Eleições 2022

Busca por nomes externos mostra que PSB não tem líder natural para 2022

Sem uma liderança, PSB busca nome fora do partido e até mesmo do universo político, que seja capaz de congregar setores sociais. Luciano Huck e Luiza Helena Trajano são alguns na mira do PSB

Mirella Araújo
Mirella Araújo
Publicado em 15/02/2021 às 20:15
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HUMBERTO PRADERA /DIVULGAÇÃO
Presidente do PSB, Carlos Siqueira, defende candidato "outsider" para enfrentar Bolsonaro em 2022 - FOTO: HUMBERTO PRADERA /DIVULGAÇÃO
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A busca do PSB por nomes que fogem das hostes socialistas e até do universo político, para solidificar uma terceira via que se diferencie do campo da esquerda e da direita, e de seus extremos, demonstra que desde a morte do ex-governador Eduardo Campos, em 2014, não há uma liderança forte o suficiente que possa ser pensada em primeiro plano para um projeto presidencial. O que acaba por não causar surpresa a tentativa de aproximação de quadros como o do apresentador Luciano Huck e o da empresária Luiza Helena Trajano, como possíveis candidatos para as eleições de 2022. 

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Apesar de serem movimentos iniciais com objetivo claro de enfrentar e, derrotar,  o presidente Jair Bolsonaro (sem partido), o lançamento de um "outsider" precisa ter além da capacidade de diálogo com as massas, conseguir aglutinar novamente o PSB em torno de um único projeto.

Nos bastidores, alguns socialistas explicam que o desenho atual do PSB se encontra dividido em pequenos grupos. Existe uma ala mais ligada ao ex-governador de São Paulo Márcio França, que saiu derrotado nas eleições municipais de 2020, mas que tem um diálogo próximo com a direita - alguns prefeitos do PSDB, no interior de São Paulo, chegaram a se desfilar do partido para apoiar França em 2018. Outro bloco é mais alinhado com o governador do Espírito Santo, Renato Casagrande. Uma terceira corrente, a do PSB da Paraíba, perdeu força desde a desavença entre o ex-governador Ricardo Coutinho e o atual governador João Azevedo, que findou na saída dele do partido. Coutinho, inclusive, é um defensor do ex-presidente Lula (PT).

“Então não temos esse nome que fazia o papel de juntar os atores políticos e os subgrupos, como tínhamos com Eduardo Campos. Esses grupos convivem bem, mas não há uma liderança forte”, afirmou um socialista, em reserva. Ele também afirma que o nome de Huck não é "nem de longe" visto como consenso no partido.

Em conversa com o JC, o presidente nacional do PSB, Carlos Siqueira, disse que a defesa por emplacar um candidato como outsider vem desde 2018, com o convite feito ao ex-ministro do STF Joaquim Barbosa. “Nada mudou em termos políticos, afinal de contas, o sistema político necrosou e precisa ser profundamente refeito para ganhar legitimidade. A classe política se recusa a entender a falência desse sistema. Nós vamos fazer esse debate, mas com calma”, afirmou Siqueira. “Estamos estudando possibilidades, não estamos definindo nada ainda”, cravou o dirigente, sem confirmar se houve uma abertura nas negociações tanto com Huck quanto com Luiza Trajano.

Ainda segundo a visão de Carlos Siqueira, esse nome vindo “de fora” precisa ter a capacidade de “congregar setores sociais mais que partidários”. “A conjuntura atual não se caracteriza por esquerda e direita, mas por democracia e autoritarismo. A democracia é formada pelo regime de partidos, se não temos partidos fortes e programáticos em um sistema minimamente razoável para que a população possa identificar com clareza, a tendência é caminharmos para o autoritarismo", afirmou Siqueira. 

Os socialistas também garantem que a abertura de diálogo para encabeçarem uma chapa própria em 2022, não inviabilizaria a relação com o bloco progressista formado em conjunto com o PDT, Rede, PV e PCdoB. Nas eleições de 2018, o PSB se manteve neutro no primeiro turno, e no segundo turno apoiou  o candidato do PT, Fernando Hadadd. Sabe-se que existe uma grande expectativa por parte dos pedetistas em ter o PSB no palanque do presidenciável Ciro Gomes, tanto que as costuras para a eleição do prefeito João Campos (PSB) no Recife, passaram pela estratégia a ser consolidada para 2022. 

Partidos sem projetos nacionais acabam sendo consumidos pelos interesses regionais. "O PSB daqui de Pernambuco, não é o mesmo da região Sul do país, não há coesão partidária”, avalia o cientista político e professor da UNITAS, Vanuccio Pimentel.

Inclusive, o docente explica que trazer uma figura considerada "estranha" para a disputa presidencial, pode trazer o risco do partido ficar refém dessa nova liderança, caso ela consiga atingir o mesmo nível de diálogo massificado que Bolsonaro possui hoje. 

“Dentro do espectro partidário não há ninguém que consiga ganhar de Bolsonaro. Ele passou por cima dessa estrutura partidária e ganhou da maneira dele com uma massa de eleitores próprios. Hoje, não vemos nenhuma liderança de partido que consiga ter esse mesmo diálogo com as massas. O máximo que se aproximou disso foi o ex-presidente Lula (PT), mas ele não tem a mesma capacidade de antes”, afirmou Pimentel.

Para o líder do PSB na Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe), Isaltino Nascimento, toda essa movimentação da direção nacional é positiva, ainda mais com a mudança na legislação eleitoral. “Os partidos precisam estabelecer o fortalecimento de suas bancadas federais, das candidaturas majoritárias, e ter uma candidatura competitiva do governo federal é muito importante para garantir esses palanques”, avaliou. “O ideal era que pudéssemos ter um quadro próprio do partido para a disputa, mas o nome mais forte que nós tivemos, foi o do ex-governador Eduardo Campos”, frisou o parlamentar.

JOÃO CAMPOS

Entre as articulações políticas tanto para aproximar o PSB de Luciano Huck, como para abrir um diálogo com a empresária Luiza Helena Trajano, para as eleições de 2022,  o nome do prefeito do Recife, João Campos, figura como principal responsável por construir essas pontes para o partido. 

O presidente nacional do PSB, Carlos Siqueira, é só elogios para o jovem político. “Ele está se revelando uma liderança muito importante e é muito reconhecido na cúpula do nosso partido. Seguramente o que ele está fazendo é autorizado pelo partido, e nunca agiu de forma desconectada para dar qualquer passo”, afirmou. 

Apesar desse alinhamento mencionado pelo dirigente, João Campos integrou a ala do partido que apoiou a eleição do presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL). Campos teria pressionado parlamentares do partido a votarem a favor de Lira, indo de encontro a recomendação do Diretório Nacional, que pediu para a bancada não votar "em hipótese" nenhuma votar em um candidato apoiado pelo presidente Jair Bolsonaro. 

Após vitória de Lira, o prefeito esteve em Brasília na semana passada e se encontrou com o novo presidente da Mesa Diretora. No entanto, a visita institucional não constou na agenda oficial de João Campos, sendo comentada por ele, já no fim do dia. 

Dentro do PSB, correligionários avaliam que João Campos de fato, tem buscado dimensionar suas ações para além da Prefeitura do Recife. "Ele nitidamente tem procurado ocupar um destaque nacional. São vários movimentos, como as visitas a São Paulo e Brasília. Agora, se realmente vão ser constantes, isso em que ser analisado", comentou um socialista, em reserva.

 

 

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