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Combinar diferentes vacinas poderia ampliar a proteção contra o coronavírus, avaliam cientistas

Quanto mais vacinas se mostrarem capazes de proteger ao menos em parte os imunizados, mais chance a humanidade terá de transformar o coronavírus em uma doença possível de ser controlada, como a gripe

Agência Fapesp
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Publicado em 06/07/2020 às 8:24
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A Coronavac avançou rapidamente graças ao conhecimento gerado quando se buscava uma vacina contra o SARS-CoV-1 - FOTO: DAY SANTOS/JC IMAGEM
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Mesmo antes de a Organização Mundial da Saúde (OMS) anunciar o coronavírus como uma emergência de saúde pública de importância internacional, em março deste ano, a busca por uma vacina já tinha começado em diversas partes do mundo. Alguns desses estudos têm avançado com uma velocidade sem precedentes na história e, apenas sete meses após o surgimento do SARS-CoV-2, 18 das mais de 140 formulações criadas a partir de diferentes conceitos já estão sendo testadas em seres humanos.

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Duas das candidatas que estão no estágio mais avançado de desenvolvimento – conhecido como ensaio clínico de fase 3, cujo objetivo é avaliar a eficácia da vacina em um grande grupo de voluntários – começam a ser aplicadas experimentalmente no Brasil. Uma delas, a ChAdOx1 nCoV-19, foi desenvolvida pela Universidade de Oxford, no Reino Unido, e licenciada para o laboratório AstraZeneca. A outra, nomeada Coronavac, é fruto do trabalho feito pela empresa chinesa Sinovac Biotech, que firmou um acordo com o Instituto Butantan.

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Por ser um dos locais onde o novo coronavírus mais circula atualmente e onde mais casos de covid-19 são confirmados todos os dias, o Brasil se converteu no local ideal para estudos de eficácia de vacinas e, em breve, outras potenciais candidatas devem aportar por aqui.

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Mas não se trata de uma corrida para ver qual é a melhor ou qual conseguirá obter primeiro a aprovação das agências reguladoras, afirmam os pesquisadores envolvidos nos ensaios clínicos. Quanto mais vacinas se mostrarem capazes de proteger ao menos em parte os imunizados, mais chance a Humanidade terá de transformar a covid-19 em uma doença possível de ser controlada, como a gripe.

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A avaliação foi feita pelos participantes do seminário on-line “As vacinas contra a covid-19 em teste no Brasil”, realizado na última quinta-feira (2), pelo Canal Butantan em parceria com a Agência FAPESP.

“Ter várias vacinas contra a covid-19 aprovadas pode ser útil, pois é possível que a melhor estratégia para induzir uma resposta imune protetora seja combinar várias formulações. Além disso, todos esses estudos em andamento nos permitem aprender mais sobre a resposta imune contra o SARS-CoV-2. Entender como essas vacinas protegem pode nos dar uma ideia mais clara de qual é o marcador de proteção contra a covid-19, o que pode acelerar estudos futuros”, disse o professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FM-USP) Esper Kallás, que coordena no Brasil o ensaio de fase três com a Coronavac. A pesquisa, que incluirá quase nove mil voluntários brasileiros em diferentes estados, é patrocinada pelo Instituto Butantan.

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Feita com uma cepa viral isolada de uma paciente em janeiro, e depois inativada em laboratório por meio de processos químicos, a Coronavac avançou rapidamente graças ao conhecimento gerado quando se buscava uma vacina contra o SARS-CoV-1, o coronavírus que entre 2002 e 2003 causou a epidemia de síndrome respiratória aguda grave (SARS) na China e em alguns outros países, contou Ricardo Palacios, diretor médico de Pesquisa Clínica do Instituto Butantan.

“A vacina contra a SARS avançou até a fase 1 dos testes clínicos. Depois o vírus foi contido e o projeto, interrompido. Mas o conhecimento de como desenvolver vacinas contra um coronavírus foi aproveitado. A empresa seguiu um caminho bem tradicional em um tempo muito curto. Normalmente, as diferentes etapas de testes pré-clínicos e clínicos são feitas uma após a outra, mas eles fizeram várias ao mesmo tempo”, contou Palacios.

A segurança da Coronavac e sua capacidade de induzir no organismo uma resposta de defesa foramtestadas em diferentes espécies de animais. Observou-se que a imunização reduziu significativamente a carga viral na mucosa nasal dos animais infectados e conferiu proteção significativa contra a infecção do pulmão.

Já nas fases 1 e 2 dos ensaios clínicos foram testados a segurança e o potencial imunogênico de diferentes doses da vacina, com diferentes intervalos entre as duas doses administradas. Até o momento, observou-se que 90% dos voluntários que receberam as duas doses desenvolveram anticorpos neutralizantes contra com o SARS-CoV-2.

O tempo de permanência desses anticorpos no organismo e seu potencial protetor contra a covid-19 – ou ao menos contra o desenvolvimento de sintomas severos da doença – é algo que somente os ensaios clínicos de fase 3 poderão informar, comentaram os pesquisadores durante o webinar.

“A produção de anticorpos protetores é o mecanismo principal de atuação da maioria das vacinas. Mas no caso de algumas doenças, para que o desempenho seja bom, a vacina também precisa ser capaz de ensinar as células de defesa a agir contra o patógeno, como é o caso das vacinas novas contra herpes zoster, usadas em pessoas com mais de 50 anos”, explicou Kallás.

De acordo com os participantes do evento, tanto a Coronavac quanto a ChAdOx1 nCoV-19 parecem ser capazes de induzir tanto a produção de anticorpos neutralizantes quanto a chamada imunidade celular, que é o treinamento de determinados tipos de linfócito para que se tornem capazes de reconhecer e atacar as células infectadas pelo SARS-CoV-2.

No caso da vacina britânica, a estratégia adotada foi usar um vírus causador de gripe em símios como vetor para induzir no organismo humano a produção de uma das proteínas do novo coronavírus, conhecida como spike. Presente na superfície do microrganismo, essa proteína de espícula se conecta a um receptor presente na membrana da célula humana para infectá-la. Em tese, se o corpo desenvolver defesas contra essa proteína, poderia impedir que o vírus entre nas células e consiga se replicar caso a pessoa seja contaminada.

A estratégia vinha sendo desenvolvida em Oxford haviaalguns anos para a criação de uma vacina contra a síndrome respiratória do Oriente Médio (MERS), causada pelo coronavírus MERS-CoV. Isso permitiu ao grupo avançar rapidamente para a fase clínica da ChAdOx1 nCoV-19, contou Pedro Folegatti, pesquisador do Jenner Institute, o centro de pesquisa em vacinas da universidade britânica.

“A vantagem dessa tecnologia é que o vetor pode ser adaptado para outras doenças e ele é considerado um bom indutor de resposta humoral [anticorpos] e celular. Há outros grupos testando metodologia semelhante para influenza, tuberculose, febre do Vale do Rift, chikungunya e zika. Todos os estudos mostram perfil consistente de segurança e imunogenicidade com dose única”, disse Folegatti.

Os testes pré-clínicos indicaram que a vacina foi eficaz em proteger a infecção do trato respiratório inferior, que inclui a traqueia, os pulmões, os brônquios, os bronquíolos e os alvéolos pulmonares. No entanto, não mostrou redução significativa da carga viral na mucosa nasal dos animais.

Os ensaios clínicos de fase 1 com a ChAdOx1 nCoV-19 começaram em 23 de abril com 330 voluntários e, cerca de um mês depois, tiveram início as fases 2 e 3. Esta última fase vai incluir cerca de 50 mil voluntários em diversos países, sendo 5 mil no Brasil.

“As negociações para trazer o ensaio de fase 3 para o Brasil começaram em maio. O país estava com uma curva ascendente de infecção e a cidade de São Paulo, então, era o epicentro das infecções no país. Em segundo lugar estava o Rio”, contou a professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) Lily Weckx, que coordena o braço paulista da pesquisa com a vacina de Oxford. Segundo ela, também haverá vacinação de voluntários na Bahia.

O acordo firmado entre a AstraZeneca e a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) prevê a transferência da tecnologia para o Brasil e a licença para produzir o imunizante no país caso ele seja aprovado pelas agências reguladoras.

“O Brasil tem grandes grupos envolvidos em vários estudos de vacina contra a COVID-19 e, ameu ver, isso é algo estratégico para o país. Já que infelizmente nossa situação epidêmica nos fez o local ideal para ensaios de fase 3, que ao menos isso facilite a negociação com as empresas desenvolvedoras, de modo que, se uma ou mais vacinas forem aprovadas, esses imunizantes fiquem disponíveis para a população brasileira, inclusive os mais desfavorecidos”, afirmou Kallás.

Quando a vacina ficará pronta?

Os estudos clínicos em andamento preveem que os voluntários imunizados sejam acompanhados durante 12 meses. No entanto, segundo informou Palacios, é possível que um resultado preliminar seja anunciado antes do término do prazo.

“Se o número de casos entre os imunizados ficar em um patamar considerado satisfatório, um grupo independente de cientistas será chamado para fazer uma avaliação. Se concluírem que o resultado preliminar de eficácia foi estatisticamente significativo, poderá ser anunciado para o público”, disse o diretor do Butantan.

O percentual de pessoas que a vacina precisa proteger para ser considerada eficaz, porém, é algo que ainda não está muito claro. A OMS recomenda algo entre 50% e 70%. Diretrizes recentes divulgadas pela Food and Drug Administration (FDA, agência reguladora norte-americana) determinam que, para poder obter registro nos Estados Unidos, o imunizante deve proteger ao menos uma em cada duas pessoas vacinadas. Na avaliação de Palacios, esse patamar de eficácia seria suficiente.

“Qualquer que seja a vacina aprovada, não vamos acabar com o coronavírus. Ele veio para ficar e vai nos acompanhar durante todas as nossas vidas. O objetivo das vacinas é proteger contra a doença e não contra a infecção. Se conseguirmos alcançar patamares de pelo menos 50%, evitamos o grande problema da sobrecarga no sistema de saúde e da demanda por cuidado intensivo. Assim, convertemos a covid-19 em algo controlável”, disse.

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