Eleição municipal

Candidaturas LGBTQI+ crescem, mas ainda lutam por espaços de poder na política

Entidade, especialistas e candidatos falam sobre a falta de organização partidária para esse segmento

JC
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Publicado em 09/10/2020 às 18:31
EDMAR MELO / ACERVO JC IMAGEM
LUTAS Candidatos LGBTQI reclamam de preconceito e falta de apoio - FOTO: EDMAR MELO / ACERVO JC IMAGEM
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Em busca de representatividade na política, pelo menos, 411 postulantes que se declaram lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais, transgêneros ou intersexuais irão disputar a eleição municipal de 2020. Segundo dados da Aliança Nacional LGBTI+, esse número é quase o dobro de 2016, quando foram registradas 215 candidaturas deste segmento.

Em Pernambuco, dados do Movimento Leões do Norte apontam que serão 78 candidaturas assumidamente LGBTQIA+, além de outros 4 candidatos heterossexuais que declararam apoiar, prioritariamente, os direitos dessa população.

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Como o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) não dispõe de estatísticas deste tipo, pois não pede essa informação no ato do registro da candidatura, os números foram compilados por meio de declaração dos próprios candidatos às entidades, além de contatos com militância e partidos, que, segundo os Leões do Norte, ainda não possuem uma organização para isso.

"Se eles [os partidos] tivessem organização, estavam apresentando esse número em bloco. Pedimos que apresentassem, fizessem uma coisa organizada, porque mostrava uma certa força [aos candidatos] que havia pelo partido. Daria mais segurança para as pessoas que vamos pedir votos. Os partidos são eleitoreiros, viraram cartoriais. Infelizmente, não há partido hoje em dia que tem essa consistência ideológica. É bem desorganizado, triste mesmo", lamentou o ativista do Movimento LGBT Leões do Norte Welington Medeiros.

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No início de outubro, o movimento enviou aos dirigentes partidários em Pernambuco uma carta pedindo atenção dos partidos para candidaturas LGBTQIA+. No texto, a entidade afirmou que esses postulantes são colocadas de lado e que “nenhum partido explicita esse segmento perseguido, violentado e, por diversas vezes, assassinado em seus corpos”.

“Diante desse quadro, nós do Movimento LGBT Leões do Norte, fizemos um levantamento das candidaturas LGBT em todo o Estado de Pernambuco. Não percebemos nos partidos um envolvimento direto com essas candidaturas e interesse nesse segmento para o fortalecimento da luta pela democracia e do próprio segmento, que é secularmente relegado ao esquecimento”, diz trecho da carta.

Uma das questões pontuadas por Welington é que não existe ninguém na maioria dos partidos que faça o levantamento dessas candidaturas e não há "interesse de líderes de movimentos sociais".

Candidata

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Sofia Fragoso, Miss Trans Pernambuco e candidata a vereadora de Caruaru pelo PCdoB - REPRODUÇÃO/INSTAGRAM

Militante da União da Juventude Socialista (UJS) e filiada ao PCdoB, a atual Miss Trans Pernambuco, Sofia Fragoso, vai disputar uma vaga na Câmara de Vereadores de Caruaru, no Agreste do Estado. Ao JC, ela explicou o que lhe motiva a buscar um mandato e lamentou a falta de pessoas LGBTI+ ocupando cargos políticos.

“Já houve candidatura trans em Caruaru, mas nunca chegaram à vereança. Está mais do que na hora de pessoas LGBT participarem da tomada de decisão. Na minha trajetória olhava ao redor e não enxergava pessoas iguais a mim, sempre vendo pessoas ocupando espaços e não me sentir representada. Então, comecei a galgar espaços para que pessoas me vejam e sintam a representação”, afirmou Sofia. “Quando me tornei Miss Trans Pernambuco, muitas pessoas vieram falar comigo, pois não sabiam que poderíamos concorrer espaços em concursos de beleza, isso é uma questão de se sentir representada”, completou.

Na visão da travesti, como prefere ser chamada, há um preconceito e uma misoginia entranhados que impede essa população de obter espaços políticos, inclusive dentro dos partidos. “Temos a ilusão de que na esquerda é perfeito e não funciona assim, é possível ser de esquerda e ter preconceito, pois estamos falando de um ser humano, um ser falho, há um preconceito muito grande dentro dos partidos, um machismo grande, muitos dos partidos são presididos por homens brancos. Já no PCdoB, há uma minimização disso, ao meu ver, por conta de um protagonismo da Manuela D'Ávila e a presidência, que é da Luciana Santos (vice-governadora de Pernambuco)”, afirmou.

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Pesquisadora de temas como opinião pública e comportamento do eleitor, a cientista política e professora da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) Nara Pavão explica que, além da questão partidária, grupos minoritários e historicamente excluídos enfrentam barreiras quando se deparam com o eleitor médio no Brasil.

“A falta de representantes desses grupos é consequência da prioridade dos eleitores, claro que há eleitores que se preocupam muito com pautas identitárias, há quem vote em mulher ou em algum candidato LGBT independente de qualquer coisa. Mas, em geral, o eleitor mediano não pensa nessa pauta, ele se preocupa com emprego, transporte, a gente não pode tomar a demanda de grupos militantes como sendo representativa do eleitor mediano não é. Essas pautas estão, cada vez mais, chegando para esse eleitorado, mas ainda está muito longe. Além disso, esse eleitor mediano é conservador, o brasileiro, é provavelmente alguém reativo, não entende a relevância de alguém desses segmentos [LBGTQI+} na política, pensa que isso desvia de assuntos, que para eles, são mais importantes”, afirmou.

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Para Nara, o aumento das candidaturas pode ser uma reação ao levante da direita. "Passamos por uma guinada à direita desde 2016, que se consolida com Jair Bolsonaro chegando à Presidência em 2018. Então, vemos de um lado uma tentativa de inclusão e, de outro lado, grupos contrários a essa tentativa, os ditos conservadores. Então pode ser, sim, uma reação", comentou.

Secretário-geral da Diversidade Tucana Nacional e presidente estadual da Diversidade, Lucas Barros se declara gay e é candidato a vereador no município de Palmares, Mata Sul do Estado, pelo PSDB, partido que deu uma guinada recente à direita com a ascensão do governador de São Paulo, João Doria. No entanto, à reportagem, o candidato explicou que existe uma ala de centro-esquerda dentro da legenda, inclusive, com a pasta da diversidade sexual.

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Candidato a vereador LGBTQIA+ no município de Palmares pelo PSDB, Lucas Barros - DIVULGAÇÃO

"No PSDB, desde o começo do ano, a gente vem mapeando e falando com os presidentes das chapas dos municípios e do Estado, para o fortalecimento dos nomes LGBTs e inclusão dentro das chapas. No Brasil, temos em torno de 32 candidaturas LGBTs, e quatro LGBT assumidamente em Pernambuco", contou.

O candidato falou, ainda, da prejudicialidade para o segmento sem a devida representatividade nas casas legislativas. "Não existe democracia sem diversidade. A gente precisa trazer a diversidade para dentro das Câmaras legislativas. Precisamos trazer quanto mais representatividade, melhor. Mais mulheres, pessoas negras, deficientes, LGBTs, que tenham causas diferentes, e não pessoas com as mesmas causas, como vemos na maioria das Câmaras. Precisamos de representatividade dentro do legislativo. Com a falta dela, a gente tem cada vez menos direitos e menos acesso a qualquer tipo de política", explanou.

A visão de Lucas é compartilhada por Thiago Nunes – doutor em História e professor da UFRPE, Univisa e Unibra. Para ele, a representatividade fica comprometida, ela não deveria estar condicionada a ter ou não representantes no espaço legislativo. “Este é um compromisso que deveria ser de todos, para construção de uma sociedade mais justa, igualitária e fraterna. A estrutura partidária ainda está muito aquém”, afirmou.

O professor também destacou que essas candidaturas recebem pouco apoio partidário, mesmo entre os grupos de esquerda. “Elas são atrapalhadas pelo machismo, fundamentalismo religioso e por atitudes e pensamentos violentos e preconceituosos, que são resultantes de um passado autoritário, marcado pela exclusão social e violação de direitos humanos. É o passado que ressoa negativamente no presente. Isso é construído no dia a dia, por meio de estereótipos, discursos conservadores, piadas para deslegitimar as causas da LGBTQI+, difusão de fake news, etc. Apesar desse contexto adverso, está ocorrendo um crescimento de candidaturas LGBTQI+ nos últimos anos em Pernambuco e em outras partes do mundo”, afirmou.

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Quando me tornei Miss Trans Pernambuco, muitas pessoas vieram falar comigo pois não sabiam que poderíamos concorrer espaços em concursos de beleza, isso é uma questão de se sentir representada", lembrou Sofia Fragoso ao defender a representatividade das pessoas LGBTQI - FOTO:REPRODUÇÃO/INSTAGRAM
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Sofia Fragoso, Miss Trans Pernambuco e candidata a vereadora de Caruaru pelo PCdoB - FOTO:REPRODUÇÃO/INSTAGRAM
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"A liberdade de orientação sexual e identidade de gênero é uma conquista que ainda não está plenamente garantida", diz o autor do projeto, vereador Osmar Ricardo (PT) - FOTO:Agência Brasil
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Candidato a vereador LGBTQIA+ no município de Palmares pelo PSDB, Lucas Barros - FOTO:DIVULGAÇÃO

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