CASO MIGUEL

'Querem transformar meu filho em demônio e Sarí em santa', diz Mirtes, mãe de Miguel

Mirtes afirmou que a defesa de Sarí Côrte Real, acusada no processo, está tentando colocar sobre seu filho a culpa pela queda que o levou à morte, aos 5 anos

Amanda Azevedo
Amanda Azevedo
Publicado em 03/12/2020 às 23:03
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PAULO DANIEL/JC IMAGEM
Mirtes participou de entrevista coletiva após primeira audiência do caso - FOTO: PAULO DANIEL/JC IMAGEM
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Ao comentar a primeira audiência de instrução e julgamento do caso Miguel Otávio Santana da Silva, ocorrida nesta quinta-feira (3), a mãe do menino, Mirtes Renata Santana de Souza, afirmou que a defesa de Sarí Côrte Real, acusada no processo, está tentando colocar sobre seu filho a culpa pela queda que o levou à morte, aos 5 anos, no dia 2 de junho, em um prédio em São José, Centro do Recife.

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"Querem transformar meu filho em um demônio e Sarí em uma santa. É muito fácil fazer isso com quem já está sob sete palmos de terra. Miguel era apenas uma criança, era educado, caridoso, cheio de saúde, de vida, de sonhos para realizar", disse Mirtes em coletiva de imprensa na sede do Gabinete de Assessoria Jurídica às Organizações Populares (Gajop), na Boa Vista, área central do Recife.

O advogado de Mirtes, Rodrigo Almendra, afirmou que a defesa de Sarí quer mostrá-la como uma "pessoa psicologicamente incapaz de antecipar o mal que poderia causar a uma criança ao deixá-la no elevador".

"Há um processo de infantilização da acusada, narrada como psicologicamente incapaz de antecipar o mal que poderia causar a uma criança ao deixá-la em um elevador. Ao mesmo tempo, há um processo de 'adultização' de Miguel, ao tentarem transformá-lo, embora tivesse 5 anos, em um jovem, danado, travesso, que nessa condição seria capaz de se autogerir, autodeterminar. O que me parece negar à criança o direito de ser criança e de agir como criança", disse o advogado.

A mãe de Miguel disse ainda que pôde confirmar, na audiência, que houve racismo no tratamento que a ex-patroa dispensou a seu filho. "Ficou explícito. Só porque Miguel era filho da empregada, negro, não poderia ter direito ao cuidado. Sarí não poderia cuidar. Ele não teria o direito de ser criança, de ser protegido. Isso ficou bem claro na audiência", afirmou Mirtes.

"Vou defender meu filho até o fim. Vou provar que ele merecia, sim, proteção, como qualquer outra criança", acrescentou.

Audiência de instrução do caso Miguel

Com quase oito horas de duração, a audiência de instrução e julgamento relacionada à morte do menino Miguel chegou ao fim, no final da tarde desta quinta-feira (03), sem o interrogatório da ré, Sarí Corte Real. Uma testemunha de defesa faltou à audiência porque estava viajando. Por causa disso, uma nova data será marcada pela Justiça para que a ouvida ocorra. Só então, neste mesmo dia, haverá o interrogatório da ex-patroa da mãe de Miguel.

YACY RIBEIRO/ JC IMAGEM
CASO MIGUEL - Primeira Audiência de Instrução e julgamento de Sarí Corte Real - YACY RIBEIRO/ JC IMAGEM
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CASO MIGUEL - Primeira Audiência de Instrução e julgamento de Sarí Corte Real - YACY RIBEIRO/ JC IMAGEM
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ATO Antes da audiência, que durou oito horas, grupo pediu justiça em frente à 1ª Vara de Crimes contra a Criança - YACY RIBEIRO/ JC IMAGEM
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CASO MIGUEL - Primeira Audiência de Instrução e julgamento de Sarí Corte Real - YACY RIBEIRO/ JC IMAGEM
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CASO MIGUEL - Primeira Audiência de Instrução e julgamento de Sarí Corte Real - YACY RIBEIRO/ JC IMAGEM
DAY SANTOS/JC IMAGEM
Caso Miguel Audiência Sari. - DAY SANTOS/JC IMAGEM
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Caso Miguel Audiência Sari. - DAY SANTOS/JC IMAGEM

No total, 12 testemunhas (oito de acusação e quatro de defesa) prestaram depoimento na na 1ª Vara de Crimes contra a Criança e o Adolescente da Capital, na área central do Recife. A audiência, que começou por volta das 9h30, foi conduzida pelo juiz José Renato Bizerra. A imprensa não teve acesso ao local. Na rua, também estavam familiares de Miguel e houve um ato pacífico. Com cartazes, um grupo lembrava: “Vidas negras importam”. “Quero justiça pelo meu filho. Só isso que peço”, disse o pai do menino, Paulo Inocêncio. Ele não pode acompanhar a audiência para evitar aglomeração no local.

Relembre o caso

Miguel morreu na tarde de 02 de junho deste ano. Na ocasião, Sarí estava responsável pela vigilância do menino, enquanto a mãe dele passeava com o cachorro da patroa.

A perícia realizada pelo Instituto de Criminalística no edifício constatou, por meio de imagens, que Sarí apertou o botão da cobertura, antes de deixar a criança sozinha no elevador. Ao sair do equipamento, no nono andar, o menino passa por uma porta corta-fogo, que dá acesso a um corredor. No local, ele escala uma janela de 1,20 m de altura e chega a uma área onde ficam os condensadores de ar. É desse local que Miguel cai, de uma altura de 35 metros.

REPRODUÇÃO/TWITTER
Mirtes Renata, mãe de Miguel, era empregada doméstica de Sarí Corte Real, primeira-dama de Tamandaré - REPRODUÇÃO/TWITTER

Sarí Corte Real, ex-patroa da mãe de Miguel, é esposa do prefeito de Tamandaré, Sérgio hacker (PSB). Na época do caso, Mirtes e a avó de Miguel trabalhavam na casa do prefeito, mas recebiam como funcionárias da prefeitura. A informação foi revelada pelo Jornal do Commercio.

Após a denúncia, MPPE instaurou uma investigação, descobriu que outra empregada doméstica da família também era funcionária fantasma da prefeitura, e a Justiça determinou o bloqueio parcial dos bens de Hacker. O MPPE descobriu ainda que a mãe e a avó de Miguel ganhavam até gratificação por produtividade, mesmo sem trabalharem na prefeitura, como revelou um documento obtido pela coluna Ronda JC.

A assessoria do MPPE disse que o caso segue sob investigação e que os promotores responsáveis por enquanto não vão comentar o processo.

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