VIOLÊNCIA

Torcedor do Santa Cruz relata pânico vivido com filho e sobrinho após ataque da Torcida Jovem

Maurílio Marcelo foi um dos agredidos na investida de 80 membros da TO contra os corais

Diego Borges
Diego Borges
Publicado em 04/02/2020 às 15:41
Foto: Reprodução / Twitter / Maurílio Marcelo
Maurílio Marcelo foi um dos agredidos na investida de 80 membros da TO contra os corais - FOTO: Foto: Reprodução / Twitter / Maurílio Marcelo
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"Meu sobrinho ficou traumatizado e não quer mais saber de futebol." O relato do torcedor Maurílio Marcelo ao descrever a reação do sobrinho de dez anos, ambos vítimas do ataque da torcida organizada Jovem do Sport a torcedores do Santa Cruz durante a comemoração do aniversário do clube coral na última segunda-feira, é chocante para qualquer aficionado pelo futebol.

Maurílio, o filho de três anos e o sobrinho, de dez, estavam no Pátio da Santa Cruz quando cerca de 80 membros da Jovem - segundo a Polícia Militar de Pernambuco-PMPE - partiram para o ataque contra o grupo de tricolores, armados de paus, pedras e garrafas, e entoando o grito da principal torcida organizada do clube rival.

A festa até então corria de forma tranquila. Porém, exatamente às 19h14, quando crianças reeditavam a 'pelada' da fundação do clube há exatos 106 anos, a investida aconteceu. "No momento em que a Torcida Jovem invadiu, os meninos estavam jogando bola e, de repente, houve o tumulto", lembra Maurílio, que no momento se separou do sobrinho.

"O meu filho estava no meu braço e eu corri com ele para dentro do restaurante. Caí e fui pisoteado, meu filho também, e o meu sobrinho correu para o lado errado. Acabou caindo e se ferindo", completa.

Maurílio não foi o único a se machucar. Com as garrafas de cerveja, cadeiras e mesas quebradas pelo pátio, outros torcedores acabaram feridos, além dos que sofreram violência direta dos agressores, com chutes e socos. "Foi uma loucura, muita gente machucada. Foi complicado demais."

AÇÃO FUNDAMENTAL DA PM

Antes mesmo da investida, uma viatura da Polícia Militar fazia a cobertura do evento, orientando inclusive os torcedores do Santa Cruz. A partir da invasão, a ação da PMPE foi imediata, considerada pela corporação como fundamental para evitar uma tragédia ainda maior. "Isso. Se não fosse a viatura da Polícia, poderiam ter acontecido coisas bem piores", endossa Maurílio.

O pânico provocado pelo ataque demorou a passar. Aos poucos, os torcedores refugiados nos bares voltaram ao pátio, alguns tentando encontrar as crianças perdidas, assim como o sobrinho de Maurílio.

"Depois que acalmou, eu procurei ajudar as pessoas que estavam machucadas. Teve filho que se perdeu do pai, foi complicado o momento lá." E até para voltar para casa havia risco. "A gente pensava em querer sair, mas não dava. A Polícia pediu para a gente esperar, porque poderia ter torcedores da organizada por perto. Esperei duas horas para poder sair do local", afirma o torcedor.

AS MARCAS QUE FICAM

Todo aficionado por futebol sabe que a violência, independente da camisa do clube, não é um tema novo nas rodas de debates. Tanto que atravessam gerações de famílias, assim como a de Maurílio. Do avô, ao pai e ao neto, o medo adquirido a partir de atos dessa natureza acabam marcando para sempre. Traumas que ficam e interferem até mesmo no prazer de acompanhar uma partida de futebol in loco.

"Já tinha passado (por algo do tipo) em 2013, quando a própria torcida do Santa Cruz brigava entre si. Foi o último jogo em que meu pai foi a campo, num Santa Cruz e Central. Com a violência, meu pai acabou desistindo de futebol. Parou de frequentar estádio e hoje esse é o meu sentimento, porque a violência está grande. Só quem estava ontem sabe a violência que foi", aponta Maurílio, antes de relatar a experiência negativa dos garotos presentes durante a invasão.

"Meu filho tem apenas três anos, e a inocência foi tão grande que no momento ele ficou sorrindo, achando que era uma brincadeira. Já o meu sobrinho ficou traumatizado e não quer mais saber de futebol. Assistindo à televisão (um dia após o ataque), ele viu os vídeos e começou a chorar. Ficou lembrando." Uma ferida, que vai demora a sarar. "O pior é esse", concluiu o torcedor.

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