COLUNA RONDA JC

Entenda o avanço das facções criminosas no Litoral Sul de Pernambuco

Cartões-postais do Estado, como Porto de Galinhas, estão sob ameaça da criminalidade

Raphael Guerra
Raphael Guerra
Publicado em 02/04/2022 às 10:23
Bruno Campos/JC Imagem
Chegada de 250 policiais na praia de Porto de Galinhas trouxe maior sensação de segurança e rotina começou a voltar ao normal - FOTO: Bruno Campos/JC Imagem
Leitura:

A trágica morte de Heloysa Gabrielly, de 6 anos, atingida por um tiro durante ação de policiais do Batalhão de Operações Especiais (Bope) contra suspeitos de tráfico de drogas, na praia de Porto de Galinhas, na última quarta-feira (30/03), é um forte alerta para o avanço das facções criminosas em todo o Litoral Sul de Pernambuco.

Os municípios de Ipojuca - onde Porto está localizado - e do Cabo de Santo Agostinho estão, atualmente, entre os mais preocupantes e desafiadores para as forças de segurança do Estado.

Ipojuca registrou, no ano passado, 36 assassinatos. Foram 18 a menos do que no mesmo período de 2020. Apesar disso, dez mortes já foram contabilizadas no primeiro bimestre deste ano.

A maioria das vítimas era do sexo masculino e tinha entre 18 e 29 anos. Além disso, teria envolvimento com atividades criminais - a exemplo do tráfico de drogas.

Na comunidade de Salinas, onde a criança foi morta com um tiro no peito - ainda não se sabe de que arma de fogo partiu -, a facção criminosa Trem Bala é forte, articulada e até violenta quando sente a resistência de moradores em seguir as ordens.

"Recentemente invadiram a residência de um casal de idosos, que foram expulsos para que os criminosos usassem o local como ponto de tráfico", relatou um policial civil ouvido em reserva pela coluna Ronda JC.

Essa facção é uma velha conhecida da Polícia Civil de Pernambuco. Isso porque há anos, mesmo com várias operações realizadas e dezenas de integrantes presos, continua avançando pelo Litoral Sul.

E é justamente no município de Ipojuca onde a organização criminosa mais cresceu, a partir da construção de ocupações irregulares - um verdadeiro processo de favelização em áreas próximas ao centro comercial e turístico.

"Há uma tentativa da facção Trem Bala em criar um estado de poder paralelo em alguns locais de Ipojuca, por isso a necessidade da presença do Bope", afirmou o promotor criminal de Ipojuca, Rodrigo Altobello.

No poder paralelo, a que o promotor se referiu, a facção criminosa assume determinada localidade e cria as próprias regras e condutas, que devem ser seguidas por todos os cidadãos que nela habitam - sob risco de serem expulsos ou até perderem a vida. É o que ocorre em várias áreas do Sudeste do País, por exemplo.

"A situação em Porto de Galinhas é semelhante a do Rio de Janeiro. Traficantes ditam regras, sim. Inclusive no comércio", relatou um policial que acompanha investigações da Trem Bala.

O promotor de Justiça disse não ter conhecimento que o tráfico interfira na rotina dos comerciantes, mas confirmou a ligação da Trem Bala com o Primeiro Comando da Capital (PCC), maior facção criminosa do Brasil e que tem sua origem em São Paulo.

"Há uma ligação e atuação conjunta da Trem Bala com o PCC. É como se a Trem Bala fosse um braço de um mesmo corpo. Elas atuam em parceria", disse.

Avalia-se que o PCC tenha mais de 33 mil integrantes no País, segundo investigações da Polícia Federal e do Ministério Público de São Paulo em 2020.

Desde 2018, o Bope atua de forma permanente em Ipojuca - principalmente na comunidade de Salinas - para tentar barrar o avanço da facção. Há informações, no entanto, de que, no ano passado, os policiais deixaram o local. E precisaram voltar em março deste ano.

Questionado pelo JC, o secretário estadual de Defesa Social, Humberto Freire, negou.

"Não tiramos a base do Bope, em Salinas, e prosseguirá lá porque temos serviços prestados, redução de números da criminalidade em razão desse trabalho técnico e importante e nós vamos prosseguir. E não é só com o Bope não. Trabalho técnico acontece com batalhão de área, com Delegacia de Porto de Galinhas, com investigações do nosso departamento de narcotráfico. E com operações", declarou.

O promotor Rodrigo Altobello reforçou que o trabalho integrado com a polícia tem atingido resultados importantes.

"Nós temos feito diversas medidas para o combate à criminalidade em Ipojuca. Após investigações da Polícia Civil, o Ministério Público de Pernambuco requereu e o Poder Judiciário proferiu decisões que acabaram por localizar e prender o líder máximo da facção Trem Bala. Também fizemos uma operação enorme para prender outros integrantes da facção, com prisões em vários Estados e bloqueio de mais de um bilhão de reais."

FILIPE JORDÃO/JC IMAGEM
FAVELIZAÇÃO Ocupações irregulares em áreas próximas ao centro comercial de Porto não receberam a atenção necessária do poder público - FILIPE JORDÃO/JC IMAGEM

ACESSOS RESTRITOS

Além de Salinas, outras duas comunidades em Porto de Galinhas preocupam a polícia: Socó e Pantanal. Todas são próximas. Policiais contaram que, diante do avanço da facção, há ruas, inclusive, que eles não conseguem ter acesso.

"A gente trabalha para que possa levar segurança para todas as vias, todas as localidades. Não existe local em que a gente não tenha atuação policial. E a gente vai continuar sempre com técnica atuando em todos os locais de Pernambuco", disse Humberto Freire.

RECORDE DE MORTES NO CABO DE SANTO AGOSTINHO

As belas e movimentadas praias de Cabo de Santo Agostinho - como Enseada dos Corais e Calhetas - também sofrem com a violência. Diferente de Ipojuca, onde a facção Trem Bala parece atuar sozinha no município, o Cabo tem a presença de vários grupos criminosos, segundo avaliação da polícia. E isso se reflete nos números de homicídios.

Só em janeiro deste ano, 30 pessoas foram assassinadas - foi o mês mais violento em 18 anos. No mesmo período de 2021, foram dez mortes.

Os perfis das vítimas são semelhantes: 29 mortos eram do sexo masculino. Além disso, 23 tinham entre 18 e 29 anos, ou seja, seriam jovens recrutados para a criminalidade. Metade das vítimas em 2021 tinham essa mesma faixa etária.

A guerra entre os grupos pelo domínio do tráfico de drogas tem provocado o aumento dos assassinatos e a forte sensação de medo na população.

"Dos 30 homicídios, 87% foram ligados às atividades criminais. A maioria das vítimas tinha envolvimento com o tráfico de drogas ou passagem pelo sistema prisional", explicou o delegado delegado Cláudio Neto, titular da Divisão de Homicídios Metropolitana Sul, em recente entrevista à coluna.

A violência no município se acentuou na mesma época em que começou a expansão do Complexo Industrial Portuário de Suape, na década de 2010. Trabalhadores foram atraídos com a promessa de multiplicação das vagas de empregos. Ao mesmo tempo, surgiram áreas de periferias. E pouca atenção do poder público - dando espaço para que a criminalidade ganhasse raízes rapidamente.

"A violência pode ser prevenida quando o jovem está amparado sobre os seus direitos fundamentais de acesso à educação, pleno emprego e direito à cidade. Mas a população jovem se encontra vulnerável a diversas formas de violência. Esse cenário é campo fértil para que o crime organizado, por meio das facções presentes na cidade, atraia os jovens com promessas de dinheiro, status, poder", afirmou Glaubberthy Rusman, integrante do Fórum de Juventudes do Cabo (Fojuca).

MEDIDAS URGENTES

No mês passado, o Ministério Público convocou reunião com representantes da prefeitura e das forças de segurança do Estado. Houve promessas de reforço no policiamento nas ruas e também na conclusão de investigações de homicídios. Além disso, a prefeitura se comprometeu a apresentar, em breve, um plano de ação municipal de segurança pública e ações voltadas à juventude.

Comentários

Últimas notícias