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Crítica: Você Nunca Esteve Realmente Aqui, de Lynne Ramsay

08 / ago
Publicado por Ernesto Barros às 21:39

Joaquin Phoenix e Ekaterina Samsonov. Foto: Supo Mungam Films/Divulgação

A produção franco-britânica Você Nunca Esteve Realmente Aqui, que estreia nesta quinta-feira 99/8) em circuito nacional – no Recife, no Cinema da Fundação/Derby e Museu e no Moviemax Rosa e Silva – passou no sábado, último dia exibição do Festival de Cannes, na edição do ano passado. Por algumas horas, o quarto filme da cineasta escocesa Lynne Ramsay, uma apaixonada esteta da forma cinematográfica, esteve muito próximo de ganhar a Palma de Ouro. Pelo menos foi o barulho ouvido nas rodas de jornalistas, poucas horas antes do anúncio do sueco The Square como vencedor do prêmio máximo do festival.

Mas Você Nunca Esteve Realmente Aqui não saiu esquecido pelo júri presidido pelo cineasta espanhol Pedro Almodóvar: Lynne Ramsay ganhou o Prêmio de Melhor Roteiro (dividido com o grego Yorgos Lanthimos, por O Sacrifício do Cervo Sagrado) e, por último mas não menos importante, deu ao americano Joaquin Phoenix o Prêmio de Melhor Ator. Num festival em que poucos filmes apontaram favoritismo, a impressão que o trabalho de Lynne Ramsay deixou foi forte. Entretanto, como sempre acontece com os filmes dela, há gente que ama e há gente que odeia.

Por ter sido educada como operadora de câmera os filmes de Lynne Ramsay tendem a ser objetos excessivamente estéticos, quase abstratos. Talvez este seja o filme que tenha menos dependência da palavra como âncora da narrativa. Muitas vezes, o olhar dela parece perdido entre as lembranças, os traumas e as dores do personagem principal do filme, um veterano que guerra especializado em recuperar meninas das garras de pedófilos.

Embora Joaquin Phoenix seja conhecido pelos maneirismos, ele encontrou em Joe um bom tipo para demonstrar sua capacidade de expressar estados anímicos. A construção do seu personagem, como o entendimento dos flashs de sua memória, não são de apreensão imediata. Pedaços de recordações da infância e trechos de uma ação durante uma guerra se interpõem em sua missões. Uma delas, que aparentemente se assemelharia com tantas outras, ganha ares de pesadelo quando é encarregado de trazer para casa uma adolescente de 12 anos, filha de um político, que estaria vivendo num cativeiro com outras crianças.

Imagens recorrentes das ruas de Nova York, o background político, a busca pela menina e as cores fortes da paleta do filme levam de imediato para uma comparação com Taxi Driver, de Martin Scorsese. Apesar das semelhanças, Lynne Ramsay não filma como um cineasta homem, o que talvez possa ser aplicado à Kathryn Bigelow (especialmente em Jogo Perverso). Isso quer dizer que, apesar da violência daquele universo, seu olhar aponta para uma delicadeza que ainda pode ser vista por meio de um encontro improvável entre Joe e Nina (Ekaterina Samsonov), a menina que ele salvou.

Mais uma vez, Lynne não deixa de manifestar paixão pela cor vermelha, seja o vermelho da natureza (como na abertura de Precisamos Falar Sobre Kevin) ou o vermelho do sangue, que pinta corpos, paredes e mesas em Você Nunca Esteve Realmente Aqui. Essa paixão pela plasticidade pode não agradar a muitos cinéfilos – tanto os que gostam da pureza da ação, como os que veem o cinema de Lynne como uma manifesta estetização da violência. Pelo sim pelo não, o filme é um convite para uma experiência visual de grande capacidade imersiva.

 


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