Sidney Rocha lança seu novo romance na Livraria Cultura

No evento, Anco Márcio Tenório e Zuleide Duarte comentam Fernanflor, publicado pela Iluminuras
Do JC Online
Publicado em 07/10/2015 às 5:09
No evento, Anco Márcio Tenório e Zuleide Duarte comentam Fernanflor, publicado pela Iluminuras Foto: Diego Nigro/JC Imagem


Um livro só se completa quando encontra seus leitores, e o novo romance do cearense radicado no Recife Sidney Rocha, Fernanflor (Iluminuras, R$ 38), ganha seus primeiros hoje, quando é lançado, na Livraria Cultura do Paço Alfândega, às 19h. Nesta entrevista, ele comenta o universo detalhista e expressionista da narrativa, que apresenta um pintor, em seu talento, vaidade e solidão.

JORNAL DO COMMERCIO – Fernanflor tomou cinco anos de escrita. Tem algo de estranho e satisfatório em ver o romance ganhar suas primeiras leituras, travar contato com o público?
SIDNEY ROCHA –
Talvez tenham sido mais. É provável que eu tenha passado meus 50 anos escrevendo este livro. O tempo de um romance é algo que não dá pra se medir, na verdade. A contagem começa antes de começar, e termina muito depois de terminar. Especialmente porque o tempo de trabalho, num romance, não assegura nada em relação à qualidade. O relógio ou o calendário não devem preocupar a quem escreve romances, e nem qualidade é resultado, é fruto desse tempo. Importante para o romance é outro tipo de tempo, é um tempo interior: o ritmo. Goethe passou perto de 70 anos, ou a vida inteira, escrevendo seu Fausto. Kafka escreveu A Metamorfose em 20 dias. O tempo não quer dizer nada.
Acredito que saio diferente (não sei se melhor ou pior) depois de escrever um texto, especialmente um romance. E, porque algo se alterou em mim, sei que há chance deste romance alterar emoções e sentimentos nos meus leitores. Importante é que, ao final, o escritor tenha consciência do quanto avançou, com toda sua honestidade. Fernanflor me dá essa certeza. O que os leitores vão achar não me angustia nem me altera. Isso está no terreno das coisas que nenhum escritor pode controlar. Provocar algum estranhamento: esse deve ter sido o sonho de Goethe e Kafka. E, embora exista gente imune a eles, ali estão dois escritores que realmente conseguiram.
 
JC – Você descreveu o romance como um pouco expressionista. Acredita que a literatura e a linguagem devem sempre ser assim, expressionistas e fortes?
SIDNEY ROCHA –
Sim, verdade: Fernanflor é um romance bem expressionista. Mas tudo está ali em camadas, você nota? Há quem o leia e encontre ali um romance niilista. Dia desses, um crítico falava em Fernanflor como um romance estruturalista, mas não sei do que ele falava. No meu caso, a linguagem é o que interessa – se nisso eu não me omitir de narrar, ou deixar a narrativa para o segundo plano. Aliás, a linguagem tem de estar a serviço da narrativa. A intensidade será a que pede o romance. Aliás dos ‘aliases’: linguagem, intensidade... tudo precisa estar a serviço da narrativa. E nisso não importa a qual “ista” o escritor se filie nem em qual termostato ele confie: na novela ou no romance, o escritor só não pode deixar de ser novelista ou romancista. Do resto, tratem a crítica, os teóricos, os jornalistas. Não é com ele. Agora, não ser um bom narrador tira qualquer romancista do ringue. O verdadeiro escritor sabe disso.
 
JC – Fernanflor é também parte de uma visão maior, de uma trilogia de romances. O que conecta essas histórias? Os personagens, os temas, um formato?
SIDNEY ROCHA –
A trilogia Geronimo é um projeto bem audacioso e não toparia nada parecido se a ideia não tivesse me ocorrido completa e de um só golpe. Precisei somente me preparar para ela, e nisso descobri que o preparo seria viver a vida que restava, atentamente. A ideia, ou mania, no sentido clínico, terminou por me reinventar. A literatura me deu isso, a chance que muitos queriam na vida: se reinventar, fazerem contato com algo perdido, que é a capacidade de se emocionar de verdade com histórias e pessoas, buscar as próprias referências para sentir o mundo. Se você lê Matriuska, verá essa ideia de conexão, já bem clara. Você leu O Destino das Metáforas, sabe do que estou falando, e o leitor atento verá como aqueles contos estão suspensos por uma respiração emocional qualquer.
Escritores buscam “vozes”. Eu busco respirações.
No meu trabalho há isso: entre as coisas todas, uma ligação invisível. Você simplesmente sabe que algo sustenta o conjunto, algum tipo de vácuo a ser preenchido por quem lê.
Formatos, personagens, temas? Não.
A minha obra está ligada por abismos.

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