Brasil sair da desigualdade, precisa sair da lógica apenas do trabalho, precisa da proteção social”, comenta Georges.

Apesar de concordar que o equilíbrio fiscal é fundamental para manter o controle da inflação, que prejudica principalmente a camada mais pobre, a Oxfam Brasil considera que o teto de gastos estipulados pelo governo Temer exagera ao colocar na conta os gastos com saúde, educação e investimentos sociais. “Não dá pra matar mosca com bala de canhão”, avalia.

Marcelo Neri: “Qual o mundo que eu preferia morar? É o mais rico e desigual, mas com a renda crescendo para tudo mundo” Foto: Rose Brasil/ABr – Agência Brasil – CC

RIQUEZA

O pesquisador da FGV Social Marcelo Neri faz uma leitura diferente dos dados divulgados pelo IBGE. “Os resultados que saíram mostram uma estabilidade da desigualdade num nível muito alto e uma pequena queda na renda do trabalho na retomada (da economia)”, salientou. Segundo ele, a análise da desigualdade no Brasil ficou prejudicada entre 2015 e 2016, quando o IBGE mudou a forma da pesquisa de domicílios usada até então, passando da PNAD para a PNAD Contínua.

“Não são comparáveis. A desigualdade na PNAD Contínua é mais alta que na tradicional, mas isso não quer dizer que aumentou de 2015 para 2016. A gente precisa entender essa evolução e, hoje, os dados preliminares mostram que a desigualdade subiu, mas não vemos isso em alta definição, é parcial”, diz.

Neri afirma que o foco na desigualdade é um fenômeno que tomou o mundo a partir do best-seller de Thomas Piketty, O Capital do Século 21, de 2013. “Isso mostra um pouco a demanda da sociedade no mundo sobre esse tema, mas, para mim, não está claro que a sociedade brasileira está tão preocupada com a desigualdade agora. O Brasil precisa crescer e precisa aumentar a produtividade da sociedade e discutir como partilhar esse ganho. Crescer e melhorar a distribuição. É um período desafiador”, comenta. Para ele, a desigualdade deve ser tratada em conjunto com a formação da riqueza. “Qual o mundo que eu preferia morar? É o mais rico e desigual, mas com a renda crescendo para tudo mundo.”


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