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Animais do Parque Dois Irmãos, no Recife, sentem falta de pessoas durante a pandemia

Veja como a pandemia mudou a rotina no zoológico do leão, da onça, dos macacos, da raposa e da águia

Maria Lígia Barros
Maria Lígia Barros
Publicado em 24/07/2020 às 19:47
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Foto: Edmar Melo/JC Imagem
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Os animais do Parque de Dois Irmãos, na Zona Norte do Recife, também tiveram uma mudança súbita de rotina com a pandemia do coronavírus. Os bichos não recebem visitantes de fora desde março, quando o zoológico fechou as portas em razão da chegada da covid-19 em Pernambuco. Sem a movimentação diária que costumava cercá-los, os moradores do parque têm sentido a falta dos humanos. Reação que é expressa nos comportamentos diferentes que as criaturas passaram a exibir neste período.

Alguns, como a onça pintada, o leão, os ursos, e alguns primatas, aparentam estar entediados por conta da alteração no ambiente. Essa é a hipótese que levanta a equipe profissional do Parque, conforme explicou o gestor técnico do local, o veterinário Márcio Silva. “Tem alguns grupos com quem a gente fez estudo de comportamento - a técnica usada para avaliar o bem estar dos animais e como eles estão adaptados”, detalhou.

A onça Pelé, de 10 anos, por exemplo, está passando mais tempo ociosa e começou a fazer algo que não fazia antes - contemplar o horizonte, quase como se estivesse esperando por algo. “Qualquer movimentação de funcionários que passam, ele fica observando”, contou.

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Olhar pessoas era algo que o felino estava acostumado a fazer. “Ele ficava afastado, olhando quem passa. As pessoas vão ao zoológico observar os animais, e eles também observam as pessoas. Uns gostam disso e parecem apresentar ”, contou.

Confira as imagens

TIÃO SIQUEIRA/JC IMAGEM
Para o leão, o habitual é estar cercado de gente - TIÃO SIQUEIRA/JC IMAGEM
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A circulação de pessoas funciona como um estímulo para vários animais do zoológico - TIÃO SIQUEIRA/JC IMAGEM
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Alguns aparentam estar entediados por conta da alteração no ambiente - TIÃO SIQUEIRA/JC IMAGEM
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A pandemia do coronavírus mudou o hábito dos animais - TIÃO SIQUEIRA/JC IMAGEM
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Não é surpreendente que o momento causa estranheza nos bichos - TIÃO SIQUEIRA/JC IMAGEM
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A reação é expressa nos comportamentos diferentes que as criaturas passaram a exibir neste período de pandemia - TIÃO SIQUEIRA/JC IMAGEM
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Os bichos não recebem visitantes de fora desde março, quando o zoológico fechou as portas em razão da chegada da covid-19 em Pernambuco - TIÃO SIQUEIRA/JC IMAGEM
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Animais tiveram uma mudança súbita de rotina com a pandemia do coronavírus - TIÃO SIQUEIRA/JC IMAGEM

Não é surpreendente que o momento causa estranheza nele e em outros bichos. Pelé foi nascido e criado em Dois Irmãos. “A mãe dele veio gestante do zoológico de Salvador. Dois meses depois que chegou, ele nasceu. Essa é a realidade que ele conhece. Tudo que ele conhece da vida se resume àquele recinto e à rotina de visitação”, afirmou.

DIVULGAÇÃO/ SEMAS/ LU ROCHA
A onça-pintada preta Pelé, do Parque de Dois Irmãos - DIVULGAÇÃO/ SEMAS/ LU ROCHA

A situação é a mesma para o astro Léo, leão de 20 anos que chegou a Dois Irmãos com apenas quatro meses, após um início de vida traumático. Em abril de 2000, em uma noite de apresentação do Circo Vostok, em Jaboatão dos Guararapes, uma criança foi arrastada para dentro das jaulas dos leões, e os animais foram sacrificados. O pequeno filhote foi o único poupado, transferido para levar uma vida nova longe dos picadeiros.

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Da mesma forma, para o leão, o habitual é estar cercado de gente. “Ele já nasceu envolto a pessoas”, falou. Era a agitação do zoológico que estimulava certos comportamentos que, depois da pandemia, se tornaram mais espaçados. “Foi uma mudança sutil, mas a gente notou que houve uma diminuição no hábito de vocalizar”, disse.

Na natureza, os leões emitem o seu rugido para marcar território. O som gutural e imponente alcança os outros animais dentro de um raio de até 8 quilômetros. É a presença de outros felinos e o ruído dos demais bichos que os propele a rugir. Dentro do zoológico, esse estímulo vem do público.

“Quando ele rugia, as pessoas respondiam - gritavam, corriam. Depois ele rugia de novo, e isso traz um benefício, estimula um comportamento natural do animal. Hoje, ele ruge, mas não tem resposta”, comentou.

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O leão Léo, do Parque de Dois Irmãos - DIVULGAÇÃO/ SEMAS/ LU ROCHA

O fenômeno não é exclusivo para o rei da floresta. A circulação de pessoas funciona como um estímulo para vários animais do zoológico. “Uma pesquisadora da UFRPE (Universidade Federal Rural de Pernambuco) fez um estudo com primatas, antes mesmo da pandemia, e viu que, para a maioria deles, o público não era um fator estressante. Pelo contrário, eles ficavam muito mais estressados quando não havia gente”, revelou.

Um desses macacos é o bugio, mais uma espécie conhecida pela vocalização. Entre outras funções, o bando grita para se comunicar entre si e com demais grupos, mas a frequência dos sons diminuiu depois que o público se afastou.

Para mantê-los entretidos, não só agora mas durante toda operação do espaço, os técnicos usam métodos de enriquecimento ambiental. “Essa é uma técnica que serve para dar ao animal a oportunidade de, mesmo sendo um ambiente artificial, expressar comportamentos que fariam na natureza”, definiu o especialista.

“Se for um animal que caça, a gente dá a oportunidade de caçar mesmo sem usar presa viva. Para os pequenos felinos, a gente esconde a comida para ele ter que procurar, para o chimpanzé, que é um animal que usa ferramentas, a gente dá pedras para quebrar coquinhos, gravetinhos para cutucar”, exemplificou.

Embora as estratégias já fossem empregadas, a frequência da prática foi alterada em alguns casos. O hipopótamo Pota come em um local diferente todos os dias. “Ele é um animal que tem o hábito de sair da água e pastar. Então a gente oferece o alimento espalhado no chão”.

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Ricardo Labastier/ Arquivo JC Imagem
A hipopótamo Pota, do Parque de Dois Irmãos - Ricardo Labastier/ Arquivo JC Imagem

Para outros bichos, a paz

Se para os mais sociáveis a calmaria pode ser ociosa, para outros, é momento de tranquilidade. O chimpanzé Sena, de 63 anos, é um indivíduo mais introvertido e se beneficiou da situação. O veterinário observou que, nos últimos meses, sem a presença de tantos desconhecidos, Sena, que é o morador mais antigo, tem se aproximado e aproveitado melhor a área de exibição, que não usava tanto.

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Os chimpanzés normalmente não parecem se incomodar com a agitação, mas Sena, que veio do circo, há cerca de 40 anos, tem um histórico triste. “A experiência não deve ter sido muito agradável para ele. Principalmente naquela época, as técnicas de treinamento que eles usavam não eram agradáveis. Talvez o barulho das pessoas remeta ao barulho do circo”, especula.

JC IMAGEM
O chimpanzé Sena, do Parque Dois Irmãos - JC IMAGEM

As duas raposinhas também estão menos tímidas. Criaturas de hábito noturno, passavam o dia dormindo enquanto o zoológico estava aberto para visitação. “Elas costumavam mostrar alguma atividade por volta das 17h, quando começava a fechar. Agora, com menos barulho, elas se sente confortáveis de acordar um pouco mais cedo, e já estão ativas por volta das 16h. Às vezes até tomam banho de sol.”

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Maior ave de rapina da reserva, o gavião real é está explorando mais o recinto, alçando voos mais baixos. “Isso nem é tão comum. Ela é um espécie que vive no alto de árvores.”

Reabertura

O Parque Dois Irmãos, que é administrado pela Secretaria de Meio Ambiente e Sustentabilidade (Semas) de Pernambuco, ainda não sabe quando reabrirá para visitação. Nessa semana, a equipe entregou ao Governo do Estado um plano de ação para a convivência com a covid-19.

“A gente precisa fazer algumas adequações para receber o público. Estamos nos organizando e o Governo está correndo atrás de viabilizar essas questões”, mencionou Márcio, que participou da elaboração do documento.

As medidas incluem a distribuição do álcool em gel para o público e a adaptação do espaço para garantir o distanciamento social.

Nos últimos 4 meses, os profissionais têm trabalhado em escala. Os que podem exercer suas atividade de maneira remota estão de home office, mas os técnicos seguem presencialmente, para atender os habitantes da reserva. Márcio garante que eles estão ótimos, e que, inclusive, a família cresceu: nesse tempo, nasceram filhotes de arara azul e de cágado.

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