URBANISMO

Como a Via Mangue foi de grande promessa para a mobilidade do Recife a sinônimo de abandono

Obra avaliada em R$ 431 milhões acumula problemas como furto de gradis e assaltos

Katarina Moraes
Katarina Moraes
Publicado em 07/04/2021 às 7:00
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FELIPE RIBEIRO/JC IMAGEM
VANDALISMO Desde que foi aberta à passagem de veículos, em 2016, a via é alvo de furtos das grades de metal, inclusive em plena luz do dia - FOTO: FELIPE RIBEIRO/JC IMAGEM
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Uma das maiores promessas do poder público para a mobilidade do Recife da última década é refletida, hoje, cinco anos após sua inauguração, em uma palavra: insegurança. O adjetivo caminha pela Via Mangue desde os problemas estruturais - que põem em risco a vida de ciclistas e pedestres - até à falta de policiamento - que faz com que a pista, ligação entre o Centro e a Zona Sul da capital pernambucana, seja evitada até mesmo pelos carros de passeio, maiores beneficiados pela sua construção. Além de tudo isso, ainda há o clássico problema do roubo dos gradis, que têm como principal função dar visualização aos veículos que trafegam em sentido oposto nas pistas.

A obra avaliada em R$ 431 milhões - R$ 81 milhões da prefeitura, R$ 331 milhões por empréstimo e R$ 19 milhões da União - foi uma das 19 planejadas em Pernambuco para ser entregue até a Copa do Mundo no Brasil; mas, em 2014, havia sido apenas parcialmente finalizada. Só em janeiro de 2016, a fita vermelha foi de fato cortada, em cerimônia com direito à presença da então presidente do país, Dilma Rousseff (PT). No entanto, a atual via expressa de 4,5km de extensão em cada sentido já havia sido sonhada muito antes pelo prefeito Roberto Magalhães, que a denominou como ‘Linha Verde’ no final da década de 90.

A Prefeitura do Recife afirmou que, atualmente, são 88 mil veículos circulando em direção à Zona Sul e, desses, 38% utilizam a Via Mangue. Já em direção ao Centro, são pelo menos 66,5 mil veículos por dia e, desses, 54% utilizam a Via Mangue. Mesmo assim, assim como em outras avenidas da cidade, motoristas enfrentam engarrafamento no atalho nos horários de pico semanais.

Para a doutora em Transportes pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) Jéssica Lima, isso acontece porque a via é, desde sua concepção, um erro. Ela argumenta que um dos princípios da teoria do transporte é que é ineficaz combater o congestionamento a partir da construção de novas vias. “Aumentar a estrutura viária é um tiro no pé. Estima-se que em 5 ou 10 anos as novas vias já vão estar saturadas, e é o que acontece hoje com a Via Mangue. Com esse dinheiro, deveria ter sido concluído o sistema do BRT, que nunca funcionou porque os ônibus ficam presos no congestionamento, minando toda a funcionalidade do sistema”, diz.

Desde a entrega do corredor viário, o furto das grades de metal é denunciado pelo JC e mesmo o monitoramento da via por câmeras de segurança parece não resolver a questão. Na última semana, a reportagem observou a falta do material em diversos pontos dela. Segundo a Autarquia de Manutenção e Limpeza Urbana do Recife (Emlurb), o orçamento mais atual para a reposição e conserto das estruturas depredadas na Via Mangue é de cerca de R$ 450 mil. A pasta também contou que, em outubro de 2020, a Delegacia do Cabo de Santo Agostinho apreendeu e devolveu 28 peças do gradil e mais sete retalhos do material. Ações similares de furto e depredação contra a cidade do Recife geram um prejuízo anual de cerca de R$ 2 milhões anuais, de acordo com a prefeitura.

A Guarda Civil Municipal do Recife (GCMR) informou que conta com duas câmeras na Via Mangue, monitoradas 24h, na Central de Operações, e que recebe demandas através do seu canal de atendimento, no número 153, para ocorrências relacionadas à segurança patrimonial de equipamentos públicos da cidade. Além disso, a CTTU tem 4 câmeras para fiscalização de trânsito e diz disponibilizar as imagens para os órgãos que solicitarem.

Já a Secretaria de Defesa Social (SDS) alegou que, com base de dados criminais do Sistema Infopol, do Estado de Pernambuco, só houve uma notificação de crimes de furto na Via Mangue nos primeiros dois meses de 2021. A pasta explicou também que, em geral, esse tipo de delito tem a "motivação de revenda para ferros-velhos em troca de baixos valores para alimentar a dependência química". A Polícia Civil de Pernambuco disse ter feito, ao longo de 2020 e 2021, uma série de operações para desativar ferros-velhos ilegais e que comercializavam materiais roubados ou furtados.

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Os gradis que serão adquiridos após a licitação deverão ser do mesmo material dos que já estão na via - FELIPE RIBEIRO/JC IMAGEM
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RISCO Especialista em transporte diz que colocar uma ciclovia ao lado do acostamento requer cuidado para que veículo não atinja ciclistas - FELIPE RIBEIRO/JC IMAGEM
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Vale lembrar que a Via Mangue foi um corredor que levou mais de dez anos sendo pensado e implantado. Custou R$ 500 milhões, quando considerados os aditivos de contrato - FELIPE RIBEIRO/JC IMAGEM
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Nos últimos meses, a Emlurb recebeu as peças que foram localizadas pela Polícia Militar e pela Guarda Municipal, ou simplesmente encontradas em outros locais por terceiros e devolvidas à autarquia - FELIPE RIBEIRO/JC IMAGEM
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As peças recuperadas e repostas totalizam 120 telas (gradis) e 58 montantes (estruturas de base para as telas) - FELIPE RIBEIRO/JC IMAGEM
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Vandalismo e roubos na Via Mangue - FELIPE RIBEIRO/JC IMAGEM
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Vandalismo e roubos na Via Mangue - FELIPE RIBEIRO/JC IMAGEM
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CRIMINALIDADE Furtos de materiais que compõem a Via Mangue são frequentes desde a inauguração - FELIPE RIBEIRO/JC IMAGEM
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Vandalismo e roubos na Via Mangue - FELIPE RIBEIRO/JC IMAGEM
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A Autarquia de Manutenção e Limpeza Urbana (Emlurb) já iniciou a reinstalação dos gradis que foram recuperados pelo órgão - FELIPE RIBEIRO/JC IMAGEM
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Vandalismo e roubos na Via Mangue - FELIPE RIBEIRO/JC IMAGEM
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Vandalismo e roubos na Via Mangue - FELIPE RIBEIRO/JC IMAGEM
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Vandalismo e roubos na Via Mangue - FELIPE RIBEIRO/JC IMAGEM
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MONITORAMENTO Polícia diz que furtos precisam ser denunciados para que haja reforço na segurança. Há 2 câmeras da Guarda Municipal no local - FELIPE RIBEIRO/JC IMAGEM
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Vandalismo e roubos na Via Mangue - FELIPE RIBEIRO/JC IMAGEM
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VANDALISMO Desde que foi aberta à passagem de veículos, em 2016, a via é alvo de furtos das grades de metal, inclusive em plena luz do dia - FELIPE RIBEIRO/JC IMAGEM
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Vandalismo e roubos na Via Mangue - FELIPE RIBEIRO/JC IMAGEM

Segundo o presidente do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia de Pernambuco (CREA-PE), Adriano Lucena, é necessário que os poderes, municipal, estadual e federal, fortaleçam a cultura de cuidar das construções civis que já existem, ao invés de criar novas. "A gente precisa ter uma cultura de manutenção, tanto para as obras públicas, quanto para as privadas. Temos o costume de fazer isso com os nossos veículos, por exemplo, mas não temos em relação às obras. O custo muitas vezes não é previsto nos orçamentos das cidades".

Na contramão, a Emlurb respondeu que, de 2019 até agora, foram realizadas melhorias de Urbanização no entorno da via expressa com obras de drenagem, pavimentação e construção de calçadas nas ruas Adônis de Souza e Paulo Mafra. A Autarquia destaca ainda a construção de alça de ligação entre as avenidas República do Líbano e Dirceu Velloso Toscano de Brito. Além disso, explica que realizou em 2020 a recuperação das juntas de dilatação da estrutura do viaduto da Via Mangue. Por fim, diz capinar semestralmente a vegetação no local, e que fará ainda essa semana uma vistoria para programar uma ação de poda nos trechos onde a vegetação esteja invadindo as faixas de rolamento.

A doutora Jéssica Lima aponta que uma outra questão a ser reparada na Via Mangue é a utilização rotineira da faixa de acostamento pelos veículos, feita pela gestão municipal para garantir a segurança caso o motorista precisasse parar o carro, já que é uma via expressa, com velocidade regulamentada em 60km/h e composta por duas pistas e sem semáforos. “Tem uma ciclovia ao lado, e quando, o tráfego é aproximado do ciclista, podem acontecer acidentes. Algo projetado para ser o acostamento não deveria ser usado, porque é uma faixa de segurança para caso algum veículo quebre, por exemplo. Então, quando se usa como faixa, acaba com essa possibilidade."

Assaltos também são frequentes no local. A assistente administrativa Emanuele Barros, de 30 anos, mora e trabalha perto da Via Mangue e evita trafegar por ela por relatos de violência contra amigos. “Não me sinto segura passando por ela, porque não tem muita iluminação e nem sempre está movimentada. A segurança é zero. Tenho colegas que já foram assaltados lá, e por medo disso não vou muito [na via]. Fico com medo até de levar minha filha para caminhar, principalmente agora que estou grávida”, relatou.

Uma das vítimas de violência na Via Mangue foi a advogada Camila Wanderley, de 24 anos. “Estava tudo parado, engarrafado, quando um falso vendedor de pipoca bateu no meu vidro e estava com uma arma. Ele levou tudo, celular, jóias e dinheiro.” Após ter sido assaltada, ela preferiu dirigir por outras vias, por medo de novas abordagens. “Se for à noite, quando não tem mais trânsito intenso, me sinto segura, porque não preciso parar. Mas quando está engarrafada me sinto completamente insegura, porque não tem como fugir, você fica presa”, alega.

Por nota, a SDS informou que policiais em Guarnições Táticas e em motocicletas patrulham na Via Mangue e contam com o reforço do Grupo de Apoio Tático Itinerante (Gati) e que, nos dois primeiros meses do ano, foi registrado uma queda de -14,85% nos Crimes Violentos contra o Patrimônio na área que atua o 19º BPM, responsável pelo bairro de Boa Viagem. Ainda, avisou que para que a segurança seja mais efetiva, é fundamental que a população denuncie a ação de bandidos, seja por meio do 190 ou procurando uma delegacia mais próxima.

Na pista leste, foi implantada uma ciclovia de quatro quilômetros de extensão com o intuito de formar uma rede ciclável de sete quilômetros formada pela ciclofaixas e ciclovias da Rua Antônio Falcão, Jardim Beira Rio e do entorno do shopping RioMar. Em análise de 2016, a Associação Metropolitana de Ciclistas do Grande Recife (Ameciclo) avaliou a faixa exclusiva para bicicletas na Via Mangue com a melhor infraestrutura de todas do Recife, com 12 dos 17 itens avaliados com nota 10 e apenas 2 notas zero. Uma outra pesquisa foi feita em 2021, mas ainda não foi divulgada.

Para Daniel Valença, articulador da Ameciclo, o grande problema é que a Via Mangue e a ciclovia não estão inclusas no tecido urbano da cidade e possuem poucos pontos de acesso. “Você vai por caminhos muito isolados por muito tempo, ela não está dentro do circuito urbano, tem um acesso muito difícil de encontrar e muito ruim de fazer. Ela também tem situações de risco muito graves, porque tem entradas muito abertas, e prioridade é dada para o motorista. Além disso, algumas saídas para área do Pina e de Boa Viagem que são muito perigosas para quem pedala”, explicou.

A Prefeitura do Recife avalia a construção da Via Mangue como eficaz para reduzir engarrafamentos em avenidas como a Conselheiro Aguiar e Domingos Ferreira, e que trouxe benefícios para os usuários de transporte público em direção à Zona Sul da cidade, ao receber a Faixa Azul das avenidas Herculano Bandeira e Domingos Ferreira, que tem 6 km de extensão e possibilitou um aumento de 118% na velocidade dos transportes coletivos, além da Faixa Azul na Avenida Conselheiro Aguiar, que possibilitou o ganho de velocidade de 49%

O CREA-PE informou ao JC que irá implementar a sugestão feita pela reportagem e convidar o governo para fazer inspeções na Via Mangue junto a técnicos do conselho, para identificar os problemas e propor soluções. "Vamos criar a inspeção, fazer vistorias e dar a resposta à população, não só de uma via, como da questão da navegabilidade do Rio Capibaribe, por exemplo, e nas barragens no interior", disse Adriano Lucena.

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