Cloroquina é eficaz e segura contra o coronavírus? Sem política, uso é avaliado em estudo da OMS

Hospital Universitário Oswaldo Cruz, no Recife, é uma das 18 unidades, em 12 Estados brasileiros, que participam de pesquisa da OMS para investigar eficácia da cloroquina no combate à covid-19
Cinthya Leite
Publicado em 10/04/2020 às 11:01
Alvo de discussões políticas, cloroquina e hidroxicloroquina mostraram, em estudo experimental, que podem apresentar atividade antiviral contra a doença. Mas hoje isso não é o suficiente para garantir segurança das medicações para tratar covid-19 Foto: FREEPIK/BANCO DE IMAGENS


Cloroquina e hidroxicloroquina: dois nomes de medicamentos que passamos a ouvir diariamente desde a expansão dos casos de covid-19, que já levou ao óbito pelo menos 941 no Brasil nos últimos 25 dias. Diante dessa aceleração da curva epidêmica, muitas são as esperanças depositadas em tratamentos que possam aniquilar a ação do novo coronavírus. Alvo, inclusive, de discussões políticas, cloroquina e hidroxicloroquina mostraram, em laboratório, segundo estudo experimental francês, que podem apresentar atividade antiviral contra a doença. Mas isso não é o suficiente para garantir atualmente segurança e eficácia das medicações para tratar (nem mesmo prevenir) covid-19. É preciso avançar mais, com realização de pesquisas clínicas em humanos, o que começa a ser feito no Brasil. O Hospital Universitário Oswaldo Cruz (Huoc), no bairro de Santo Amaro, área central do Recife, é uma das 18 unidades, em 12 Estados brasileiros, que participam do ensaio clínico Solidarity, da Organização Mundial da Saúde (OMS), liderado no País pela Fiocruz.

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“Há muitas dúvidas sobre o uso dessas medicações em pacientes com covid-19. Hoje o Huoc, assim como outros hospitais, segue a recomendação do Ministério da Saúde, que é de avaliar a indicação em pacientes mais graves. Mas como são medicamentos que qualquer médico pode prescrever, há serviços que utilizam (o remédio) independentemente do que diz o ministério”, disse o chefe do setor de Infectologia do Huoc, Demetrius Montenegro, durante coletiva de imprensa online ontem sobre a atualização dos casos da doença em Pernambuco. Ele explica que o estudo do qual o hospital participa é multicêntrico, realizado em várias unidades que acompanham pessoas infectadas pelo novo coronavírus no mundo. “A ideia é acabar (com as especulações e rumores) e saber se o uso da cloroquina vai ser diferente na evolução de pacientes com sintomas leves ou mais graves de covid-19.”

A pesquisa incluirá somente pacientes hospitalizados para atender à demanda mais urgente, que é a de oferecer tratamento para os quadros mais graves. Em um primeiro momento, serão testados a cloroquina e outras medicações, como liponavir, usada por pessoas que vivem com HIV. Assim, o ensaio clínico tem quatro linhas de tratamento que pode ser adaptáveis, segundo a Fiocruz. Ou seja, durante o estudo, algum medicamento pode ser descontinuado por se mostrar ineficaz ou alguma outra opção terapêutica pode ser incorporação, caso se revele promissora.

"É preciso ter muito cuidado. Do ponto de vista científico, nada fundamenta o fato de pessoas em geral, que tenham qualquer grau de covid-19, usarem " - Demetrius Montenegro, Infectologista

A cloroquina e a hidroxicloroquina têm gerado discórdia não apenas entre médicos, mas no meio político e até mesmo entre amigos, pois o debate que envolvem ambas as medicações tem pontos de vista diferentes. “Há pessoas que defendem com unhas e dentes a utilização da medicação, independentemente do estado do paciente, se é crítico ou não. Já recebi até informações sobre o uso preventivo do medicamento para a doença. É preciso ter muito cuidado. Do ponto de vista científico, nada fundamenta o fato de pessoas em geral, que tenham qualquer grau de covid-19, usarem", alerta Demetrius. 

O infectologista reforça, inclusive, que alguns órgãos internacionais chegaram a orientar o uso da cloroquina e depois voltaram atrás da recomendação. “Foi o caso do CDC (Centro de Prevenção e Controle de Doenças dos Estados Unidos)”, acrescentou.

Cloroquina em Pernambuco

A Secretaria de Saúde de Pernambuco (SES) não consegue estimar quantos, entre os 555 casos confirmados de covid-19 até ontem no Estado, já fizeram uso da cloroquina e da hidroxicloroquina. “Sobre esse quantitativo, não temos como dizer, pois vários hospitais criaram usam, com os próprios protocolos de utilização. Mas sei de pacientes que fizeram uso das medicações e morreram, como também de casos que utilizaram e não foram a óbito. Mas o quantitativo é muito pequeno para se chegar a uma conclusão do efeito (que a cloroquina e a hidroxicloroquina têm)”, destacou o infectologista Demetrius Montenegro.

"É preciso reduzir as incertezas do tratamento com cloroquina e hidroxicloroquina, antes de ele ser recomendado amplamente " - Leandro Medeiros, coordenador do curso de farmácia da Unicap

Com base nas informações divulgadas oficialmente pela SES, na ocasião do anúncio do segundo e do terceiro óbitos em Pernambuco, sabe-se que, em ambos os pacientes, a hidroxicloroquina chegou a ser usada na tentativa de salvar as vidas. Os casos foram o canadense de 79 anos, que chegou ao Recife em 12 de março no navio de cruzeiro Silver Shadow, e um homem de 69 anos, morador do Recife, hipertenso e com histórico de viagem para Portugal e Itália. Ambos faleceram no dia 26 de março.

O farmacêutico Leandro Medeiros, coordenador do curso de farmácia da Universidade Católica de Pernambuco (Unicap), tem acompanhado os artigos científicos publicados sobre o uso da cloroquina e da hidroxicloroquina em pacientes com covid-19 e frisa que, para se ter segurança em relação ao uso das medicações para tratar a infecção causada pelo novo coronavírus, é preciso aguardar os passos da ciência. “É preciso reduzir as incertezas desse tratamento, antes de ele ser recomendado amplamente”, diz.

Sobre as pesquisas, Leandro mencionada uma das que estão no prelo, com o selo do British Medical Journal. “É o primeiro estudo clínico randomizado com a hidroxicloroquina em pacientes diagnosticados com covid-19. Tem como objetivo avaliar a eficácia e a segurança de um medicamento. Mas só 62 pacientes participaram do estudo. Isso ainda o torna pequeno e não representativo para a população geral”, explica.

O especialista acrescenta que o momento requer paciência. “Continuemos aguardando os pesquisadores fazerem seu trabalho. Parece que estamos no rumo certo para encontrarmos uma resposta para o tratamento da covid-19, que ainda é cheio de perguntas”, salienta Leandro.

O que você precisa saber:

- Cloroquina e  hidroxicloroquina são substâncias diferentes, mas que têm ações semelhantes. A hidroxicloroquina é uma droga derivada da cloroquina, e ambas estão sendo avaliadas no combate ao coronavírus

- A cloroquina é usada para malária; a hidroxicloroquina para artrite reumatoide e lúpus eritematoso. Ambas as medicações são registradas e aprovadas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para essas indicações

- A recomendação do Ministério da Saúde para uso da hidroxicloroquina e cloroquina no tratamento contra a covid-19 chama-se uso off label (fora do que está prescrito na bula do medicamento) e é uma prática usada, mas para casos muitos graves. Foi nesse sentido que o governo brasileiro liberou o uso desses medicamentos, mas apenas para decisão de cada médico sobre sua aplicação em relação a cada paciente específico

Não se deve usar cloroquina ou hidroxicloroquina para prevenir ou tratar a covid-19 sem o devido acompanhamento médico. Todo medicamento possui efeitos colaterais. A cloroquina e a hidroxicloroquina afetam o coração e podem levar à morte

- Tomar remédio por conta própria traz o risco de interação com outros medicamentos que a pessoa toma regularmente, o que pode agravar a toxicidade da cloroquina e da hidroxicloroquina

- A Sociedade Brasileira de Infectologia considera o uso da hidroxicloroquina para tratamento da covid-19 como uma “terapia de salvamento experimental”. O uso deve ser individualizado e avaliado pelo médico prescritor, preferencialmente com a participação de um infectologista, avaliando seus possíveis efeitos colaterais e eventuais benefícios

- Entre os principais efeitos adversos da hidroxicloroquina, estão discrasia sanguínea (sangue não coagula de modo adequado), distúrbios gastrintestinais (náuseas, vômitos e diarreia), fraqueza muscular, labilidade emocional (oscilação de humor), erupções cutâneas, cefaleia, visão turva, descoloração e queda do cabelo e tontura

Veja a lista dos hospitais brasileiros que participam do estudo Solidarity, da OMS

Amazonas

Hospital Delphina Aziz

Bahia

Instituto Couto Maia/SES

Ceará

Hospital São José e Doenças Infecciosas

Mato Grosso do Sul

Hospital Universitário Maria Aparecida Pedrossian

Minas Gerais

Hospital Universitário da UFMG

Pará

Hospital Universitário João de Barros Barreto-UFPA

Paraná

Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná

Pernambuco

Hospital Universitário Oswaldo Cruz da Universidade de Pernambuco

Rio de Janeiro

Hospital Universitário Antonio Pedro

Hospital Federal dos Servidores do Estado

Hospital Universitário Clementino Fraga Filho

Hospital Universitário Gaffree e Guinle

Hospital Universitário Pedro Ernesto

Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas

Rio Grande do Sul

Hospital Nossa Senhora da Conceição

Santa Catarina

Hospital Regional de São José

São Paulo

Hospital de Clínicas da Unicamp

Instituto de Infectologia Emílio Ribas

Fontes: Farmacêutico Leandro Medeiros, Fiocruz e Sociedade Brasileira de Infectologia

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