URBANISMO

CHUVAS EM PERNAMBUCO: falta de infraestrutura contribui para deslizamentos de barreira no Grande Recife, apontam especialistas

Desastres recorrentes poderiam ser evitados com políticas públicas em infraestrutura nas cidades, desde cobertura de saneamento básico, até redução do déficit habitacional e controle urbano

Katarina Moraes
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Katarina Moraes
Publicado em 30/05/2022 às 18:32
DIEGO NIGRO / AFP
Jardim Monte Verde, no limite entre os municípios do Recife e de Jaboatão dos Guararapes, foi cenário da maior tragédia provocada pela chuva em Pernambuco - FOTO: DIEGO NIGRO / AFP
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Até esta segunda-feira (30), foram confirmadas pelo menos 91 vítimas das chuvas em Pernambuco - a maioria por deslizamentos de barreiras. Especialistas apontam que os desastres, que se repetem ano após ano durante o inverno no Grande Recife, poderiam ser evitados com políticas públicas em infraestrutura nas cidades, desde cobertura de saneamento básico, até redução do déficit habitacional e controle urbano que impeça a ocupação de áreas de risco.

Pesquisa divulgada neste ano pelo Instituto Trata Brasil mostra que Recife e Jaboatão estão entre as 20 piores cidades no ranking do serviço de saneamento básico das 100 maiores cidades brasileiras, em 18º e 13º lugar, respectivamente. Em Pernambuco, apenas 30,8% da população tem acesso a esgoto e 81,7% a água tratada.

Para o geólogo e professor de Engenharia Ambiental Fábio Pedrosa, o dado se relaciona com a queda das encostas “de todas as formas possíveis”. “Na periferia, onde há condições precárias de habitação, a água utilizada nas casas vai para o morro, porque não há coleta de esgoto. As pessoas constroem fossas sem o mínimo de orientação técnica, fazendo com que as águas se juntem às das chuvas e favoreçam os deslizamentos.”

Além disso, ele aponta como fatores contribuintes para o caos observado na Região Metropolitana durante as chuvas os vazamentos em tubulações de esgoto irregulares, lixo jogado nas encostas e drenagem ineficiente. “São cidades muito baixas, então a drenagem precisa ser uma prioridade urbana. Mesmo no verão, há ruas do Recife que ficam alagadas com a maré alta”, disse.

No Jardim Monte Verde, situado na divisa entre Jaboatão dos Guararapes e Recife, localidade com mais mortes na última semana, a falta de infraestrutura é clara. O local é tomado por construções irregulares, à beira de precipícios, com morros nem mesmo cobertos por lonas plásticas. Ali, já foram registrados deslizamentos com vítimas em 2000, 2002, 2007, 2021 e, agora, em 2022, mostrando que os desastres na região não se tratam de um caso isolado.

Welington Lima/TV Jornal
Deslizamento no Jardim Monte Verde - Welington Lima/TV Jornal
Welington Lima/TV Jornal
Deslizamento no Jardim Monte Verde - Welington Lima/TV Jornal
Djair Pedro /SEI
Deslizamento no Jardim Monte Verde - Djair Pedro /SEI

A diretora Executiva Nacional da Habitat para a Humanidade Brasil, Socorro Leite, pontuou a necessidade de monitorar as áreas de risco, criando sistemas de alerta para evacuação quando houver previsão de fortes chuvas - Petrópolis, no Rio de Janeiro, por exemplo, emite sinais sonoros nesses casos - e uma rede de abrigos municipais pronta para receber essa população.

“A gente não controla o tempo, com as mudanças climáticas, as chuvas vão ser mais imprevisíveis e intensas. O que a gente pode controlar é o investimento público, mas os governos não vêm destinando o recurso adequado para eliminação do risco, e não ter obras estruturantes para essas áreas é condenar as pessoas à morte”, afirmou a especialista.

Em Pernambuco, o déficit habitacional é superior a 326 mil unidades, segundo levantamento da Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias (Abrainc) junto à Ecconit Consultoria Econômica. Só no Recife falta moradia digna para 71 mil moradias, segundo dado da Prefeitura de 2019. Dados que, agora, devem crescer - aumentando também o desafio das gestões em sanar o problema.

Segundo ela, às vezes obras são suficientes para tornar os morros habitáveis e seguros. “Existem casos em que, com obras, as pessoas não precisam ser removidas, em que a contenção de uma encosta pode evitar um risco a um conjunto de famílias. Em outros pontos, nem a obra asseguraria. então teria que buscar um outro local de moradia para as famílias. Em todo caso, o monitoramento é fundamental”, afirmou a especialista.

Neste ano, uma série de desastres causados pelas chuvas já aconteceu pelo Brasil. Na Bahia, foram 27 mortos em janeiro. Em Minas Gerais, no mesmo mês, foram 24. Já em Petrópolis, no Rio de Janeiro, foram contabilizadas mais de 230 vítimas em fevereiro. Pedrosa apontou as mudanças climáticas como uma aceleradora desse processo, que precisam ser tratadas com atenção.

“Os poderes públicos e a sociedade precisam levar mais a sério, com atenção e responsabilidade, a questão climática, que todos estamos alertando. Os desastres estão sendo anunciados, e as cidades não estão preparadas para o que está acontecendo. Os morros estão encharcados e as barreiras saturadas de água”, disse.

A situação ainda é mais preocupante no Recife, considerada a 16ª cidade mais vulnerável aos efeitos da mudança do clima, segundo o Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática (IPCC). “Precisamos passar por esse desastre para entender o significado social e econômico desse número?”, questionou.

Investimentos feitos por cidades de Pernambuco

Recife afirmou executar, desde o início do ano, um conjunto de intervenções por meio da Ação Inverno 2022, com o aporte de R$ 148 milhões. Nisso, estaria incluso micro e macrodrenagem, prevenção e monitoramento em áreas de risco e eliminação de pontos críticos de alagamento, entre outras atividades. Não foi especificado o que foi gasto nos morros onde tiveram vítimas.

Na parte pertencente a Jaboatão dos Guararapes do Jardim Monte Verde, área com mais óbitos registrados, a prefeitura informou ter investido R$ 4.1 milhões em 39 obras de contenção de encostas nesta região, além da construção de um muro há 20 dias. Em toda a cidade, disse que foram empregados R$ 9,5 milhões na prevenção a deslizamentos de morro e alagamento neste ano.

Olinda, que possui 122 locais de risco, entre baixo e muito alto, informou que a Operação Inverno 2022, lançada em março, tem um investimento previsto de R$ 7,6 milhões, que está em fase de licitação a construção de 38 muros de arrimo na cidade. Ainda, pretende cobrir 500 mil m² com lona plástica neste ano. Nas áreas onde houve deslizamentos, disse estar colocando lona e erradicando árvores, além de visitar moradias de risco.

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