28
set

Crítica: A Moça do Calendário, de Helena Ignez

28 / set
Publicado por Ernesto Barros às 21:17

André Guerreiro Lopes e Djin Sganzerla. Foto: Pandora Filmes.

“Todo sonho é a realização de um desejo”. Essa frase é dita por Inácio (André Guerreiro Lopes), um mecânico que não suporta mais trabalhar. Desmotivado e infeliz no casamento, ele sonha seguidamente com uma mulher vestida de vermelho, que embeleza um calendário numa parede da oficina Barato da Pesada. Por obra e graça do desejo, um dia Inácio é procurado por Iara (Djin Sganzerla), que cresceu num assentamento e milita no MST. Ela é a materialização da mulher do calendário.

Esse é apenas um dos enredos possíveis de A Moça do Calendário, o quarto longa-metragem assinado pela também atriz Helena Ignez, em exibição no Cinema da Fundação/Derby e Museu, em Casa Forte. Pela primeira vez, Heleza filma um roteiro do cineasta Rogério Sganzerla, com quem foi casada e teve as filhas Djin e Sinai, além de ter mantido com ele uma das parcerias mais criativas do cinema brasileiro.

Desde o início da carreira, quando fez os primeiros filmes na Bahia, onde nasceu, seu nome esteve vinculado a grandes nomes do cinema brasileiro. Antes de virar musa, companheira e parceira de Sganzerla, Helena atuou em filmes de Glauber Rocha (com quem casou, ainda na Bahia, e teve a filha Paloma), Roberto Farias (Assalto ao Trem Pagador), Joaquim Pedro de Andrade (O Padre e a Moça) e Julio Bressane (Cara a Cara).

Muito da personalidade cinematográfica de Helena foi forjada pelos filmes que fez com Sganzerla, entre eles O Bandido da Luz Vermelha, A Mulher de Todos, Sem Essa, Aranha e Copacabana Mon Amour. Realizados com poucos recursos e em pouco tempo, essa produção ficou conhecida pela alcunha de Cinema Marginal, ou de Cinema de Invenção (como vaticinou o crítico e cineasta paulista Jairo Ferreira).

Com a colaboração das filhas – Djin, no elenco; Sinai, na produção –, e o roteiro de Sganzerla, escrito em 1987, a partir dos contos de Luís Antônio Martins Mendes, que Helena adapta para os dias atuais, a atriz e diretora filma sob o signo da liberdade, fazendo jus ao cinema de invenção. Além de dedicar A Moça do Calendário a Sganzerla, morto em 2004, Helena também dedica o filme ao filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, autor do livro Sociedade do Cansaço.

A partir da relação de trabalho na oficina, onde Inácio é cobrado constantemente para apresentar resultados e não sonhar acordado, Helena também expressa as ideias de Han em torno do que ele chama de violência neoronal, uma forma de coerção em que as pessoas se cobram para trabalhar mais, sempre apoiadas em discursos motivacionais e positivistas que só levam ao cansaço e a falta de tempo para os indivíduos terem uma vida mais prazerosa.

Numa sequência das mais satíricas, Helena segue o trabalhador até uma clínica de genética, onde ele é obrigado a fazer um estranho teste de urina e esperma. Em outra, num apartamento comunitário, uma líder social negra é raptada por homens encapuzados. Já em outro núcleo, ouvimos o cantor Roberto Moura entoando canções francesas antigas, da Bretanha e das Antilhas. Com muita habilidade, Helena salpica o filme com comentários políticos, além de trazer à tona a participação política da mulher.

Ainda que dependa muito das palavras, A Moça do Calendário tem também momentos de grande beleza visual, especialmente nas cenas externas filmadas nas ruas de São Paulo. Poucos filmes recentes foram tão generosas com a cidade, flagrada em tomadas em movimento em ruas e avenidas, que revelam uma cidade mais solar, muito longe da metrópole desumana e cinzenta.

Num momento de celebração, a própria Helena aparece com a amiga Vera Valdez para um encontro no Bar do Luiz, um ponto de encontro dos funcionários da oficina. A liberdade com que a cineasta faz o seu cinema talvez cause estranheza a quem não conhece as raízes mais inventivas do cinema brasileiro. Entretanto, basta ter os olhos livres e se deixar levar pela criatividade e sensibilidade de Helena para curtir esse filme belo e instigante.


Veja também