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Lula compara ditadura de Ortega na Nicarágua com democracia na Alemanha

Lula minimizou o regime ditatorial de Ortega e questionou: ''Por que a Merkel pode ficar 16 anos no poder e Ortega não?''. Ortega prendeu opositores e não teve sua eleição reconhecida pela OEA

JC Estadão Conteúdo
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Estadão Conteúdo
Publicado em 22/11/2021 às 22:52
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Ex-presidente Lula em entrevista ao El País - FOTO: REPRODUÇÃO/TWITTER @LulaOficial
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O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) comparou a reeleição do ditador da Nicarágua, Daniel Ortega, com o tempo de poder da chanceler alemã, Angela Merkel, eleita em sistema democrático.

A comparação de Lula foi realizada durante entrevista ao jornal "El País". "Sabe, eu não posso ficar torcendo... por que a Angela Merkel pode ficar 16 anos no poder e Daniel Ortega, não? Por que [o ex-presidente da Espanha] Felipe González, aqui, pôde ficar 14 anos? Qual é a lógica?

Uma das jornalistas presentes na entrevista então rebateu Lula dizendo que Merkel nem González prenderam os seus opositores. "Sabe, eu não posso julgar o que aconteceu na Nicarágua. No Brasil, eu fui preso. Fiquei 580 dias preso para que o Bolsonaro fosse eleito presidente. Eu não sei o que as pessoas fizeram [na Nicarágua] para que fossem presas. Se o Daniel Ortega prendeu a oposição, como fizeram comigo no Brasil, ele estará totalmente errado", argumentou Lula, em seguida.

Nicarágua

Em sua busca do quarto mandato consecutivo, Ortega deteve todos os adversários que pudessem representar uma ameaça, fechou partidos de oposição e proibiu grandes eventos de campanha. A comissão que monitora as eleições foi confiada a seus partidários e não houve debate entre os candidatos restantes, todos membros de partidos pouco conhecidos.

Confira a entrevista de Lula

Ainda assim, o Partido dos Trabalhadores (PT), que deve ter Lula como candidato a presidente no próximo ano, chegou a classificar a eleição da Nicarágua como uma “grande manifestação popular e democrática”. Em nota após o resultado, o PT encarou o resultado como “o apoio da população a um projeto político que tem como principal objetivo a construção de um país socialmente justo e igualitário”. O texto, publicado no site da legenda, foi amplamente criticado, tanto por opositores quanto por apoiadores do partido e, dois dias depois, não estava mais no ar.

Estados Unidos

Os ataques às instituições democráticas renderam à Nicarágua sanções dos EUA. Em junho, o governo americano puniu quatro figuras ligadas a Ortega: o presidente do Banco Central, Leonardo Ramírez; o general do Exército Julio Balladares; o deputado Edwin Rivera; e Camila Murillo, filha de Ortega. Todos tiveram contas e bens congelados nos EUA e foram proibidos de fazer transações em dólar, o que impede acesso ao sistema financeiro internacional.

A economia da Nicarágua está em queda livre. Segundo dados do FMI, o PIB caiu 3,4%, em 2018, 3,7%, em 2019, e 2%, em 2020. Entre os países da América Latina, a renda per capita, de US$ 2 mil, só é maior que a do Haiti. Apenas 5% da população foi vacinada contra covid - o pior índice da região.

O resultado mais visível da crise econômica é que mais de 200 mil nicaraguenses deixaram o país desde o início da repressão, em 2018. Muitos foram para os EUA e para a vizinha Costa Rica, com um grande número de famílias que ficaram dependendo das remessas de dinheiro.

Ortega assumiu o poder pela primeira vez após a revolução sandinista, que derrubou o ditador Anastasio Somoza, em 1979. Ele governou até 1990, quando perdeu as eleições para Violeta Chamorro. Depois de fracassar nas eleições de 1996 e 2001, ele volta ao poder em 2007 para nunca mais sair.

Daniel Ortega é ex-guerrilheiro de 76 anos e seu quarto mandato consecutivo não foi reconhecidos, também, pela União Europeia e vários países latino-americanos.

OEA

A Organização dos Estados Americanos (OEA) declarou que as eleições na Nicarágua não foram justas e carecem de "legitimidade democrática", o que obrigou a entidade a pedir uma "avaliação coletiva imediata". Em retaliação, Ortega formalizou na última sexta-feira (19) a saída da Nicarágua do órgão.

A medida foi anunciada ontem pelo chanceler, Denis Moncada, que acusou a OEA de intervencionismo e de ser controlada pelos EUA. "Estamos renunciando e nos desassociando da OEA", afirmou o ministro, em entrevista coletiva. "A OEA tem o objetivo de facilitar a hegemonia dos EUA com seu intervencionismo nos países da América Latina."

"Escrevo para notificá-los oficialmente de nossa decisão de denunciar a carta da OEA, de acordo com o Artigo 143, que dá início à retirada definitiva e à renúncia da Nicarágua desta organização", diz a carta assinada por Moncada e dirigida ao secretário-geral da OEA, Luis Almagro.

O processo de retirada leva cerca de dois anos. Em abril de 2017, a Venezuela, aliada da Nicarágua, também solicitou formalmente a saída da OEA em resposta ao que o governo de Nicolás Maduro considerou uma "interferência" do órgão em seus assuntos internos.

Análise

O historiador Alberto Aggio disse que parte do PT mantém a defesa da ideia da revolução em vez de se comprometer com a democracia. Essa opção, que se opõe à modernidade e não reconhece a necessidade das instituições do liberalismo político, explica por que setores do partido apoiam ditaduras como a de Daniel Ortega, na Nicarágua, ou de Nicolás Maduro, na Venezuela. Ele aponta o papel ambíguo de Luiz Inácio Lula da Silva. Professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e especialista em história da América Latina, Aggio é autor de Um Lugar no Mundo: Estudos de História Política latino-americana.

Como a esquerda deveria se posicionar diante das manifestações em Cuba?

Se é verdade que a esquerda que apoia Cuba acredita na soberania dos cubanos sobre o território e o Estado, fica evidente que o comando do Estado cubano faz com que o povo não tenha liberdade e soberania sobre esse Estado. A repressão que se estabelece permanentemente em Cuba é um atestado de que, na ilha, os cubanos não têm soberania. Há uma permanente usurpação da soberania. Cuba não tem representação democrática, a sociedade não se representa democraticamente no Estado.

Na semana passada, um dirigente do PT divulgou nota de apoio à eleição de Daniel Ortega, na Nicarágua O que leva setores do partido a apoiar ditaduras na Nicarágua e na Venezuela?

O apoio a ditaduras parte de uma esquerda anacrônica e passadista que ainda está dentro do paradigma da revolução. Sabe que a revolução não tem mais a perspectiva da guerrilha, da luta armada, tipo Marighella e Che Guevara, mas quer manter a perspectiva de emergência de massas na política, com um programa cada vez mais radicalizado para acentuar contradições na expectativa de chegar a situações pré-revolucionárias.

Há dificuldade afetiva de setores da esquerda em criticar Cuba e Ortega?

Acredito que existe. Todo elemento de mito da esquerda provoca esse tipo de relação de afeto, que é um sentimento de defesa, quase se materializando na ideia de que tomar um caminho crítico seria uma traição à revolução, ou que seria fazer o jogo dos exploradores, dos opressores e da direita.

Qual o papel de Lula na forma de o PT tratar Cuba e Venezuela e se relacionar com a democracia?

O papel do Lula é fazer a ponte com esse passado do paradigma da revolução sem assumi-lo. Lula negocia com os protagonistas desse paradigma. Ele faz a ponte com a herança dessa esquerda, que está no PT, nos ex-integrantes da luta armada e na igreja da teologia da libertação. Lula expressa o sindicalismo de resultados que negocia com esse campo. Ele nunca quis ser afiliado à social-democracia europeia, tanto é que o partido afiliado à Internacional Socialista era o PDT.

Lula manteria essa ambiguidade ao viajar à Europa e se encontrar com líderes da social-democracia comprometida com a globalização e com o liberalismo político, como Olaf Scholz?

Mas ele não fala nada nesse sentido (da social-democracia). O que ele fala é o que essa social-democracia quer ouvir, que ele aqui é o protagonista da luta contra as elites, contra as oligarquias, o atraso, a violência e a queima da Amazônia. Alguns temas se vinculam à social-democracia de lá, mas ele tem de ser um protagonista contra a injustiça que existe nos países subdesenvolvidos e, como a Europa não fará mais a revolução e não se apoia mais um personagem que venha do atraso, a social-democracia europeia preza muito bem protagonistas como Lula, que são, na visão dela, a expressão da luta contra a miséria e a pobreza fora da Europa. Lula mantém essa ambiguidade Ele não assume nem o discurso do paradigma da revolução nem a identificação com a social-democracia.

Para superar o risco autoritário é necessário o abandono da ideia de revolução?

Isso de saída, como cimento de uma nova cultura política. Abandonar o paradigma da revolução e se instalar definitivamente no paradigma da democracia. O tema democrático exige atenção, dedicação e um diálogo de diversos atores, pois o tempo da democracia é de múltiplas dimensões do presente. Não é o tempo agudo da revolução, do antes e depois. Produzir consenso é necessário na democracia. Sabemos que nossa democracia está em um ponto de mal-estar. A sociedade julga que as coisas não estão boas, com altos salários e gente em excesso no Estado brasileiro É extraordinário o número de pessoas no Brasil que vive da política. É necessário pensar uma reforma política saneadora da nossa democracia? É evidente. A sociedade precisa ver que a democracia muda a vida num contexto de paz e não de exacerbação de contradições.

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