CRISE SANITÁRIO

Covid-19: "Parece que é uma política de contar corpos e não de salvar vidas", diz epidemiologista da Fiocruz sobre colapso no Amazonas

Segundo Jesem Orellana, há um merchandising político em torno da pandemia e da crise sanitária registrada no Amazonas

Vanessa Moura
Vanessa Moura
Publicado em 15/01/2021 às 12:00
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MICHAEL DANTAS/AFP
O Amazonas soma quase 203 mil casos e 5.368 óbitos pelo novo coronavírus, segundo dados do Ministério da Saúde - FOTO: MICHAEL DANTAS/AFP
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Em entrevista a Rádio Jornal na manhã desta sexta-feira (15), Jesem Orellana, médico epidemiologista da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) Amazônia, falou a respeito da dramática situação sanitária enfrentada pelo estado do Amazonas, onde o sistema de saúde entrou em colapso, chegando a registrar a falta de oxigênio e leitos para pacientes infectados pela covid-19. 

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"Temos acompanhado relatos, inclusive de populares, pessoas residentes de Manaus que estão estarrecidas com a forma que epidemia tem sido conduzida e enfrentada pelas autoridades sanitárias. Eles têm minimizado a situação, o que resulta nesse cenário dramático, trágico e sem precedentes na história de toda a pandemia de covid-19, não apenas no Brasil, mas no mundo", revelou o especialista. 

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O cenário de guerra observado no Amazonas, segundo o epidemiologista, é fruto de uma gestão irresponsável e negligente. 

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"Somos informados de que as pessoas tem que ser removidas, às vezes de barco, às vezes com UTI aérea, gerando custos vitais incalculáveis e uma infinidade de escoamento de recursos públicos que vão literalmente para o lixo, quando na verdade nós deveríamos estar evitando essa disseminação, evitando abertura de novos leitos e novas covas, mas essa não parece a política do Governo Estadual e menos ainda do Governo Federal, parece que é uma política de contar corpos e não de salvar vidas."

Com o sistema público de saúde completamente colapsado e sem oxigênio para o tratamento dos doentes, o Amazonas começou a transferir pacientes a outros Estados. Há estimativa de que até 750 pessoas tenham de deixar Manaus para serem atendidas em outros locais, inclusive em hospitais universitários. Para o epidemiologista, a real intenção desta medida, adotada pelo governo federal, deve ser questionada. 

“Agora nós estamos entrando em uma fase da tragédia de pirotecnia. Essa medida serve para desafogar a gigantesca demanda reprimida em leitos clínicos e de UTI. No entanto, temos de lembrar que esta é mais uma atitude tomada de forma inoportuna, que tenta apagar o incêndio depois que toda a estrutura está em cinzas, e com isso fazer um merchandising político, para lucrar em cima disso, com aviões da força aérea, quando a discussão deveria ser as causas da negligência que levaram a esta catástrofe humanitária”, afirmou Orellana.

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Ainda de acordo com o médico, a nova cepa da covid-19, que já foi identificada no Amazonas, também deve ser um dos fatores responsáveis por essa explosão viral tão severa do Estado. Desta forma, o envio de pacientes infectados de Manaus para outros estados pode acabar disseminando a nova variante da doença para outros locais do país. 

"Não temos nenhum relato no mundo de tamanha irresponsabilidade sanitária seguida de impunidade. Nós precisamos refletir o que aconteceu e punir severamente os responsáveis pela gestão da pandemia no Estado do Amazonas. Além disso, temos que torcer para que não aconteça o pior nestes estados que estão recebendo os pacientes infectados do Amazonas, porque nós temos que lembrar que nós estamos com uma possível nova cepa que pode obviamente e involuntariamente, ser disseminada por outras regiões do país". 

O número de sepultamentos em Manaus quintuplicou em um mês, segundo dados divulgados pela prefeitura. Na quarta-feira, 198 enterros ocorreram na capital, dos quais 87 tinham confirmação para covid-19 e sete eram de casos suspeitos. Em 13 de dezembro foram 36 óbitos, seis com resultado positivo para o vírus. Isto representa um aumento de 450%. 

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A falta de cilindros de oxigênio, por exemplo, levou pacientes internados à morte por asfixia, segundo relatos de médicos que trabalham na capital amazonense. "Se você ficar 20 segundos sem o oxigênio medicinal você pode desmaiar, e se você ficar 22 minutos você pode morrer, se você ficar mais do que isso você vai morrer com certeza", explica Jesem. "É uma irresponsabilidade, é um crime contra a humanidade, antes de ser um crime sanitário", continua. 

Ao se dar conta do cenário de caos que o Amazonas vive, diversos artistas brasileiros têm se comprometido a ajudar na compra de insumos. O humorista Whindersson Nunes, por exemplo, anunciou que doaria 20 cilindros de oxigênio, enquanto o sertanejo Gusttavo Lima prometeu o envio de 150. O movimento, de acordo com o médico, é válido e, se conduzido de forma racional, tem potencial para frear a crise. 

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"Acho que qualquer medida que seja tomada nesse momento de forma racional e técnica, acima de tudo, algo que tem faltado, certamente tem o potencial de frear a disseminação do novo coronavírus, e, por tanto, a crescente e incalculável demanda por internação de pacientes graves em Manaus", finalizou.  

Ouça a entrevista na íntegra:

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