07
abr

Duas Rainhas (Mary – Queen of Scots), de Josie Rourke

07 / abr
Publicado por Ernesto Barros às 19:28

Saoirse Ronan e Margot Robbie, em Duas Rainhas. Foto: Universal Pictures.

Com duas jovens, talentosas e inteligentes atrizes à frente do elenco – a americana Saoirse Ronan e a australiana Margot Robbie –, a Universal Pictures acreditava que o drama histórico Duas Rainhas (Mary – Queen of Scots, 2018), uma coprodução anglo-americana, seria uma das principais apostas do estúdio no Oscar 2019. Mas, após ser recebido com frieza pela crítica, especialmente a americana, o filme também pouco impressionou os membros da Academia e sua propalada diversidade, que lhe deram apenas duas indicações (Figurino e Maquiagem e Penteados). Por causa disso, o lançamento foi jogado para a última quinta-feira (4/4), meio que só para cumprir tabela, como se diz quando o campeonato já foi pro brejo (afinal, desde a temporada de premiação que cópias digitais estão disponíveis na internet).

Porém, como se diz quando um filme é injustiçado e disponível em cópias inadequadas: é melhor esperar para vê-lo na tela grande. Bem, Duas Rainhas não vai decepcionar quem se dispuser a assisti-lo pagando caro, contudo, é bom que se diga que o espectador precisa ter a mente aberta para não sair do cinema com raivinha. Não adianta mais espernear: artistas de todo o mundo, homens e mulheres, estão de mãos dadas para cascavilhar a história e recontá-la sob novos prismas e leituras atualizadas. E a história de Maria da Escócia, ou Maria Stuart, presta-se a revisões dada a vida atribulada e suas tentativas de provar que era herdeira por direito e que merecia ser a rainha que uniria ingleses e escoceses do século 16.

Sob as lentes do movimento #MeToo e provocadoramente feminista, a encenadora britânica Josie Rourke, em seu primeiro longa-metragem, mostra uma Mary (Saoirse Ronan) nunca vista antes nas telas. Mas não pense que essa visão diferenciada da personagem é gratuita. Ao contrário, o filme é adaptado da biografia Queen of Scots: The True Life of Mary Stuart, de John Guy, que teve acesso a documentos inéditos e que já é considerado o relato mais fidedigno sobre a infeliz rainha escocesa.

Apresentada como uma mulher culta e inteligente, a jovem rainha trava uma luta permanente contra os homens, parentes e lacaios da corte, que fazem de tudo para não permitirem que ela tenha direito ao trono, ora por ser mulher, ora por ser católica. As atitudes mesquinhas dos homens da corte e a revelação do comportamento deles – como a bissexualidade do Lord Darnley (Jack Lowden), o segundo marido de Mary, por exemplo – mostram que o machismo não permitiu que a rainha lograsse unir seus súditos ingleses e escoceses, o que seria feito pelo filho dela, no início do século 17.

Entre seus maiores inimigos estavam o líder protestante John Knox (David Tennant) e Sir William Cecil (Guy Pearce), o conselheiro da rainha Elizabeth I (Margot Robbie), sua prima. Outra novidade do filme é revelação da relação que existia entre as duas rainhas, que é sempre envenenada pela intriga fomentada pela politicagem palaciana. Josie Rourke trabalha com especial cuidado as tentativas de entendimento entre as duas mulheres, que, embora nunca se encontrassem, trocavam muitas correspondências. Margot Robbie está excelente nas duas fases de sua personagem, antes e depois quando tem estampado em seu o rosto os efeitos da varíola. O filme, claro, é todo de Saiorse Ronan, que faz um Mary Stuart atemporal e juvenil, que não sente os efeitos do tempo nem da ira dos seus inimigos. Para ser visto com olhos e coração abertos.


Veja também