SAÚDE

Pobreza Menstrual: um problema de saúde pública que perpassa pela falta de dignidade à condição de existir sendo uma mulher

Essa escassez não é apenas falta de absorventes, mas também pela falta de produtos de higiene, água potável, saneamento básico e educação menstrual

Julianna Valença
Julianna Valença
Publicado em 17/07/2021 às 9:00
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Divulgação/Projeto Fluxo Digno
Cerca 7,2 milhões de mulheres vivem em situação de extrema pobreza no Brasil, de acordo a Síntese de Indicadores Sociais (SIS) do IBGE - FOTO: Divulgação/Projeto Fluxo Digno
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A condição de não acesso adequado aos elementos importantes para a higiene menstrual faz parte da rotina de muitas mulheres, adolescentes e pessoas transexuais que menstruam. Denominada de ‘pobreza menstrual’, essa escassez não é apenas pela falta de absorventes, mas também pela falta de produtos de higiene, água potável, saneamento básico e educação. E pode afetar a saúde física e psicológica das mulheres e desencadear outras problemáticas como o acesso à educação.

“Uma mulher que não consegue se relacionar de forma saudável dentro de uma norma social com a sua menstruação - que é uma característica sua de existência -, precisa ser assistida no âmbito da saúde pública”, afirma a terapeuta ginecológica e professora de saúde da mulher, Mayza Dias.

No Brasil, cerca 7,2 milhões de mulheres vivem em situação de extrema pobreza, de acordo a Síntese de Indicadores Sociais (SIS), do IBGE. Nestas condições, os absorventes são considerados quase como itens de luxo. "Entre comprar comida e absorvente, a mulher em situação de vulnerabilidade social vai sempre escolher a comida”, declara Ana Carla Lopes, coordenadora do projeto social Fluxo Digno, que coleta e distribui itens de higiene menstrual para pessoas em situação de vulnerabilidade social no Recife.

O projeto, conduzido por Ana Carla e outros voluntários, tem levado absorventes descartáveis e de pano a mulheres que se encontram em situação de rua ou em comunidades pobres da Região Metropolitana do Recife. Sem recursos, muitas pessoas que menstruam acabam fazendo uso de soluções improvisadas para conter o sangramento, como a utilização de pedaços de pano usados, roupas velhas, jornal e até miolo de pão. Além disso, também há aquelas que não conseguem realizar as trocas diárias do item de higiene, conforme indicação de ginecologistas (3 - 6 vezes), e permanecem com o mesmo por muitas horas.

“Quando começamos a falar de menstruação em rodas de mulheres e ciclos de educação popular, esse marcador de como lidar com a menstruação sempre aparece e para a maioria das mulheres. Essa relação com a menstruação é um problema e a falta de absorventes é sempre um constrangimento, às vezes um motivador de trabalho para as meninas, que começam a trabalhar cedo para comprar seu próprio absorvente. Não ter o recurso faz com que a mulher se sinta humilhada com a condição de menstruar”, explica Mayza Dias.

 

Acesso a educação

A pobreza menstrual também é um dos agravantes da exclusão educacional. A ONU estima que uma a cada dez meninas já faltaram à escola durante a menstruação. No Brasil, este índice é ainda mais grave: uma a cada quatro já deixaram de ir ao colégio por não ter absorventes. Ainda segundo o relatório nacional feito pela Always, 48% das meninas tentaram esconder que o motivo da falta à unidade de ensino tenha sido a escassez do recurso.

A estudante Luiza*, atualmente com 18 anos, faz parte dessa estatística. Aos 14, ela teve um ciclo que durou quatro meses, em que menstruava todos os dias. Sem suporte médico e recursos, a garota precisou se virar com o que tinha. “Na época eu morava com meu pai, mas a situação financeira dele não é tão boa. Tiveram momentos que faltou dinheiro para absorvente, então eu usava eles para ir para escola e às vezes até vazava. Eu morava perto da escola e sempre ligava chorando para o meu pai levar calça para mim”, relata.

Para conter o fluxo dentro de casa, Luiza usava fralda de pano para economizar e deixar os poucos absorventes para os momentos em que precisasse ir à escola - um colégio particular de Camaragibe. “Eu tinha dois irmãos pequenos e eles tinham fraldas de pano, e aí eu ficava usando também. Separava as minhas para não usarem. As minhas eram 7, eu lavava, estendia, secava e usava de novo”, relata Luiza.

Sem o item de higiene a garota se via privada da sua liberdade. “Eu fazia realmente de tudo para não usar absorvente e nem sair de casa, porque eu não ia sair com uma fralda. Foram os piores meses da minha vida, eu ficava faltando escola por conta da situação, era péssimo”, afirmou.


Educação Menstrual


Por ser um tema considerado ‘Tabu’, a menstruação não é amplamente discutida, o que dificulta que as pessoas que menstruam conheçam seus próprios corpos, entendam do seu ciclo menstrual e peçam ajuda. Esse conhecimento supera mitos de inferioridade feminina que apontam a menstruação como podridão, indignidade ou como falha em produzir uma gravidez. Segundo a UNICEF, a educação menstrual apropriada para cada idade pode atuar descoberta do abuso sexual infantil mais precocemente, evitando que só sejam descobertos após a gravidez da menina.

Quando teve a primeira menarca, com 13 anos, a recifense Bruna* não sentia liberdade para abordar o assunto na própria família. “Antigamente esse assunto era um tabu na minha casa; na medida que fui crescendo fui me informando mais e tirando aos poucos o tabu sobre determinados assuntos, inclusive sobre a menstruação [...] quando eu menstruei fiquei bem retraída para dizer a minha mãe o que tinha acontecido”, afirma a garota.

Assim como tantas outras, Bruna também não teve dinheiro para comprar absorventes durante um período e sentia que pedir o item de higiene a outras pessoas era incomodar “Eu e minha família não estávamos bem financeiramente e eu sabia que a minha menstruação estava pra vim. Então, como de costume, eu orei, e antes de terminar a oração pedi pra Deus não deixar a minha menstruação vim, pois meus pais estavam sem condições de comprar e eu não queria incomodar ninguém com isso”, relata a garota.


Saúde

Os recursos inapropriados para lidar com o ciclo e a falta de informação causam uma série de problemas relacionados à saúde das mulheres e pessoas que menstruam. Segundo o relatório da UNICEF, essas complicações vão desde questões fisiológicas, como alergias e irritação da pele e mucosas, infecções, até uma condição que pode levar à morte, conhecida como Síndrome do Choque Tóxico. Além de afetar a saúde emocional, podendo causar desconfortos, insegurança e estresse, contribuindo assim para aumentar a discriminação que meninas e mulheres sofrem.

Luiza compartilha que se sentia constrangida quando não podia sair de casa de absorvente. “Eu ficava com vergonha de mim e me afastei de muitos amigos, eles me perguntavam o motivo de eu estar faltando tanto e eu não queria falar. Até hoje eu não tenho amigo nenhum dessa época”, relata.

 

Políticas Públicas

Itens de higiene menstrual ainda não são amplamente distribuídos pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e a pobreza menstrual também não tem sido um tema amplamente discutido, em caráter nacional. Em 2021, alguns estados e municípios têm levantado o debate, levando projetos de leis à votação que visam oferecer dignidade menstrual a mulheres que se encontram em vulnerabilidade social.

No Recife, a Prefeitura lançou no último dia 8 de julho o programa ‘Ciclo de Cuidado’, que pretende promover a dignidade menstrual entre estudantes da Rede Municipal de Ensino do município. Segundo a gestão, cerca de 17 mil estudantes serão beneficiadas com a distribuição de absorventes nas escolas durante o ano letivo e com o desenvolvimento de eixos de formação com foco em Educação Menstrual para os profissionais da educação. No processo educativo serão abordadas questões sociais, biológicas, emocionais e ambientais.

Ainda segundo a prefeitura, serão aplicados R$1,5 milhão no programa e a maior parte do escopo foi pautado em dois projetos da deputada federal Tabata Amaral (PDT), que propõe a distribuição gratuita de absorventes em espaços públicos - como escolas, postos de saúde e presídios.

“Educação e Saúde vão dialogar fortemente neste programa. Além da ausência na escola durante todo o ciclo do período menstrual das adolescentes, devido à falta de acesso aos produtos de higiene íntima, tem a questão do uso de materiais impróprios ou não higienizados que causam infecções e impactam diretamente na saúde”, ressaltou o secretário de Educação e Esportes, Fred Amancio.

 

*Trocamos os nomes das estudantes para não identificá-las e as expor 

Divulgação/Projeto Fluxo Digno
A condição de não acesso adequado aos elementos importantes para a higiene menstrual faz parte da rotina de muitas mulheres, adolescentes e pessoas transexuais que menstruam - FOTO:Divulgação/Projeto Fluxo Digno

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