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Agora filiado ao PL, Bolsonaro sai do 'outsider' de 2018 para o 'porta-voz do centrão' nas eleições 2022

Ao lado do presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, e de aliados do PP e Republicanos, Bolsonaro disse que agora todos "são uma família" e que "ninguém faz nada sozinho"

Mirella Araújo
Mirella Araújo
Publicado em 30/11/2021 às 19:52
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Bolsonaro se filiou ao PL nesta terça-feira (30) - FOTO: @PLNACIONAL_ VIA TWITTER
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Atualizada às 22h11

Durante o evento de filiação ao Partido Liberal (PL), nesta terça-feira (30), o presidente Jair Bolsonaro destacou, em vários momentos do seu discurso, a sua relação com políticos e partidos, recapitulando a sua origem no Congresso Nacional, onde passou 28 anos. Ele também fez diversas sinalizações a seu eleitorado conservador, principalmente ao prometer que pautas de costumes devem avançar sobre as instituições. Ainda foi possível observar na cerimônia um banner se referindo ao programa Auxílio Brasil, como maior programa de transferência de renda do país. Mas, quais são os sinais que Bolsonaro deu para 2022?

Eleito em 2018 sob a bandeira da antipolítica ao incorporar o papel de “outsider”, agora Bolsonaro terá que deixar cada vez mais claro os motivos que o levaram a estar alinhado com os principais partidos do chamado bloco do Centrão. Ao lado do presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, e se dirigindo aos presidentes do Republicanos, o deputado federal Marcos Pereira (SP), e do PP, o ministro da Casa Civil Ciro Nogueira, Bolsonaro disse que agora todos “são uma família” e que “ninguém faz nada sozinho”.

“O governo federal ficou muito dependente do Centrão porque o presidente teve que reconstruir essa aliança partidária no meio do governo, com um custo muito grande tanto político quanto orçamentário. Ele também sabe que a eleição não pode ser feito sob o mesmo discurso de 2018, em que ele não tinha estrutura e partidos de base”, afirma o professor da Asces Unita e cientista político, Vanuccio Pimentel.

Entretanto, esse tom contra o sistema ainda deverá permanecer como estratégia para sua reeleição. “Apesar de ter perdido força como uma ideia de ‘outsider’, o presidente ainda vai adotar esse discurso. Afinal, a antipolítica ainda está presente em parte do eleitorado brasileiro. Por outro lado, Bolsonaro sabe que é o Centrão que sustenta seu governo. E o Centrão aceita Bolsonaro pela proximidade com o Executivo, a aprovação de emendas, e o aumento da bancada no Congresso diante da força da direita no parlamento”, avalia o cientista político e historiador Alex Ribeiro.

Para a professora da Faculdade de Ciências Humanas de Olinda (Facho) e cientista política Priscila Lapa, o presidente da República não teme mais ter sua imagem relacionada ao Centrão. “Na verdade, Bolsonaro tenta minimizar o que isso pode impactar. Ele prefere destacar as questões das bandeiras conservadoras, o que pode abonar toda e qualquer outra incoerência na sua trajetória. Ele tenta mostrar que com ele a relação com esses partidos é de outra natureza”, pontua. No próprio discurso, o chefe do Executivo explicou que a filiação é “uma passagem para que a gente possa pleitear algo ali na frente”.

Mesmo que a pauta anticorrupção ainda esteja presente entre suas bandeiras, agora, Jair Bolsonaro tentará mostrar sua força através do programa Auxílio Brasil. “O sucessor do Bolsa Família começa na esteira da crise econômica, agravada pela pandemia e por uma conjuntura bastante delicada de inflação e desemprego. Embora auxílios assistenciais tenham sido utilizados politicamente por governos anteriores, os tempos extraordinários em que vivemos podem reduzir os efeitos decisivos dessa abordagem”, pondera a cientista política da UFPE, Raquel Lins.

A aposta de que o Auxílio Brasil possa ser o grande indutor da população, se assemelha à estratégia adotada pelos governos petistas, ao encabeçar o Bolsa Família como principal bandeira. A diferença central é que o presidente da República poderá usar desse efeito eleitoral esperado, como argumento de que a culpa pela crise econômica são dos prefeitos e governadores, diante das medidas adotadas para o enfrentamento da covid-19 no país, enquanto o governo federal teria “viabilizado uma solução”.

“Agora estamos diante da figura mais real do Bolsonaro: um candidato do Centrão e com resquícios de discurso falso moralista que apenas quer conquistar eleitores mais incautos, que não acompanharam sua trajetória: repleta de mudanças de partidos (este é seu nono), proteção aos filhos e defesa de nomeação de parentes em cargos públicos - para não mencionar a redução da transparência de determinados gastos em seu próprio governo, já denunciadas pela imprensa”, afirma Raquel.

Instituições

Apesar de tentar moderar o tom com o Poder Judiciário, principalmente com relação ao Supremo Tribunal Federal (STF), o presidente da República fez questão de mencionar a indicação de André Mendonça, que deverá ser sabatinado nesta quarta-feira (1º), para ocupar a vaga do ministro Marco Aurélio, aposentado em julho deste ano. “Espero que ele seja aprovado o nome dele”, frisou. Em outro momento, Bolsonaro disse que quem for eleito em 2023 poderá indicar mais dois nomes para o STF “com perfil mais pro lado de cá, mais conservador”, disse.

“Insistir nesse conflito contra as instituições é o que resta a quem não tem resultados para mostrar. Ele é sempre o herói na cruzada em busca da verdade, ainda que os efeitos práticos disse na vida das pessoas seja nulo”, declara a cientista política Priscila Lapa.

“As pautas conservadoras são uma das sustentações. O voto ideológico é importante e essas indicações ao STF de ministros mais conservadores seguirão à toma do governo. No entanto, é importante frisar : o sucesso de Bolsonaro não pode ficar restrito aos grupos ideológicos”, afirma o historiador Alex Ribeiro.

Críticas

O senador Flávio Bolsonaro, que também se filiou ao PL nesta terça-feira, adotou um discurso mais crítico ao mencionar os adversários políticos de seu pai. "Juntos, vamos vencer o vírus, qualquer traidor e qualquer ladrão de nove dedos, pelo bem do Brasil", disse, em menção ao ex-juiz da Lava Jato, Sergio Moro (Podemos) e ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

“O Flávio indo para a crítica ao Moro e Lula, é uma maneira de pelo menos blindar Bolsonaro naquele momento, para que não produza nada que possa ser usado contra ele. E nesse momento acho que ainda não era interessante para o presidente assumir o discurso de candidato.Acho que foi uma maneira de evitar a exposição a ele”, analisou Vanuccio Pimentel.

A cientista política Raquel Lins também corrobora sobre a estratégia adotada de preservar o presidente Jair Bolsonaro, que evitou criticar diretamente seus principais adversários. “São os dois candidatos mais fortes nas pesquisas até o momento, foi um ataque natural - mas realizado por ele, poupou o pai de precisar fazê-lo em seu discurso”, explica.

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