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Crítica: O Passageiro, de Jaume Collet-Serra

08 / mar
Publicado por Ernesto Barros às 5:00

Cena de O Passageiro. Foto: Imagem Filmes/Divulgação

Por quase 10 anos o ator irlandês Liam Neeson dedicou-se a uma extensa lista de filmes de ação. Ele não colocou a prova apenas sua reputação, como também seu corpo – um saco de pancadas em constante perigo de morte. O período coincidiu com o luto de sua súbita viuvez: em março de 2009, a atriz Natasha Richardson, com quem estava casado desde 1994, morreu durante um acidente de esqui nos Estados Unidos.

No começo deste ano, o ator veio a público para avisar que estava se aposentando dos filmes de pancadaria. Os fãs vão sentir a sua falta, pois quase todo ano Liam Neeson protagonizava um filme de roteiro mirabolante, incríveis cenas de ação e a certeza de que os bad guys levariam a pior no final. De uma maneira ou de outra, todos os filmes seguem o mesmo padrão, como o recente O Passageiro, em cartaz a partir de hoje em circuito nacional, que vem sendo alardeado como o último do seu tipo com o ator de 1,93cm.

Liam Neeson sempre teve um jeito de pau para toda obra. Desde Luta Decisiva, onde lutava boxe sem luvas, e Darkman – Vingança sem Rosto, feitos em 1990, antes de virar uma estrela hollywoodiana, ele já mostrava que podia encarar qualquer situação estressante e enfrentar quem atravessasse o seu caminho. Pela quarta e última vez ele se reúne com o catalão Jaume Colett-Serra para mais uma sucessão de cenas de impacto, uma boa dose de clichês e situações que parecem retiradas de outros filmes que fizeram juntos, ou não.

Em O Passageiro, o esqueleto básico do filme lembra ao mesmo Sem Escalas, em que a ação se passa quase completamente num avião, que fizeram juntos em 2014, com leves resquícios da trilogia Busca Implacável, da época em Neeson assinou um contrato com a produtora EuropaCorp (leia-se: Luc Besson). No novo filme, Neeson faz um vendedor de seguros que há 10 anos toma o mesmo trem para Nova York. Ele é tão familiar com o trajeto que conhece a tripulação e vários passageiros.

Quando o filme começa, Michael MacCauley (Neeson) está conversando com a mulher, Karen (a classuda Elizabeth McGovern, numa ponta), e o filho Danny (Dean-Charles Chapman) sobre o futuro da família, principalmente a ida do rapaz para uma universidade particular. Aos 60 anos, morando no subúrbio e com uma hipoteca para vencer, tudo o que ele não quer é um sobressalto na carreira que escolheu, após passar um tempo na polícia.

Como em quase todos os filmes da dupla Collet-Serra/Neeson, os roteiros não são à prova de furos e de originalidade. Mas, em suma, são pontos de partidas, geralmente óbvios, é verdade, onde o personagem de Neeson vai lutar sozinho contra um inimigo desconhecido. Isso começou em Desconhecido, em 2011, seguiu por Sem Escalas (2014) e Noite Sem Fim (2015), até chegar a O Passageiro.

Assim como o personagem de Sem Escalas, MacCauley, depois de receber uma péssima notícia na empresa onde trabalha, fica atordoado no trem de volta para casa, até que uma mulher (Vera Farmiga) senta ao seu lado e lhe faz uma proposta para ganhar US$ 100 mil (cerca de R$ 324 mil), uma quantia suficiente para sair do sufoco e garantir a escola do filho. Para ganhar o dinheiro, ele precisa apenas encontrar um passageiro e deixar um sinalizador com ele. Ele não vai precisar matar ninguém.

O espectador não se surpreende quando MacCauley retoma a consciência do seu gesto desesperado, egoísta e ignóbil e resolve enfrentar a mulher misteriosa e todos os perigos que ela traz, até que o acordo chegue ao fim. Como cada passageiro pode ser tanto a vítima como o seu algoz – até as mulheres e adolescentes entram na cota –, o vendedor de seguros não consegue confiar em ninguém.

A ação ininterrupta, as cenas de lutas brutais e a sensação de claustrofobia aumentam a tensão do filme, fazendo do trem uma montanha russa de adrenalina movida a doses cavalares de testosterona. Em que pese os roteiristas fecharem os olhos para a lógica, O Passageiro não deixa de ter seu charme – graças, claro, ao tipo honesto que Neeson encarna sem o mínimo esforço.


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