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Opinião – Sertanejos: ocupando espaços e embotando paladares

27 / dez
Publicado por José Teles às 2:05

Wesley Safadão, maior chachê musical do país
Wesley Safadão: maior chachê musical do país (foto – divulgação)

O predomínio avassalador da música popularesca no Brasil é um fenômeno preocupante para o qual poucos têm dado atenção. Uma escalada que não teve paralelo em 2015. Culminando, na última semana do ano, com o sertanejo ocupando as dez primeira posições das canções mais  tocadas no país, conforme ranking da Crowley (empresa que monitoriza o que está sendo consumido e tocado nas emissoras de rádio e TV).  Em primeirão situava-se o mato-grossense Luan Santana, com Chuva de Arroz.

O preocupante não é o domínio das paradas brasileiras por um só segmento musical. O perigo é que ele aumenta cada vez o embotamento estético de um imenso contingente da população.  Música comercial sempre houve e haverá. O grupo mais comercial da história foi The Beatles, e Mozart fazia música para vender. O problema aqui é que é só comercial, no sentido mais estreito do termo, lixando-se para um mínimo de qualidade. São melodias pobres e assemelhadas, com letras de teor poético zero, e produções padronizadas, resultando numa massa sonora amorfa.

Música educa, já houve tempo em que se ensinava música nas escolas. A música não deveria levar apenas o consumidor a se limitar a obedecer o “bate palminha”, o “tira o pé do chão” ordenado pelo artista no palco, mas também à reflexão, à contemplação. Nada contra a dança.  A disco music era inteiramente direcionada às pistas, como boa parte do que se chama de música eletrônica. Mas em ambas, uma preocupação com a criação, com a singularidade, no ser diferente de outros.

O que se convencionou chamar de  sertanejo é um subgênero antropofágico e predador. Varridas do Nordeste pelas  bandas de  fuleiragem music,  no  início dos anos 2000. O sertanejo foi recauchutado, no visual, nos ritmos e na temática. Se antes era o romantismo cafona e canhestro de Zezé di Camargo & Luciano, Gian & Giovanni, Bruno & Marrone, agora é a zoeira sem noção de Luccas Lucco, Gusttavo Lima,  e quejandos.

Este subgênero, que a cada dia agrega mais nomes, parecendo sair de uma linha de montagem, é bem sintetizado em Hino dos Machos, um country rock , de Conrado & Aleksandro que termina com os versos: “Se ela gruda, eu encaixo/Se ela foge, eu laço/Essa é a lei dos bruto(sic)/ o hino dos machos”.

Uma música massificada aos extremos, em detrimentos de outros estilos musicais que continuam sendo produzido no país em larga escala, mas para plateias cada vez menores. O denominador comum é a TV Globo, que avaliza e torna recomendável tudo que inclui em suas novelas (em parte do catálogo da gravadora Som Livre, pertencente ao mesmo grupo). Se em outros tempos a programação do rádio influenciava a novela, agora se dá o inverso. A trilha da novela serve de guia para o que vai tocar no rádio.

Não é de bom tom pronunciar-se contra , nem questionar qualidade. Esta, a qualidade, quem define é o povo, brada o politicamente correto, mais ou menos como um sujeito que anda de bike, para não poluir a cidade, mas trafega na contramão.  Certo, o povo define da mesma forma como acha que elege os políticos que legislam o país, e o levaram à situação em que se encontra. O político, com honrosas e parcas exceções, é eleito pela força da grana, com que ele paga espaços publicitários para conquistar eleitor. A música consumida no Brasil maciçamente não é escolha, é falta dela.

É o que o povo é obrigado a escutar quando vai ver a novela, e a programação de quase todos os canais, ou que os prefeitos país afora lhe dá, supostamente de graça, em praça pública. Mas custa caro, no mais amplo sentido da expressão. Supostamente “forrozeiro”, mas totalmente na estética de sertanejo universitário (o que dá uma ideia do nível do nosso ensino superior), Wesley Safadão, que iniciou carreira solo com um repertório já com data de validade vencida, dizem, é o artista de cachê mais alto do Brasil.

Confiram Wesley Safadão, ao vivo, em Chuva de Arroz, do repertório do sertanejo Luan Santana:

 


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