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Após ação violenta em ato no Recife, novo comandante da PM de Pernambuco toma posse; subcomandante também foi substituído

José Roberto de Santana substitui o coronel Vanildo Maranhão, que foi exonerado do cargo três dias após os atos de violência praticados por policiais militares durante manifestação no último sábado (29)

Bruna Oliveira
Raphael Guerra
Ana Maria Miranda
Publicado em 04/06/2021 às 12:27
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Hélia Scheppa/SEI
Posse do novo comandante da PMPE, coronel José Roberto de Santana, aconteceu nesta sexta-feira (4) - FOTO: Hélia Scheppa/SEI
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O novo comandante geral da Polícia Militar de Pernambuco, José Roberto de Santana, tomou posse oficialmente durante cerimônia realizada na manhã desta sexta-feira (4) no Salão Nobre do Quartel do Derby, na área central do Recife. Ele substituiu o coronel Vanildo Maranhão, que foi exonerado do cargo três dias após os atos de violência praticados por policiais militares contra grupo que fazia manifestação pacífica contrária ao governo Bolsonaro na capital pernambucana, no último sábado (29). O subcomandante geral também foi substituído nesta sexta-feira.

Santana exercia o cargo de diretor de Planejamento Operacional da PM. Antes, foi assistente do Comando Geral (2011/2017); ajudante de Ordens do Governador do Estado de Pernambuco (2005-2006) e chefe da Unidade de Segurança do Palácio do Governo de Pernambuco (2001-2004). O coronel tem 31 anos de serviço à polícia, "tendo sido declarado aspirante a oficial PM em 1992, pela Academia de Polícia Militar do Paudalho".

"Ao povo pernambucano eu asseguro que a Polícia Militar continuará sendo a instituição confiável que sempre foi. A Polícia Militar continuará sendo dura contra o crime e amiga do povo pernambucano, esse é o nosso compromisso", declarou José Roberto de Santana no discurso de posse. A cerimônia foi restrita, sem presença da imprensa, sob o argumento da pandemia do novo coronavírus. 

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O subcomandante da PMPE, André Cavalcante, também foi substituído. No lugar dele, assumiu o coronel Aníbal Rodrigues Lima. Até então, ele era corregedor adjunto da Corregedoria Geral da Secretaria de Defesa Social, exercendo, juntamente com o Corregedor Geral, atividades correicionais e disciplinares dentro da esfera de competência do órgão, em relação aos demais órgãos e agentes vinculados à Secretaria de Defesa Social.

De acordo com a SDS, ele tem 30 anos de efetivo serviço, tendo sido declarado aspirante a oficial PM em 18 de fevereiro de 1993, pela Academia de Polícia Militar do Paudalho. A pasta destaca ainda que ele realizou diversos cursos ao longo da carreira, "forjada na operacionalidade".

Dentro da corporação, comandou a Companhia Independente de Operações Especiais – 1ª CIOE (2011 a 2013) e o Batalhão de Polícia de Choque – BPCHOQUE (2014 a 2015), além de ter sido diretor de Ensino, Instrução e Pesquisa (2018). Concluiu o Curso de Operações Especiais (COEsp) e o Curso de Ações Contrabomba, em pelo BOPE do Rio de Janeiro. Graduou-se em Direito com especialização em Direito Público e Ciências Criminais Militares, sendo habilitado pela Ordem dos Advogados do Brasil.

Estiveram na cerimônia o governador Paulo Câmara; a vice-governadora Luciana Santos; o presidente da Assembleia Legislativa, Eriberto Medeiros; o secretário de Defesa Social, Antônio de Pádua; entre outros. A imprensa não pôde participar do evento.

O governador Paulo Câmara declarou, durante a cerimônia, que a polícia precisa ser cada vez mais humanizada: "O coronel Roberto está assumindo hoje o comando da Polícia Militar, uma instituição perto de completar 200 anos, e ele tem a missão de aperfeiçoar cada vez mais uma política pública como o Pacto Pela Vida, que exige de cada um de nós a compreensão do momento que vivemos, da necessidade de uma polícia cada vez mais cidadã, humanizada, que busque combater com rigor a criminalidade, mas que também tenha a compreensão do momento difícil que nós estamos vivendo".

Ação violenta da PMPE

O ato contra o governo de Jair Bolsonaro que aconteceu na manhã do último sábado (29) no Recife foi marcado pela ação excessiva de forças policiais, que usaram spray de pimenta e bala de borracha para dispersar a multidão. O protesto era, até então, pacífico, apesar de acontecer em descumprimento ao decreto estadual que proíbe aglomerações de pessoas devido à crise sanitária causada pela covid-19. 

O protesto contava com a presença de centrais sindicais, movimentos estudantis e sociais e representantes da sociedade civil, que denunciavam ações do presidente Jair Bolsonaro e de sua equipe, principalmente durante a pandemia da covid-19.

BRUNO CAMPOS/JC IMAGEM
Batalhão de Choque no protesto contra Bolsonaro no centro do Recife, dia 29 de maio - BRUNO CAMPOS/JC IMAGEM

Os policiais montaram uma barricada em cima da Ponte Duarte Coelho, e avançaram contra os manifestantes, que afastavam-se do confronto em direção à Rua da Aurora. Bombas de gás lacrimogênio foram lançadas contra os militantes. Durante a ação policial, dois homens, que não estavam participando do protesto e só passavam pela via, foram atingidos por balas de borracha nos olhos. Ambos ficaram cegos de um dos olhos. 

Havia cerca de dez viaturas da PM no local do protesto, além de um helicóptero da Secretaria de Defesa Social (SDS), que rondava a Avenida Conde da Boa Vista.

FELIPE RIBEIRO/JC IMAGEM
Jonas Correia e o adesivador Daniel Campelo da Silva, 51 anos, foram baleados quando passavam pela manifestação, um na Ponte Princesa Isabel e outro na Ponte Duarte Coelho, sem sequer estarem no ato - FELIPE RIBEIRO/JC IMAGEM

Investigações

Na segunda-feira (31), dois delegados foram designados pela Chefia da Polícia Civil para investigar os inquéritos instaurados em relação às agressões praticadas contra os manifestantes. Os delegados também vão conduzir as investigações dos dois trabalhadores atingidos com balas de borracha nos olhos no momento em que passavam pela ponte. Em paralelo, a Corregedoria da SDS está conduzindo um procedimento administrativo em desfavor dos PMs.

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MONITORAMENTO 

A manifestação seguia pacífica por toda a manhã do sábado. Foi pouco antes do meio-dia, quando se preparava para concluir o ato, que o grupo foi surpreendido pelos tiros de borracha do Batalhão de Choque. Naquele momento, o secretário da SDS, Antônio de Pádua, e o executivo, Humberto Freire, estavam na Centro Integrado de Comando e Controle Regional (CICCR), onde é possível acompanhar as imagens de todas as câmeras de segurança. Eles estavam lá justamente para monitorar o cumprimento do decreto estadual que proibiu o funcionamento de algumas atividades econômicas no fim de semana para conter a aceleração da covid-19.

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Jonas Correia e o adesivador Daniel Campelo da Silva, 51 anos, foram baleados quando passavam pela manifestação, um na Ponte Princesa Isabel e outro na Ponte Duarte Coelho, sem sequer estarem no ato - FOTO:FELIPE RIBEIRO/JC IMAGEM
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Repressão da polícia a um protesto no Recife, no dia 29 de maio, resultou em dois homens gravemente feridos - FOTO:BRUNO CAMPOS/JC IMAGEM

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