ATO CONTRA BOLSONARO

MPPE denuncia policial que atirou em trabalhador, que ficou cego, em protesto no Recife

Reinaldo Belmiro Lins, do Batalhão de Choque, é acusado de lesão corporal grave. Ele está afastado cautelarmente das funções, por determinação da SDS

Raphael Guerra
Raphael Guerra
Publicado em 30/11/2021 às 17:07
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GENIVAL FERNANDES/DIVULGAÇÃO
Jonas Correia de França, vítima de bala de borracha disparada pela polícia durante protesto no Recife - FOTO: GENIVAL FERNANDES/DIVULGAÇÃO
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O Ministério Público de Pernambuco (MPPE) denunciou à Justiça o terceiro sargento do Batalhão de Choque Reinaldo Belmiro Lins, acusado de disparar o tiro de elastômero (bala de borracha) que deixou cego o arrumador de contêineres Jonas Correia de França, de 29 anos, durante um protesto pacífico contra o governo do presidente Jair Bolsonaro, na área central do Recife, em 29 de maio deste ano. O policial militar foi denunciado, nesta terça-feira (30), pelo crime de lesão corporal grave, com o agravante de o crime ter sido cometido por um militar. A pena, em caso de condenação, pode chegar a cinco anos de prisão. 

"A 29ª Promotoria de Justiça Criminal da Capital remeteu hoje (30) à Vara da Auditoria Militar de Pernambuco denúncia em desfavor de Reinaldo Belmiro Lins pelas práticas de lesão corporal grave que produziu debilidade permanente de sentido (artigo 209, §1º do Código Penal Militar) combinado com o artigo 9º, inciso II-C do Código Penal Militar (crime cometido por militar em serviço contra civil)", informou nota do MPPE encaminhada à coluna Ronda JC

Inicialmente, no mês passado, a Polícia Civil de Pernambuco havia indiciado o policial por lesão corporal gravíssima e omissão de socorro

Segundo as investigações, o trabalhador estava voltando para casa, pela Ponte Santa Isabel, quando passou filmando o ato pacífico. Pouco depois, como mostram imagens analisadas pela polícia, o policial fez o disparo que acertou Jonas. Ele foi socorrido e encaminhado para o Hospital da Restauração. Passou por cirurgia, mas perdeu a visão do olho direito. 

Depois de ser identificado, em junho, o PM foi afastado das atividades cautelarmente, com recolhimento de armamento e carteira funcional, por determinação do secretário de Defesa Social, Humberto Freire. O terceiro sargento também responde a Processo Administrativo Disciplinar (PAD) na Corregedoria, correndo o risco de ser expulso da corporação.

OUTRAS INVESTIGAÇÕES

HUGO MUNIZ/DIVULGAÇÃO
A vítima passava próximo à manifestação quando acabou atingido pelo tiro de bala de borracha no olho esquerdo - HUGO MUNIZ/DIVULGAÇÃO

Além de Jonas, o adesivador Daniel Campelo, 51, também passava pela manifestação e acabou atingido e ficou cego do olho esquerdo. A SDS informou que este inquérito ainda está em andamento, "próximo da conclusão". Não foi informado se o policial envolvido na lesão da vítima foi identificado.

Durante a ação, a vereadora Liana Cirne (PT) foi atingida no rosto por spray de pimenta ao tentar negociar com policiais militares do Batalhão de Radiopatrulha, na Ponte Santa Isabel. Esta investigação foi concluída pela Polícia Civil, mas a SDS não revelou o resultado, sob a alegação de que o caso está sob segredo de Justiça.

Por causa da truculência, 16 policiais militares (três oficiais e 13 praças) foram identificados e afastados das atividades nas ruas. Todos continuam respondendo a processos administrativos e podem sofrer penalidades. Com exceção do suspeito de atirar em Jonas, os outros 15 estão prestando serviços administrativos em suas unidades de lotação. Os nomes não foram divulgados pela pasta.

Segundo a SDS, a Corregedoria Geral, por meio da Comissão Processante, finalizou três dos sete PADs. "Os três relatórios concluídos estão em análise para elaboração de parecer pelo corregedor geral. Os outros quatro estão em andamento. No âmbito da PMPE, o Inquérito Policial Militar instaurado está em fase de conclusão, com a análise de perícias e diligências complementares", informou, em nota, a pasta. 

EXONERAÇÕES

Três dias após a ação da PM, o então comandante geral da corporação, Vanildo Maranhão, foi exonerado. No seu lugar, ficou o coronel José Roberto Santana. A saída de Maranhão se deu em meio aos depoimentos que apontaram ele como o responsável por dar a ordem de ação dos policiais contra os manifestantes, mesmo com o ato ocorrendo de forma pacífica, conforme documento revelado em primeira mão pela coluna Ronda JC. Vanildo nunca veio a público dar sua versão sobre o caso. Ele foi transferido para a reserva remunerada.

Dias depois, o delegado federal Antônio de Pádua, até então secretário estadual de Defesa Social, também foi exonerado do cargo. Humberto Freire, até então secretário adjunto, assumiu a titularidade da pasta.

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