prosa

Maria Valéria Rezende fala das mulheres esquecidas no Brasil colonial

Novo romance da autora, 'Carta à Rainha Louca', mostra em forma de cartas as opressões sofridas por mulheres e escravos através da personagem Isabel

Diogo Guedes
Diogo Guedes
Publicado em 27/05/2019 às 11:47
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Adriano Franco/Divulgação
Novo romance da autora, 'Carta à Rainha Louca', mostra em forma de cartas as opressões sofridas por mulheres e escravos através da personagem Isabel - FOTO: Adriano Franco/Divulgação
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Há mais de 20 anos, ao vasculhar os arquivos ultramarinos de Lisboa, a escritora paulista Maria Valéria Rezende encontrou uma carta singular datada do período colonial brasileiro. Ali ela se viu diante do texto de uma mulher que se defendia da acusação de manter, ilegalmente, uma casa para acolher mulheres em Minas Gerais no século 18. A senhora recebia no espaço, um tipo de convento clandestino, mulheres desgarradas: aquelas brancas, não escravizadas e sem marido, ou seja, sem uma “função” dentro da cruel lógica colonial.

Desde então, a autora de livros como Quarenta Dias e do premiadíssimo Outros Cantos alimentava a ideia de escrever um romance que abarcasse a história de uma dessas mulheres. Sua nova obra, Carta à Rainha Louca, publicada pela Alfaguara, traz Isabel, uma moça branca que foi vendida como escrava depois de seu pai se endividar. Fadada a trabalhar como criada da filha de um senhor de engenho, sua vida termina por atravessar as várias injustiças da vida no Brasil dominado pelos portugueses.

Mais do que uma narrativa linear ou fria, Carta à Rainha Louca é um romance poderoso porque se revela sempre através das palavras, titubeantes ou sinceras demais, de sua personagem. Não temos nenhuma outra voz que não a de Isabel durante o livro, sempre escrevendo cartas direcionadas à rainha Maria I, conhecida como a Rainha Louca, a quem são dirigidos os apelos da narradora, presa no Recolhimento da Conceição, um convento em Olinda.

Isabel escreve para a rainha porque parece argumentar que só uma mulher tida como insana pode entender e compreender outra que é vista do mesmo modo. “Que Rainha sois, mas nem por isso sois menos mulher, e sofrer e chorar é o quinhão de todas as filhas de Eva, não obstante sua condição neste mundo”, aponta.

A personagem trabalhava para Blandina, filha de um senhor de engenho, e, ali, aprendeu a ler. Mais do que a capacidade de escrita, a alfabetização lustra o senso crítico, a capacidade de questionar a normalidade que oprime os mais fracos e se disfarça de ordem ou lógica. Blandina e Isabel se perdem quando conhecem Diogo de Távora, um homem cheio de lábia. Apaixonadas, as duas acreditam nos feitos e promessas do rapaz e terminam expulsas de casa.

A trajetória de Isabel não é simples. Mesmo quando tem seus momentos de mulher livre, a personagem encara os limites claros impostos pela sociedade colonial para as mulheres. Só aos homens cabem atividades econômicas, só aos poderosos cabe a liberdade de decidir o próprio destino. Maria Valéria também faz a personagem circular, ora dramaticamente, ora didaticamente, pelos porões do Brasil de então, com o escravismo, as prisões e a moral que só vale para condenar os oprimidos.

LINGUAGEM

Carta à Rainha Louca inegavelmente compõe uma trama provocante através desse retrato de uma mulher invisível, mas bastante real. Um dos aspectos mais impressionantes do livro, no entanto, é sua linguagem, construída com um equilíbrio inesperado de arcaísmo e contemporaneidade. As longas cartas de Isabel soam como escritas por alguém do século 18, mas, ao mesmo tempo, não parecem congeladas no tempo, tanto em estilo como em conteúdo crítico.

Outro elemento fundamental dessa prosa epistolar são as censuras da própria narradora, expressas em trechos rasurados. Se é sincera em seus apelos à Rainha, contando suas desventuras, Isabel também às vezes sente que fala demais, criticando duramente o reinado, a Igreja, a escravidão e o machismo. Se fala das revoltas da população, acrescenta, em um trecho posteriormente riscado: “justas revoltas, a meu ver, estando os pobres obrigados a comer o pouco que têm sem sequer um mínimo de sabor do sal”. Suas cartas são ainda mais cruéis porque mostram, o tempo todo, a repressão e o poder internalizados mesmo naqueles que podem ver suas injustiças.

No final, Maria Valéria parece querer levantar uma questão um tanto foucaultiana: atribuir a insanidade não é também um mecanismo de desmerecer e controlar as vozes dissonantes? Isabel afirma: ”Não sei se deliro ou se melhor vejo do que nunca, Senhora!”. Entre a ficção e a história, Carta à Rainha Louca é mais sincero e lúcido do que muitos discursos que ainda hoje encontram respaldo nos poderes.

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