SEGURANÇA VIÁRIA

Trânsito um pouco menos violento no Brasil

Houve uma queda de 7% no número de mortes em 2019, segundo dados preliminares do DataSUS, analisados pelo Observatório Nacional de Segurança Viária (ONSV) e a UFPR

Roberta Soares
Roberta Soares
Publicado em 12/11/2020 às 19:21
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FELIPE RIBEIRO/JC IMAGEM
Por medo de contágio, 82% dos brasileiros estão preferindo e optando por viagens de carro - FOTO: FELIPE RIBEIRO/JC IMAGEM
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O trânsito brasileiro está um pouco menos violento. Embora ainda mate mais de 30 mil pessoas por ano, dados preliminares da mortalidade no trânsito do DataSUS, do Ministério da Saúde, revelam que houve uma redução de 7% no número de mortes em 2019. Pernambuco, inclusive, foi o segundo Estado a apresentar o maior percentual de redução, alcançando queda de 20% e ficando atrás apenas do Rio de Janeiro, com menos 54%. As motocicletas, no entanto, seguem sendo as grandes vilãs da segurança viária: respondem por 35% das mortes, o mesmo percentual de 2018.

A comparação dos dados do DatSUS foi realizada pelo Observatório Nacional de Segurança Viária (ONSV) numa parceria técnica com a Universidade Federal do Paraná (UFPR). O Brasil passou de 32.655 óbitos no trânsito em 2018 para 30.371 em 2019. A redução no número absoluto de mortes se distribuiu por todas as regiões do País, sendo o Sudeste a região que apresentou maior redução (-12%). Na sequência, estão as regiões Nordeste (-6%), Centro-Oeste (-5%), Sul (-2%) e Norte (-1%).

A redução deve sempre ser comemorada e ela vem acontecendo, mesmo pequena, desde 2015. Há fatores externos que contribuem, como a queda da economia e a segurança veicular. Mas precisamos que essa queda seja mais acelerada, bem mais substancial. Caso esse ritmo de redução seja mantido, é possível que consigamos alcançar a meta da Segunda Década de Ação pela Segurança no Trânsito, estipulada pela ONU de 2021 a 2030, e mais uma chance de reduzir, ao menos, 50% das lesões e mortes no trânsito no mundo inteiro. Na Década anterior, de 2011 a 2020, tivemos altas nos registros até 2014, por exemplo”,
Tiago Bastos, chefe do Departamento de Transporte da UFPR

ACERVO PESSOAL
Tiago Bastos, chefe do dept de transporte da UFPR - ACERVO PESSOAL

Outro aspecto positivo revelado pelos dados foi a redução das mortes em quase todos os modos de transporte. Com destaque para os óbitos de pedestres, que reduziram 14%, assim como os de ocupantes de automóveis e motociclistas, com redução de 8% e 7%, respectivamente. Os ônibus também tiveram destaque. É o quarto ano em que o número de mortes nesse tipo de modal apresenta o melhor resultado quando comparado aos outros tipos de transporte, apesar de ter sido o único que apresentou aumento nesse número. As motocicletas e os automóveis, no entanto, seguem com a maior parcela das mortes - 60% do total, sendo 35% e 23%, respectivamente.

THIAGO LUCAS/ ARTES JC
JC-CID1113_CICLISTAS_INFOGRAFICO_impresso_Prancheta 1 - THIAGO LUCAS/ ARTES JC

“A redução deve sempre ser comemorada e ela vem acontecendo, mesmo pequena, desde 2015. Há fatores externos que contribuem, como a queda da economia e a segurança veicular. Mas precisamos que essa queda seja mais acelerada, bem mais substancial. Caso esse ritmo de redução seja mantido, é possível que consigamos alcançar a meta da Segunda Década de Ação pela Segurança no Trânsito, estipulada pela ONU de 2021 a 2030, e mais uma chance de reduzir, ao menos, 50% das lesões e mortes no trânsito no mundo inteiro. Na Década anterior, de 2011 a 2020, tivemos altas nos registros até 2014, por exemplo”, alerta Tiago Bastos, chefe do Departamento de Transporte da UFPR, que tem um acordo de cooperação técnica com ONSV.

Nossos números ainda são absurdos. Por isso é preciso uma ampla discussão sobre a necessidade de democratizar o espaço urbano, criando um ambiente em que se priorize menos o automóvel como transporte. Precisamos de cidades que priorizem outras formas de deslocamentos. Que tenha uma estrutura que preveja a falha humana e que proporcione uma mobilidade mais segura”,
Renan Soares Junior, diretor de Relações Institucionais da Associação Brasileira de Psicologia do Tráfego (ABRAPSIT)

ACERVO PESSOAL
Renan Soares Junior, especialista em psicologia do trânsito e diretor de Relações Institucionais da Associação Brasileira de Psicologia do Tráfego (ABRAPSIT) - ACERVO PESSOAL

SITUAÇÃO NOS ESTADOS
Depois do Rio de Janeiro e de Pernambuco, o Ceará foi o Estado brasileiro a ter a maior redução no número de mortes no trânsito: 14%. Por outro lado, alguns Estados viram os óbitos aumentarem em 2019: Roraima subiu 27%, Acre 16% e Amapá 12%. “Nossos números ainda são absurdos. Por isso é preciso uma ampla discussão sobre a necessidade de democratizar o espaço urbano, criando um ambiente em que se priorize menos o automóvel como transporte. Precisamos de cidades que priorizem outras formas de deslocamentos. Que tenha uma estrutura que preveja a falha humana e que proporcione uma mobilidade mais segura”, alerta Renan Soares Junior, especialista em psicologia do trânsito e diretor de Relações Institucionais da Associação Brasileira de Psicologia do Tráfego (ABRAPSIT).

ALTERAÇÃO DOS DADOS
A UFPR e o ONSV, entretanto, alertam para o fato de que os valores preliminares divulgados pelo DataSUS sejam superiores aos definitivos divulgados em alguns meses. Em 2014, por exemplo, houve uma alteração de 8,65%, representando um aumento de 3.500 mortes. Em 2015, quando feita a correção, o aumento foi de 3,61%, passando de 37.306 para 38.651. Em 2016 o valor voltou a aumentar, chegando a 7,16% de aumento, com uma variação que foi de 34.850 a 37.345 mortes. Em 2017, os números definitivos foram 3,03% mais elevados que os preliminares, e, em 2018, 1,66%.

Para os pesquisadores, a redução se deve a vários fatores, inclusive à crise econômica vivenciada pelo Brasil desde 2014. “É um conjunto de fatores. Não temos como considerá-los isoladamente. Pode ser um melhor comportamento do condutor, avanços na segurança das rodovias, cidades com um planejamento melhor para proteção de pedestres e ciclistas, até dispositivos tecnológicos exigidos para os automóveis, como os airbags de fábrica desde 2014, ano em que chegamos a ter 43.780 mortes, 30% a mais do que em 2019. E, além disso tudo, a crise econômica, é claro. O consumo de combustíveis, por exemplo, teve uma redução de 13% no ano passado”, analisa Tiago Bastos.

Reduções por modal e por Estado:
Pedestres: Rio de Janeiro (-70%) e Tocantins (-38%)
Ciclistas: Alagoas (-50%) e Pernambuco (-49%)
Motociclistas: Pernambuco (-34%) e Rio de Janeiro (-33%)
Automóveis: Alagoas e Paraíba (-44%)
Caminhões: Pernambuco (-66%) e Alagoas e Distrito Federal (-50%)
Ônibus: Ceará, Pernambuco, Piauí e Tocantins (-100%)

Aumentos no período:
Pedestres: Santa Catarina (+33%) e Bahia (+16%)
Ciclista: Santa Catarina (+61%) e Amazonas (+43%)
Motociclistas: Roraima (+25%) e Mato Grosso do Sul(+21%)
Automóveis: Roraima (+19%) e Sergipe (+10%)

(*) Os estados do Acre, Amapá, Pará, Rio Grande do Norte e Espírito Santo não foram considerados na análise porque apresentarem elevado percentual de mortes classificadas na categoria “outros”, que em geral está associada à falta da informação sobre o modo de transporte da vítima.

Citação

A redução deve sempre ser comemorada e ela vem acontecendo, mesmo pequena, desde 2015. Há fatores externos que contribuem, como a queda da economia e a segurança veicular. Mas precisamos que essa queda seja mais acelerada, bem

Tiago Bastos, chefe do Departamento de Transporte da UFPR
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Nossos números ainda são absurdos. Por isso é preciso uma ampla discussão sobre a necessidade de democratizar o espaço urbano, criando um ambiente em que se priorize menos o automóvel como transporte. Precisamos d

Renan Soares Junior, diretor de Relações Institucionais da Associação Brasileira de Psicologia do Tráfego (ABRAPSIT)

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