52ª edição

Juliano Cazarré brilha na Paixão de Cristo de Nova Jerusalém

Espetáculo mantém sua força e enfatiza mensagem de tolerância de Jesus

Márcio Bastos
Márcio Bastos
Publicado em 13/04/2019 às 2:16
Felipe Souto Maior/Divulgação
Espetáculo mantém sua força e enfatiza mensagem de tolerância de Jesus - FOTO: Felipe Souto Maior/Divulgação
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A Paixão de Cristo de Nova Jerusalém, obra que conta os últimos momentos da vida do Nazareno, move multidões para o Brejo da Madre de Deus há 52 anos, desde que a cidade-teatro foi construída. O espetáculo, cuja nova temporada teve pré-estreia na sexta-feira (12), tem proporções monumentais e a cada ano mantém sua tradição, ao mesmo tempo em que se renova em detalhes que vão para além de aspectos técnicos.

Talvez a mais notável dessas mudanças seja mesmo o elenco. Desde 1997, nomes de projeção nacional costumam integrar o elenco principal. Este ano não foi diferente, com Juliano Cazarré no papel de Jesus, Gabriel Braga Nunes como Pilatos; Priscila Fantin como Maria; Ricardo Tozzi como Herodes, e Bruno Lopes como o apóstolo João. De Pernambuco, se destacam ainda Nínive Caldas como Maria Madalena e José Barbosa, que já interpretou Cristo em três temporadas, como Judas.

Cazarré construiu um personagem complexo e contido. Seu Jesus é reflexivo, fala com suavidade, mas também explode em ira e em desespero. É, em essência, um ser iluminado, mas humano. Quem também brilha nos poucos momentos em que está em cena é Braga Nunes, que ressalta as nuances do dilema de Pilatos diante da injustiça que está sendo cometida contra Cristo.

A direção de Carlos Reis e Lúcio Lombardi é atenciosa aos detalhes e faz com que a maratona de três horas de encenação transcorra com dinamismo. Dentro das muralhas da cidade-teatro, o espectador se depara com nove cenários opulentos, complementados pela natureza do Agreste, que é um espetáculo à parte.

A estrutura e a organização do evento são exemplares, com cada cena tendo início apenas quando todo o público se acomoda no novo cenário. Há também atenção aos portadores de necessidades especiais, com acessibilidade para cadeirantes.

MENSAGEM DE TOLERÂNCIA

Apesar de todo o esmero técnico, o sucesso da Paixão de Cristo talvez não fosse o mesmo se não preservasse os aspectos mais tocantes da história que conta. O texto escrito por Plínio Pacheco enfatiza a mensagem de amor e respeito ao próximo que a figura religiosa pregava, além de sublinhar que as injustiças sociais são perpetuadas por falsas noções de moral.

O espetáculo ressalta que Jesus foi vítima do ódio e da intolerância. Seu crime foi desafiar a ordem estabelecida, os privilégios das elites. A sentença foi dada por uma Justiça motivada pelo medo de que as camadas mais pobre pudessem clamar por igualdade. Pilatos não enxerga motivos para crucificar Jesus. Porém, diante da pressão dos poderosos e também de populares, lava suas mãos. Fecha os olhos.

Frente ao momento histórico pelo qual passa o Brasil, com a intolerância crescente, a perseguição e assassinato de negros, mulheres, pessoas LGBT e indígenas, essas passagens de mais de dois mil anos soam mais poderosas do que nunca, independente dos aspectos religiosos. Ao abraçar esses ideais, a Paixão de Cristo de Nova Jerusalém reforça o poder transformador e questionador da arte, mesmo aquela feita dentro do establishment.

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