Bancos não emprestam e empresas começam a morrer

o BC deu aos bancos de aproximadamente R$ 1,2 trilhão equivalente a 16,7% do PIB brasileiro. O suporte ao crédito dado pelo BC equivale a 16,5% do PIB, mas os bancos não estão emprestando as empresas
Fernando Castilho
Publicado em 19/05/2020 às 10:20
Campos Neto foi premiado na categoria Global e Américas Foto: Foto: José Cruz/Agência Brasil


Por Fernando Castilho da Coluna JC Negócios

Embora o Banco Central tenha produzido o maior programa de retaguarda financeira ao setor bancário do mundo, assegurando garantias de liquidez equivalentes a 16,7% do PIB, os bancos brasileiros não estão emprestando o dinheiro que deixaram de guardar para irrigar a economia, preferindo aumentar suas provisões para devedores duvidosos antes mesmo que eles deem sinais de que não vão honrar seus contratos.

A consequência disso é que depois de 55 dias de anunciadas as medidas as empresas começam a demonstrar sinais de esgotamento de suas reservas, especialmente as pequenas e médias empresas que não conseguem acessar crédito, sobretudo para capital de giro, e aceleram demissões.

Um dos sinais mais evidentes de que as empresas não estão acessando crédito para continuarem ativas mesmo sem estarem funcionando é o pequeno número de trabalhadores beneficiados pelo programa de apoio para pagamento de salários.

O ministério da Economia acreditava que ao menos 10 ou 12 milhões de trabalhadores seriam atendidos pelo programa, mas apenas 1.076 milhão de trabalhadores estão recebendo parte de seus salários pagos com ajuda do Governo.

Na prática, por trás de uma super campanha de publicidade onde destacam o apoio às empresas, os quatro maiores bancos brasileiros (Itaú, Bradesco Santander e Banco do Brasil) essencialmente organizaram contabilmente seus balanços reunindo num contrato único as dividas das empresas que são seus clientes, dando prazo de seis meses para o pagamento das novas parcelas, mas sem a liberação de maiores volumes para capital de giro.

Isso é muito bom para as instituições porque elas “limpam” seus balanços com os novos contratos que só serão pagos daqui a 180 dias. Mas isso não irriga a economia. As empresas que até podem funcionar não tem como aproveitar oportunidades.

Um outro exemplo dessa pouca expressividade da ação dos bancos é a pequena quantidade de uso dos recursos colocados à disposição das empresas que faturam entre R$ 360 mil e R$ 4 milhões, que simplesmente não conseguiram acessar o crédito. No programa de R$ 30 bilhões, os bancos entraram com apenas R$ 6 bilhões.

Os sinais de que a publicidade exibida na TV não corresponde a uma atuação mais firme estão começando a aparecer através do protesto de várias entidades, entre elas o Sebrae, que identifica uma baixíssima quantidade de operações feitas pelos bancos.

O mais constrangedor desse quadro foi o silêncio do setor bancário quando numa live o ministro da Economia disse que “seis bancos exploravam 200 milhões de trouxas”. Mas também é verdade que o ministro da Economia não pressionou os bancos a emprestarem e diminuírem as garantias para ampliar as operações.

O problema é que os bancos privados e os públicos não desenvolveram estratégias proativas de ajuda às empresas. Uma simples olhada nos números de março do BC mostra que as empresas só obtiveram crédito com a antecipação de recebíveis, especialmente cartões de crédito e de duplicatas e uso de créditos pré-aprovados em contas garantidas.

Os números são de uma desproporcionalidade espetacular com aquilo que o BC liberou para que reforçassem a liquidez.

O arsenal de medidas começou com a redução do compulsório de 25% para apenas 17% (com isso os bancos deixaram de manter provisionados R$ 68 bilhões).

O BC também deu mais facilidade para renegociar dívidas de clientes. Apenas a dispensa de provisionamento para renegociação de operações de crédito, deu garantias para operações no valor de R$ 3,2 trilhões.

O BC diminuiu o requerimento de capital das operações de crédito destinadas a pequenas e médias empresas. Permite ainda reestruturar até R$ 228 bilhões em operações de crédito a empresas de pequeno e médio portes.

A lista de facilidades aos bancos incluiu a possibilidade de recomprarem suas próprias letras financeiras, obrigatoriedade de deduzir do seu capital os tributos nas operações de moeda estrangeira (hedge) e até isenção do custo que as instituições financeiras pagam ao final do dia ao BC decorrentes de problemas operacionais.

Então, quando se soma essas e mais um pacote de medidas chega-se a uma garantia que o BC deu aos bancos de aproximadamente R$ 1,2 trilhão ou como disse o presidente do BC, Roberto Campos Neto numa palestra para os empresários do setor agropecuário equivalente a 16,7% do PIB brasileiro.

Ele estimou que o total do suporte ao crédito dado pelo Banco Central equivale a 16,5% do PIB, mais de R$ 1 trilhão.

Todos esses números só constrangem ainda mais a atuação dos bancos nessa crise. Porque o que se observa é que, entre atuar para ajudar as empresas e cuidar de seus balanços, os bancos não tiveram dúvidas em cuidar de si.

E a maior prova disso foi que os quatro maiores bancos brasileiros nos seus balanços terem provisionado logo no primeiro trimestre de 2020 R$ 28 bilhões para devedores duvidosos apenas 13 dias depois da primeira morte por covid-19, ocorrida em 17 de março. Se a tendência for mantida, devem provisionar mais de R$ 100 bilhões de abril a junho. Até porque as liberações do BC garantiram essa folga de caixa.

Mesmo que, nos próximos meses, milhares de empresas que hoje são seus clientes deixem de existir. Ou como diz o ministro Paulo Guedes se transformem em CNPJ mortos.

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