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Crítica: 3 Faces (Se Rokh), de Jafar Panahi.

07 / abr
Publicado por Ernesto Barros às 19:17

Atriz Behnaz Jafari e o diretor Jafar Panahi. Foto; Imovision/Divulgação

Há quase duas décadas que Jafar Panahi é uma pedra no sapato do governo iraniano. E mesmo confinado dentro de casa, proibido de trabalhar e viajar para fora do País – em virtude de uma sentença arbitrária, em 2010 –, o cineasta não dá trégua às autoridades e continua a fazer filmes, que são convidados para os principais festivais do mundo e nos quais conquistam prêmios constantemente. A última provocação realizada por Jafar Panahi é o longa 3 Faces (Se Rokh, 2018), no qual também atua como ele mesmo, apenas para mostrar o machismo a que são submetidas as mulheres iranianas, sem exceção. O filme está em cartaz no Cinema da Fundação/Derby.

A primeira cena de 3 Faces é impactante e dá o tom do filme, que se apresenta como um road movie existencial e político. A cena é digna de um thriller: uma jovem, proibida pela família de entrar num conservatório dramático de Teerã, grava o próprio suicídio como um ato de protesto. O vídeo é recebido pela atriz Behnaz Jafari, muito conhecida no Irã, que pede a Panahi que a leve até à região onde mora a jovem Marziyeh Rezaei, um lugar próximo da Turquia extremamente conservador, em que as tradições não deixam margem para que as mulheres possam sequer respirar.

Pouco importa que, enquanto assistimos ao filme, descobrimos que todo o drama da jovem atriz está edificado sob uma farsa. O que está em questão é que Marziyeh Rezaei foi proibida de frequentar o curso, embora tenha passado na prova, contra todos os prognósticos da família. Com seus planos elaborados e diálogos naturais, Panahi fez um filme em que a simplicidade não é mais uma questão de ordem, mas, sim, sua complexidade.

Para mostrar que os moradores daquelas montanhas ainda vivem isolados e encastelados em seus dogmas e direitos, o cineasta não se utiliza de nenhum subterfúgio. Embora esteja no filme, nem sempre ele está testemunhando as coisas que acontecem. Essa ausência de onisciência, contraditória em seus termos, é um atestado de metacinema dos mais modernos. Entretanto, a questão que está em primeiro plano é o comportamento daquele grupo social em torno de seus obsessões de gênero.

Apesar não ser muito acintoso, para não perder a credibilidade e o respeito dos seus personagens “verdadeiros”, não há como não rir da fixação dos moradores da aldeia com seus prepúcios. Sim, quando os homens são são circuncidados, eles guardam os prepúcios como se aquele pedaço retirado deles fosse uma espécie de amuleto da sorte. Se um jovem deseja estudar, por exemplo, ele deve jogar o prepúcio no pátio de uma faculdade. Pronto, a sorte vai fazer com que ele estude lá. Simples assim.

Jafar Pahani, apesar de revelar esses comportamentos, não perde o foco do que pretende realizar com 3 Faces. Ele quer mostrar, a partir da história de três mulheres: Behnaz Jafari, Marziyeh Rezaei e da velha atriz, hoje esquecida, que teve sucesso e fama antes da revolução que mudou o Irã, em 1979.

Obrigado a ficar em casa, Jafaz Panahi aprimorou seu estilo observacional – em alguns momentos, seu filme lembra o genial Gosto de Cereja (Ta’m e Guilass, 1999), do mestre Abbas Kiarostami, de quem foi diretor assistente. Talvez esse método, aliado à paisagem rústica e cinzenta da aldeia iraniana, não cause uma grande impressão num público que não conheça o cinema iraniano. Embora já estejamos longe da década de 1990, quando Kiarostami, Mohsen Makhmalbaf e Panahi dominavam os cinemas mundiais, o cinema iraniano ainda está muito vivo. E Panahi, sem dúvida, é o maior símbolo desse cinema pela luta em se manter um crítico permanente do sistema.


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