Um mês após explosões no Líbano, equipes continuam buscando sobreviventes

Até agora, 21 pessoas, a maioria delas funcionárias portuárias ou alfandegárias, foram presas por algum tipo de envolvimento no incidente
Estadão Conteúdo
Publicado em 04/09/2020 às 9:08
Beirute registrou uma grande explosão em 4 de agosto Foto: AFP


Equipes de resgate escavavam nesta quinta-feira, 3, escombros em um bairro de Beirute, capital do Líbano, em busca de sobreviventes das duas explosões que, em 4 de agosto, destruíram parte da cidade e mataram 190 pessoas. Havia uma pequena esperança: bombeiros relataram a detecção de um fraco batimento cardíaco cerca de 2 metros abaixo dos destroços. "Pode haver sobreviventes", afirmou o governador da cidade, Marwan Abboud. Sete pessoas continuam desaparecidas, segundo o exército libanês.
Um mês depois da tragédia, autoridades ainda não conseguiram determinar a causa das explosões - embora tenham ordenado a prisão de alguns dos possíveis responsáveis. Parte das vítimas ainda não se recuperou e as consequências econômicas, que devem perdurar no país, que já vivia uma crise, começaram a ser sentidas.
Até agora, 21 pessoas, a maioria delas funcionárias portuárias ou alfandegárias, foram presas por algum tipo de envolvimento no incidente. Na última segunda-feira, 31, o juiz Fadi Sawwan, responsável pelas investigações, expediu dois mandados de prisão contra o diretor de transporte marítimo do Ministério dos Transportes e um alto funcionário, informou a agência estatal de notícias National News.
Apesar das prisões, as circunstâncias exatas da explosão ainda não são totalmente conhecidas. Nenhuma evidência conclusiva foi encontrada na primeira fase dos interrogatórios, afirmou Sawwan.
Uma das linhas de investigação trabalha com a possibilidade de que o incidente tenha se originado durante a soldagem de uma porta quebrada no armazém número 12. Três trabalhadores, todos atualmente sob custódia, teriam gerado faíscas que causaram o incêndio - que, por sua vez, causou a explosão.
Documentos que surgiram após a tragédia indicam que algumas autoridades tinham conhecimento há meses de que 2.750 toneladas de nitrato de amônio estavam sendo incorretamente armazenadas em um depósito do porto.
Oficiais franceses, russos e americanos colaboram com a investigação. O caso deve ser transferido para a mais alta corte do país, e não caberá recurso.
Vítimas
A explosão deixou 190 mortos e feriu mais de 6,5 mil pessoas. Entre elas, ao menos 150 devem ficar permanentemente incapacitadas, segundo uma contagem do Ministério da Saúde do país. "O número pode ser ainda maior, mas ainda estamos no processo de vasculhar os casos em vários hospitais antes de chegar a uma contagem exata", disse Joseph al-Hilw, diretor de assistência médica do Ministério, segundo a Al Jazeera. A maioria dessas 150 pessoas teve perda de visão e/ou de membros.
Além disso, muitas pessoas enfrentam agora o transtorno de estresse pós-traumático, que deve levar muito tempo para ser superado, segundo as autoridades. O Ministério se responsabilizou pelo tratamento vitalício dos sobreviventes; no caso de refugiados, agências da ONU precisarão arcar com os custos.
Consequências econômicas
A explosão causou até US$ 4,6 bilhões em danos físicos, disse o Banco Mundial em um relatório divulgado na segunda-feira. Ela deixou quase 300 mil pessoas desabrigadas, destruiu grande parte do porto e danificou bairros inteiros.
Os setores social, de habitação e de cultura foram os mais afetados, sofrendo danos substanciais que totalizam entre US$ 1,9 bilhão e US$ 2,3 bilhões e US$ 1 bilhão e US$ 1,2 bilhão, respectivamente, acrescentou o órgão.
O Líbano está atolado na pior crise econômica e financeira de sua história moderna, com uma dívida externa girando em torno de 170% do PIB. Juntas, a crise, a pandemia e a explosão elevaram a taxa de pobreza de 28%, em 2019, para 55% em 2020.
Prevê-se que a fome piore, com mais de 50% da população sob risco de não ter acesso a alimentos básicos até o final de 2020. Entre US$ 35 e US$ 40 milhões serão necessários nos próximos três meses para atender às necessidades básicas de 90 mil pessoas afetadas pela explosão.
Para muitos libaneses,a explosão foi a tragédia que fez o copo transbordar. Alguns começaram a deixar o país, com uma empresa de pesquisa relatando um aumento de 36% nas partidas diárias de passageiros. De acordo com dados do Google, a busca no país pela palavra "imigração" atingiu seu maior pico nos últimos dez anos.
Relembre o caso
No dia 4 de agosto, duas fortes explosões atingiram a região do porto de Beirute. Registradas em vídeos que rapidamente tomaram as redes sociais, elas foram sentidas em cidades vizinhas e até no Chipre, ilha que fica a 240 quilômetros de distância. Testemunhas relataram tremor e janelas quebradas em várias partes da capital do Líbano.
O primeiro choque, segundo a TV Al-Manar, veículo oficial do Hezbollah, aconteceu pouco antes das 18 horas (12 horas em Brasília). Ele teria provocado um incêndio em um depósito de fogos de artifício. Philip Boulos, que governa a região de Beirute, disse que uma equipe de bombeiros foi enviada para conter o fogo. Alguns minutos depois, veio a segunda explosão.
De acordo com o governo, o choque mais violento aconteceu após o fogo atingir 2,7 mil toneladas de nitrato de amônio que estavam incorretamente armazenados no local.
O nitrato de amônio é um fertilizante amplamente usado na agricultura - e já esteve ligado a outras explosões no passado. O composto, por si só, é relativamente pouco explosivo, mas tem grande potencial para causar estragos.
A carga havia chegado ao Líbano em setembro de 2013 a bordo de um navio de carga de propriedade russa com uma bandeira da Moldávia e descarregada e colocada no armazém 12 do porto. (Com agências internacionais).
 
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