HABITAÇÃO

CHUVAS EM PERNAMBUCO: famílias do Jardim Monte Verde aguardam habitacional há 22 anos, quando houve outro deslizamento de terra

Desafio para sanar déficit habitacional na área agora deve aumentar - visto que várias casas foram destruídas em novos desastres que aconteceram nessa semana

Katarina Moraes
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Katarina Moraes
Publicado em 30/05/2022 às 17:01 | Atualizado em 30/05/2022 às 17:45
Welington Lima/TV Jornal
Sobreviventes que perderam as casas devem se somar ao déficit habitacional de Pernambuco, já superior a 326 mil unidades - FOTO: Welington Lima/TV Jornal
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Há 22 anos, cerca de 120 famílias afetadas por um deslizamento de barreira que aconteceu nos anos 2000 no Jardim Monte Verde, na parte recifense do Ibura, ainda aguardam a construção de um conjunto habitacional então prometido pela Prefeitura do Recife. Agora, o desafio deve aumentar - visto que várias casas foram destruídas em novos desastres que aconteceram nessa semana, e que somaram mais de 20 mortes só na comunidade.

Em 2016, o assunto foi pauta na Comissão de Cidadania da Assembleia Legislativa do Estado de Pernambuco (Alepe). À época, uma das pessoas que aguardava a construção, a moradora Ezanilza Maria da Silva, cobrou uma ação do poder público. “Em 2000, afirmaram que esse processo demoraria de 6 meses a 1 ano, mas ainda estamos sem nossas casas”, criticou ela, que recebia R$ 200 de auxílio-moradia para pagar um aluguel de R$ 450.

Na Alepe, o secretário municipal de Habitação da Prefeitura do Recife, Carlos Fernando Ferreira Filho, justificou que a prefeitura não tinha uma solução para o caso, porque cada casa custaria, em média, R$ 100 mil para ser construída, e que muitos projetos habitacionais estavam travados diante da suspensão da terceira etapa do Minha Casa Minha Vida, programa do Governo Federal agora extinto.

O presidente da comissão era o deputado Edilson Silva (PCdoB), agora lotado no Governo do Estado. Participaram da discussão os deputados Adalto Santos (PSB), Eduíno Brito (PP) e Pastor Cleiton Collins (PP).

O deslizamento em questão aconteceu sob a gestão de Roberto Magalhães (1997-2000), mas a promessa seguiu engavetada pelos prefeitos seguintes: João Paulo (2001-2008), João da Costa (2009-2012), Geraldo Júlio (2013-2020).

O desempregado Edmilson José Oliveira, morador do Ibura desde que nasceu, lembra do caso. “Estavam todos dormindo quando aconteceu, foi pela madrugada, a barreira caiu por cima de todos. O socorro pelos Bombeiros foi imediato, mas morreu muita gente”, disse.

De lá para cá, outros deslizamentos com vítimas foram registrados no Jardim Monte Verde - tanto na parte que fica no Recife, quanto na que fica em Jaboatão dos Guararapes - em 2002, 2007, 2021 e, recentemente, nesse sábado (28), evidenciando que os desastres na região não se tratam de um caso isolado.

Muitos dos sobreviventes tiveram as residências destruídas na comunidade, como o caso do motoboy Elivan José, 46, e da dona de casa Juliana Lúcia, 38 anos, casal que teve a casa invadida pela barreira. “Acabou minha casa, tenho que reconstruir. Era pobre, mas era arrumada. Agora perdemos tudo", disse ele.

KATARINA MORAES/JC
Foi eu correndo, e as coisas vindo atrás de mim. Quando encostei na parede, a terra parou de vir. Foi Deus", relembra a dona de casa Juliana Lúcia, 38 anos, em frente à casa destruída pela barreira e de onde se salvou com filho e marido - KATARINA MORAES/JC

Agora, eles devem se somar ao déficit habitacional de Pernambuco, já superior a 326 mil unidades, segundo levantamento da Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias (Abrainc) junto à Ecconit Consultoria Econômica, e de 71 mil moradias no Recife, segundo dado da Prefeitura de 2019.

Enquanto isso, reportagem do JC de maio deste ano mostrou que a capital pernambucana tem em construção atualmente cinco habitacionais - todas as obras herdadas de gestões passadas e que, após um ano da nova gestão, ainda não foram concluídas. Ainda, que nenhuma nova obra de habitação foi anunciada.

A problemática preocupa a diretora Executiva Nacional da Habitat para a Humanidade Brasil, Socorro Leite, que apontou a necessidade de criação de políticas de moradia em Pernambuco que afastem as pessoas de pontos de risco ou o risco das pessoas.

“Existem casos em que, com obras, as pessoas não precisam ser removidas, em que a contenção de uma encosta pode evitar um risco a um conjunto de famílias. Em outros pontos, nem a obra asseguraria. então teria que buscar um outro local de moradia para as famílias. Em todo caso, o monitoramento é fundamental”, afirmou a especialista.

A reportagem do JC entrou em contato com a Prefeitura do Recife, e atualizará esta matéria quando receber uma resposta.

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