CENA MANGUE

Os Jorge Cabeleira viraram lenda

Documentário sobre a banda Jorge Cabeleira e o Dia Em Que Seremos Todos Inúteis será exibido hoje no São Luiz

Nathália Pereira
Nathália Pereira
Publicado em 12/09/2016 às 8:05
Foto: Arquivo Pessoal/Divulgação
Documentário sobre a banda Jorge Cabeleira e o Dia Em Que Seremos Todos Inúteis será exibido hoje no São Luiz - FOTO: Foto: Arquivo Pessoal/Divulgação
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Entre o fim da década de 1980 e o início dos anos 1990, quando as atenções do mundo musical estavam alvoroçadas em torno do movimento grunge, o Recife renascia como estuário criativo de bandas que falavam, ao mesmo tempo, para dentro e para fora de si. A Jorge Cabeleira e o Dia Em Que Seremos Todos Inúteis foi uma delas, ao retomar a potente fusão entre o rock e elementos genuinamente nordestinos, numa alquimia experimentada anteriormente por Alceu Valença e companhia. A trajetória do grupo agora pode ser rememorada em A Lenda do Jorge Cabeleira, documentário de Eduardo Pereira que ganha exibição hoje, às 20h, no Cinema São Luiz.

As imagens usadas no filme foram extraídas de arquivos pessoais e vídeos soltos feitos ainda em VHS. São gravações de Beto Legião, Dirceu Melo, Rodrigo Coelho, Pedro Mesel e Davi Santiago Filho ainda garotos, com a empolgação natural de quem acabou de sair da adolescência ao mesmo tempo em que entrava no mainstream da música nacional. Estão lá imagens feitas em quartos de hotel, entrevistas, cenas do Abril Pro Rock de 1994. “É rock’n’roll básico, cerveja, suor e adrenalina”, resume o vocalista e guitarrista Dirceu em cena de uma conversa com um repórter à época. 

Em certo momento, Chico Science também dá as caras em uma entrevista para a MTV Brasil, reforçando que, apesar das particularidades, no fundo, estava todo mundo a fim de fazer seu som sair daqui sem deixar de ser daqui, complementando os depoimentos de Roger de Renor, Paulo André Moraes, BNegão, Bactéria, Cannibal, Gilmar Bola 8, José Teles e Marcelo Pereira, nomes que estiveram direta ou indiretamente envolvidos no que aconteceu naqueles anos.

Bastidores da gravação do primeiro disco, homônimo, pelo selo Chaos (da Sony Music), a pausa em meados de 1998 e a volta em 2001, já com Joaquim Souza Leão tocando bateria para o segundo disco (Alugam-se Casas Para o Carnaval, independente), também são relembrados.

“É estranho assistir a um filme sobre si. Acontece uma profusão de sentimentos, uma mistura de saudade e alegria, mas eu gostei pra caramba”, conta Dirceu Melo. “Éramos muito novos, não soubemos lidar tão bem com toda aquela situação. Claro que hoje, aos 40 anos, eu enxergo tudo muito diferente. Mas as coisas aconteceram do jeito que tinham que ser. Nossos princípios eram fazer música boa e se divertir, e isso nós fizemos muito bem.”

Além da exibição no São Luiz, A Lenda do Jorge Cabeleira entrará na programação do Canal Brasil a partir de dezembro, com a deixa de, quem sabe, levar a Jorge, a banda, mais uma vez ao palco. “Temos nos juntado em datas festivas e novos convites devem surgir. Vamos analisar cada um deles”, diz Dirceu.

Acaso trouxe registro inédito 

A Lenda do Jorge Cabeleira começou a se desenhar quando ainda nem havia o projeto de um documentário. Surgiu da amizade de longa data entre o diretor e roteirista, Eduardo Pereira, com a banda e também da vontade de saudar os 20 anos de estrada dos amigos. Com o aval dos protagonistas, Eduardo contou ainda com um toque de sorte do destino.

Numa casa, em Olinda, descobriu um tesouro sendo entregue ao desgaste do tempo. Mais de 200 fitas VHS guardavam imagens inéditas dos “bastidores” do movimento manguebeat, incluindo cenas e mais cenas da gravação do álbum de estreia dos Cabeleira. Esse material foi todo registrado por Jeferson Luiz, já falecido, entusiasta de toda a efervescência que tomava Pernambuco.

“Ele era o cara chato que pulava o muro pra filmar Chico Science. Hoje todo mundo entende o valor do que ele fez”, relembra Felipe Falcão, produtor do documentário.

Com a parceria e a produção de Felipe, o belo acervo que acabara de encontrar e mais algumas filmagens feitas por Dudu Carioca, ainda lá no começo dos anos 1990, o diretor tinha que o precisava pra arrematar o que queria criar, “um tributo à história da banda e uma homenagem a Davi”, como diz Eduardo. “Se não fosse o acontecido com Davi, talvez nem tivesse tido esse toque de fazer o filme”, completa ele.

Davi Lima Santiago Filho, baterista na formação original da Jorge Cabeleira, morreu em 2013, aos 37 anos, de forma trágica: vítima de um choque elétrico, depois de ter pisado num fio de alta tensão caído, no bairro de Boa Viagem, no Recife. O cara gente boa da banda merecia uma homenagem e era o amigo que a faria. “O que me convenceu a trabalhar com Eduardo foi essa decisão dele de ir na cara e na coragem, literalmente, sem apoio algum. Assim, registramos mais um pedaço dos anos 1990”, conclui Felipe Falcão.

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